Opinião

Por , em 23/10/2012 às 12:36  

Ainda Há Salvação para a Zona do Euro

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A Europa tem certos problemas de liquidez que podem ser corrigidos sem que precisemos “mudar tudo isso que está aí”. O motivo fundamental dessa crise é que o Euro aumentou a capacidade de endividamento dos países membros da União Europeia, e eles forçaram esse endividamento até o limite, para manter certos benefícios sociais que não encontravam respaldo na riqueza que essas mesmas economias produziam.

O questionamento de França, Alemanha, Holanda e Finlândia de “porque temos que pagar a conta da farra de Grécia, Portugal e Espanha?” é real. No Brasil, FHC unificou as dívidas públicas em uma só, fazendo a rolagem via Banco Central, o que deu lastro à nossa moeda, apesar de nossas parcas reservas financeiras e do nosso déficit orçamentário anualmente reiterado.

Na Europa, além do déficit orçamentário que foi se acumulando nos últimos 15 anos (se balanceada toda a Zona do Euro), esse endividamento era difuso, sem um controle central. Em um cenário de crise como o iniciado em 2008, se criou uma enorme desconfiança sobre a capacidade dos europeus de manterem o nível de riqueza que construíram nas últimas décadas, bem como seu estilo de vida recheado de benefícios sociais pagos pelo Estado.

A verdade é que a Europa está passando hoje por um processo pelo qual passaram o Uruguai, ainda nos anos 70, e a Argentina, nos anos 90: um empobrecimento generalizado, por não ter como pagar a conta de um Estado (ou de “estados”, no plural) que gastava mais do que arrecadava, por anos a fio – com consequências políticas e sociais na forma como suas populações dialogavam com esse mesmo Estado.

A Europa pode se reerguer, mas há alguns passos fundamentais que precisam ser dados, e cujo custo político é alto:

1) Manter o Euro valorizado, para manter o poder de compra dos trabalhadores e evitar a inflação (o imposto inflacionário é um dos mais covardes que o Estado pode impor aos seus cidadãos, pois se assemelha ao confisco e só beneficia detentores de meios de produção com agregação de valor – por isso gera pobreza no campo, por exemplo);

2) Reduzir os gastos públicos para adequar a capacidade de endividamento de cada país membro ao que este produz anualmente (formando assim um sistema de liquidez para a Zona do Euro, que unifique a gestão macroeconômica de seus membros, para proteção da moeda – ainda que se busque formas de redistribuir regionalmente essa riqueza, como fizeram com Portugal e Espanha antes da criação da ZE);

3) Reduzir drasticamente a burocracia trabalhista, para trazer mais trabalhadores informais e desempregados para um sistema de proteção estatal para esses trabalhadores (com enfoque na Previdência e na Segurança do Trabalho), ainda que com um número menor de benefícios – justamente para poder competir minimamente com países que fazem “dumping social”, como a China comunista;

4) No médio prazo, estabilizada a questão do endividamento de seus países membros, reduzir a carga tributária, para aumentar a poupança privada e quebrar o monopólio de investimento produtivo, que hoje pertence ao Estado, difundindo-o para toda a sociedade (inclusive para pequenos e médios empresários);

5) Paralelamente a essas medidas, enfocar em políticas de fomento à habitação (por exemplo, refinanciando as dívidas das famílias que estão sendo diariamente despejadas na Espanha e em Portugal), à educação (substituindo as bolsas pagas a jovens desempregados, muitos filhos de imigrantes, pelo investimento em cursos de capacitação técnica), e ao cooperativismo produtivo (financiando pequenas cooperativas de bairro, mesmo que não-autossustentáveis, para manterem as pessoas trabalhando, e evitar uma necessidade de aumento dos gastos estatais com segurança pública).

A receita é atacar na macroeconomia (mais enfaticamente, com os pontos 1, 2 e 4) e na microeconomia (pontos 3 e 5). Mas tudo isso é um processo, um novo “pacto” que precisa ser feito, como o que reergueu a Europa no pós-Guerra – com a diferença que, desta vez, ao invés dos dólares norte-americanos, terão que usar o próprio Euro valorizado, que lhes dá mais poder de compra relativo para financiar esses investimentos (adquirindo insumos mais baratos de países com moedas menos valorizadas). O problema é que toda a gordura de ineficiência estatal terá que ser queimada para financiar esse processo de refundação da Europa, e o custo político é alto, porque se enxerga no longo prazo – ainda que se adote medidas de amenização desse “custo” imediatamente (como o refinanciamento das dívidas habitacionais, para evitar o despejo de famílias inteiras na Península Ibérica).

