Opinião

Por xicograziano, em 16/10/2012 às 09:56  

Ciência dos alimentos: orgânicos e transgênicos

Tamanho da fonte: a-a+

Forte polêmica esquentou o mundo da biotecnologia. Pesquisadores de várias partes do mundo contestaram experimento, realizado na França, relacionando os alimentos transgênicos com câncer. Foram além. Denunciaram logro no trabalho.
A pesquisa testou o efeito em ratos de laboratório de ração contendo milho geneticamente modificado, tolerante ao herbicida Roundup (milho RR). No experimento, porém, descobriram-se grosseiros erros metodológicos. Cientistas brasileiros da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), norte-americanos das Universidades da Califórnia e da Flórida, ingleses do King”s College, de Londres, combateram os resultados, apontando falhas inaceitáveis. Com os mesmos dados poderia ter sido provado o contrário, ou seja, que o milho transgênico reduziu, e não aumentou, o risco de câncer nos bichinhos.
A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EF-SA) publicou análise desqualificando a pesquisa conduzida por Giles-Eric Séralini, conhecido ativista contrário ao uso da engenharia genética na agricultura. Aposição apriorística dele construiu uma conclusão equivocada. Picaretagem científica.
Vem de longe a discussão sobre a cor ideológica da ciência. Nas ciências sociais, sabidamente, existe enorme dificuldade de os cientistas se isentarem de suas posições políticas nos estudos que realizam. A visão de mundo afeta, inevitavelmente, suas formulações teóricas, induzindo ao viés. Por essa razão existem tantas polêmicas na sociologia e na economia.
Nas ciências exatas, por outro lado, praticamente inexiste relação entre conhecimento e ideologia. Na física ou na química, os fenômenos analisados são quantificáveis na exatidão. Mede-se a velocidade da luz, detalham-se as estruturas moleculares. Na matemática, dois mais dois são quatro, e acabou.
Já nas ciências naturais, como a biologia e a agronomia, que estudam os seres vivos e seu ambiente, os fenômenos, além de complexos, variam em sua manifestação. Sua mensuração é difícil, estimada, nunca precisa. Podem-se observar tendências, leis gerais a guiar os processos vitais, mas cada um deles pode reagir distintamente aos estímulos do meio onde vivem. Existem incertezas, imprecisões.
Como diz o caboclo, aqui é que o bicho pega. Mesmo quando não são politicamente engajados, os pesquisadores raciocinam segundo seus princípios culturais e éticos. Isso, obviamente, cria distinções dentro dos laboratórios. Sabendo ser impossível a isenção ideológica, as normas científicas exigem que sejam conhecidos, e divulgados com clareza, os pressupostos básicos e a metodologia dos estudos, estabelecendo uma espécie de lealdade na busca da verdade.
O rigor do método científico separa o bom conhecimento do fajuto. Este surge da empulhação, da fabricação de resultados segundo objetivos não confessáveis. Aqui parece enquadrar-se essa pesquisa sobre o milho transgênico RR e o câncer. Nem a estirpe nem a idade dos ratinhos alimentados em laboratório se conheciam, e sabe-se que, naturalmente, ratos mais idosos tendem a contrair mais câncer do que os jovens.
Neste 16 de outubro se passa o Dia Mundial da Alimentação. Estudiosos da questão da fome concordam que o desafio da segurança alimentar não se vencerá facilmente até 2050, quando se estima que a população mundial venha, com 9 bilhões de pessoas, a se estabilizar. Três processos básicos determinarão o sucesso nessa difícil empreitada contra as restrições alimentares dos povos: expansão das áreas de produção; desenvolvimento tecnológico, elevando a produtividade na agropecuária; e surgimento de novas alternativas de comida.
A engenharia genética cumprirá papel imprescindível rumo à segurança alimentar. Após 15 anos, desde que deixaram os laboratórios e seguiram para o campo, as variedades transgênicas, manifestadas em dezenas de espécies Vegetais, já ocupam 160 milhões de hectares, plantadas por 16,7 milhões de agricultores, em 29 países. Recebidas inicialmente com temor, nunca se avaliou tanto uma tecnologia. Mesmo procurando chifre em cabeça de cavalo, jamais se provou qualquer dano à saúde humana em decorrência de alimento geneticamente modificado. Nenhum caso.
Novas gerações de organismos geneticamente modificados surgem dos laboratórios mundiais. As primeiras transgenias forneceram resistência das plantas a herbicida, depois às lagartas, daí não pararam mais de evoluir. A engenharia genética está inventando plantas resistentes à seca, tolerantes à salinização dos solos, suportáveis a solos mais pobres. Surgem grãos mais ricos em proteínas e vitaminas, frutas mais duráveis ao armazenamento. Nos animais, acaba de ser anunciada, na Nova Zelândia, uma vaca transgênica capaz de produzir leite sem a proteína beta-lacto-globulina responsável por causar alergia em até 3% das crianças no primeiro ano de vida. Incríveis fronteiras da ciência dos alimentos.
Normas internacionais proíbem produtores orgânicos de cultivar plantas transgênicas. Cada vez mais se comprova, porém, com biossegurança, o seu benefício na sustentabilidade dos sistemas produtivos. Superplantas transgênicas, resistentes às pragas e doenças, eliminarão o uso dos agrotóxicos na lavoura. Afora o preconceito ecológico, nenhuma razão agronômica opõe o orgânico ao transgênico. Inimigos hoje, poderão andar de mãos dadas amanhã.
Conhecimento científico não rima com ideologia nem com intolerância. Ele se move, estimulado pelo dinamismo civilizatório, pelo desafio do desconhecido. Transilvânia, em latim, significa “além da floresta”. Na Romênia, acredita-se que lá viveu o assustador Conde Drácula, o mais famoso dos vampiros. Mera crença. Nada que ver com transgênico. Pura ciência.
(Publicado originalmente no Estadão, 16.10.2012)