O que a Europa precisa agora é de humildade, para poder adotar as medidas necessárias para manter a sua causa fundamental de altivez: sua cultura milenar, sua qualidade de vida acima da média mundial, e seu acesso universal à cidadania para todos.




7 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por augusto josé sá campello, em 24/10/2012 às 14:39

Boa tarde. Infelizmente, para nosso País, esta crise européia ainda vai se arrastar por um bom tempo. Quanto tempo? Anos, talvez décadas. Poucas, mas décadas. Posso dizer que conheço algo a respeito da Europa. Pouco, mas algo. Ali vivi, trabalhei e estudei. O suficiente para entender que são muito poucos os países "resolvidos" internamente. E menos ainda entre si, enquanto nacionalidades/sociedades/economias. Estas condicionantes de que falo, mais as velhas cicatrizes que ainda sangram, refletem-se na Política. E, os tempos são de decisões políticas. Vejam bem : Angela Merkel não é a líder inconteste da Alemanha. Tão pouco é a vilã do Euro. O arco de tendências partidárias e regionais que Angela Merkel lidera no momento, não lhe permitem esquecer que os bancos alemães têm de ter tempo para desfazer-se de ativos tóxicos ligados à febre imobiliária europeia (e transatlântica - USA) e à doença creditícia ainda na etapa de diagnose. Assim como, muito relevantes para a estabilidade da Alemanha, outras questões econômicas e sociais internas e suas projeções externas. A política, na Europa, é lenta. Não há muitos ditadores ou políticos que assim agem, decidindo, de repente, que o caminho não é mais por ali e sim por acolá. Ajscampello

Por Victor Castro, em 27/10/2012 às 13:43

@ajcampello É por isso que a solução técnica possível não virá da conveniência política, mas da liderança proativa de alguns poucos dipostos a se queimarem publicamente por isso. Tal como fez FHC de 93 a 2002.

Por erikssom patos, em 24/10/2012 às 10:03

Victor veja essa excelente obra de Philipp Bagus: A TRAGÉDIA DO EURO http://www.mises.org.br/files/literature/A%20TRAG%C3%89DIA%20DO%20EURO%20(Backup).pdf

Por Victor Castro, em 27/10/2012 às 13:44

@patos Veja esse vídeo bem divertido, Erikssom: http://www.youtube.com/watch?v=gdqcFnXIIvM

Por milton valdameri, em 23/10/2012 às 13:16

É fácil ser profeta depois que as coisas aconteceram, mas quando criaram o Euro eu fiz a seguinte crítica (que infelizmente não tenho como provar que fiz): os países não devem deixar de ter moeda própria, o Euro deveria ser uma moeda comum, mas não uma moeda única. Em todo caso, agora deixo registrado que considero necessário o retorno das moedas nacionais e a transformação do Euro em moeda comum, mas não em moeda única. Isto não resolveria o problema todos, mas daria autonomia aos países para resolverem seus problemas internos, o modelo ficaria mais dinâmico, ficaria livre do "engessamento" causado pelo Euro.

Por Victor Castro, em 23/10/2012 às 13:40

@miltonv Concordo com você, Milton, e o Euro seria repassado a esses países apenas na proporção dos seus superávits - quando houvesse. Na verdade, a sua proposta se assemelha muito com o que foi a URV em 93 - uma medida de indexação de contratos, visando reduzir a pressão inflacionária sobre a moeda corrente (à época o Cruzeiro Real). Mas há uma diferença em relação à estabilização monetária brasileira, que vai além da disputa geopolítica implícita no conflito entre países da Zona (já que aqui não houve, éramos uma única nação, com um poder central): esses países QUISERAM se endividar além da conta, usando como garantia a maior pujança econômica da Zona do Euro. Ou: Espanha, Portugal e Grécia "pongaram" em França e Alemanha para se endividarem, enquanto essas duas últimas pagavam a conta. Agora está na hora de acertar os ponteiros e ter um tratamento macroeconômico mais isonômico. Resgatar o escudo, o dracma e o peso seria o mesmo que abandonar esses países à própria sorte de inflação galopante e pobreza ainda mais profunda - exatamente o que o casal Kirchner fez com a Argentina nos últimos 11 anos. Oxalá os sindicatos espanhóis e portugueses não sejam vitoriosos nessa disputa.