4 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por augusto josé sá campello, em 16/10/2012 às 14:04

Boa tarde. Em Economia há uma teoria interessante. Chamada de Teoria da Resistência À Inovação. Foi meio que esquecida por conta da pletora de bens e serviços que o homem passou a inventar, fazer, criar, etc. Inclusive bens culturais. Dia desses uma notícia : telefones celulares , laptops e outras traquitanas, quando se recarrega suas baterias, geram calor e ...incêndios. Conversei a respeito com um velho Bombeiro Militar, aposentado e trabalhando como perito de empresa de seguros. A opinião dele foi rápida. Algo como : baterias em recarga geram sim, calor. Mas, estas peças ching-ling que se vê por aí, de má qualidade, é que entram em curto e provocam incêndios. Ou seja, resistência residual à inovação provocada por coisas baratinhas, de qualidade duvidosa. Que não deveriam estar sendo vendidas. Quanto aos transgênicos, penso que é um caminho sem retorno. Ou se cria condições para saciar a fome da humanidade ou caminharemos para situações impensáveis. Ajscampello

Por roberto argento filho argento, em 16/10/2012 às 13:43

Comv´´em ler: http://www.observadorpolitico.org.br/grupos/tecnologia/forum/topic/a-privatizacao-da-ciencia-e-tecnologia-pelo-capital-%E2%98%A3/#post-100171

Por Obi Ser Vando, em 16/10/2012 às 13:52

@argento , muito oportuno. Como visto em : https://www.google.com.br/search?q=trangênicos+ciencia+do+lucro

Por erikssom patos, em 16/10/2012 às 12:52

Pois nunca foi tão necessário como agora reviver os estudos dos filósofos da ciência como Thomas Kuhn e uma das suas obras "A estrutura das revoluções científicas". Como também é muito necessário revivermos os estudos de um outro filosofo da ciência, Imre Lakatos e uma de suas principais obras; "A Metodologia dos Programas de Investigação Científica", e por ultimo não poderíamos deixar o grande filosofo da ciência de fora, Karl Popper e sua famosa obra "A lógica da pesquisa cientifica". É isso aí a turma das comunidades cientificas estão com o pé no atoleiro...