Por Victor Castro, em 23/10/2012 às 12:46

A Europa tem certos problemas de liquidez que podem ser corrigidos sem que precisemos “mudar tudo isso que está aí”. O motivo fundamental dessa crise é que o Euro aumentou a capacidade de endividamento dos países membros da União Europeia, e eles forçaram esse endividamento até o limite, para manter certos benefícios sociais que não encontravam respaldo na riqueza que essas mesmas economias produziam. O questionamento de França, Alemanha, Holanda e Finlândia de “porque temos que pagar a conta da farra de Grécia, Portugal e Espanha?” é real. No Brasil, FHC unificou as dívidas públicas em uma só, fazendo a rolagem via Banco Central, o que deu lastro à nossa moeda, apesar de nossas parcas reservas financeiras e do nosso déficit orçamentário anualmente reiterado. Na Europa, além do déficit orçamentário que foi se acumulando nos últimos 15 anos (se balanceada toda a Zona do Euro), esse endividamento era difuso, sem um controle central. Em um cenário de crise como o iniciado em 2008, se criou uma enorme desconfiança sobre a capacidade dos europeus de manterem o nível de riqueza que construíram nas últimas décadas, bem como seu estilo de vida recheado de benefícios sociais pagos pelo Estado. A verdade é que a Europa está passando hoje por um processo pelo qual passaram o Uruguai, ainda nos anos 70, e a Argentina, nos anos 90: um empobrecimento generalizado, por não ter como pagar a conta de um Estado (ou de “estados”, no plural) que gastava mais do que arrecadava, por anos a fio – com consequências políticas e sociais na forma como suas populações dialogavam com esse mesmo Estado. A Europa pode se reerguer, mas há alguns passos fundamentais que precisam ser dados, e cujo custo político é alto: 1) Manter o Euro valorizado, para manter o poder de compra dos trabalhadores e evitar a inflação (o imposto inflacionário é um dos mais covardes que o Estado pode impor aos seus cidadãos, pois se assemelha ao confisco e só beneficia detentores de meios de produção com agregação de valor – por isso gera pobreza no campo, por exemplo); 2) Reduzir os gastos públicos para adequar a capacidade de endividamento de cada país membro ao que este produz anualmente (formando assim um sistema de liquidez para a Zona do Euro, que unifique a gestão macroeconômica de seus membros, para proteção da moeda – ainda que se busque formas de redistribuir regionalmente essa riqueza, como fizeram com Portugal e Espanha antes da criação da ZE); 3) Reduzir drasticamente a burocracia trabalhista, para trazer mais trabalhadores informais e desempregados para um sistema de proteção estatal para esses trabalhadores (com enfoque na Previdência e na Segurança do Trabalho), ainda que com um número menor de benefícios – justamente para poder competir minimamente com países que fazem “dumping social”, como a China comunista; 4) No médio prazo, estabilizada a questão do endividamento de seus países membros, reduzir a carga tributária, para aumentar a poupança privada e quebrar o monopólio de investimento produtivo, que hoje pertence ao Estado, difundindo-o para toda a sociedade (inclusive para pequenos e médios empresários); 5) Paralelamente a essas medidas, enfocar em políticas de fomento à habitação (por exemplo, refinanciando as dívidas das famílias que estão sendo diariamente despejadas na Espanha e em Portugal), à educação (substituindo as bolsas pagas a jovens desempregados, muitos filhos de imigrantes, pelo investimento em cursos de capacitação técnica), e ao cooperativismo produtivo (financiando pequenas cooperativas de bairro, mesmo que não-autossustentáveis, para manterem as pessoas trabalhando, e evitar uma necessidade de aumento dos gastos estatais com segurança pública). A receita é atacar na macroeconomia (mais enfaticamente, com os pontos 1, 2 e 4) e na microeconomia (pontos 3 e 5). Mas tudo isso é um processo, um novo “pacto” que precisa ser feito, como o que reergueu a Europa no pós-Guerra – com a diferença que, desta vez, ao invés dos dólares norte-americanos, terão que usar o próprio Euro valorizado, que lhes dá mais poder de compra relativo para financiar esses investimentos (adquirindo insumos mais baratos de países com moedas menos valorizadas). O problema é que toda a gordura de ineficiência estatal terá que ser queimada para financiar esse processo de refundação da Europa, e o custo político é alto, porque se enxerga no longo prazo – ainda que se adote medidas de amenização desse “custo” imediatamente (como o refinanciamento das dívidas habitacionais, para evitar o despejo de famílias inteiras na Península Ibérica). O que a Europa precisa agora é de humildade, para poder adotar as medidas necessárias para manter a sua causa fundamental de altivez: sua cultura milenar, sua qualidade de vida acima da média mundial, e seu acesso universal à cidadania para todos.