Brasil

Por Bolivar Lamounier, em 30/10/2012 às 11:06  

Com todo respeito, mas também com a devida franqueza

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Peço licença para começar por uma obviedade. Eu respeito todos os partidos em atividade, nos termos e nos limites da lei; respeito o voto de cada cidadão e a preferência da maioria. Isso porém não me impede de hoje reiterar certas avaliações que aqui fiz em diversos momentos da campanha eleitoral.
Reitero, em primeiro lugar, que considero nefastas para a política brasileira a visão e as práticas políticas do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, em especial o papel de chefe de facção que ele tem assumido nos pleitos eleitorais, quando o desejável seria que se comportasse com isenção, como faz todo verdadeiro magistrado.
Não é ilegal, mas é a meu ver abominável o uso que Lula faz de sua incontestável popularidade para eleger o que alguns designam como “postes” e eu prefiro denominar “paus mandados”.
Neste aspecto, o caso de Fernando Haddad parece-me até mais grave que o de Dilma Rousseff. A presidente, bem ou mal, adquiriu uma certa formação técnica; e teve uma atividade política – equivocada, mas teve. Haddad, pelo que me consta, concluiu o doutorado em política com uma tese típica da logorréia marxista. Como ministro da Educação, foi de uma irretocável mediocridade. Por enquanto, tenho pois o direito de supor que a capacitação para administrar a maior cidade da América do Sul custar-lhe-á muito tempo e esforço. Oxalá eu esteja errado, porque o ônus dessa formação tardia poderá tornar-se um fardo para os estratos sociais mais vulneráveis de nossa cidade.
Sei que o PT possui em seus quadros numerosos profissionais e intelectuais de qualidade, e que uma parcela de seus militantes se esforça por adquirir habilidades técnicas. Fato é, porém- como o julgamento do mensalão está evidenciando-, que o partido também abriga uma proporção de incompetentes, picaretas e inescrupulosos ao que tudo indica sem precedente na história partidária brasileira.
Neste particular, a atitude da “maioria (?) silenciosa” petista constitui para mim um segredo dentro de um enigma dentro de um mistério (para lembrar a boa expressão de George Kennan). Custa-me compreender por que nem os intelectuais mais expressivos e respeitáveis conseguiram até aqui dizer algo relevante sobre, entre outras, a questão da corrupção, a propensão a recorrer sistematicamente à mentira, o culto temporão de certas ambiguidades marotas a respeito do ordenamento institucional da democracia e, não menos importante, o endeusamento mistificador de Lula como um novo Padim Ciço.

Sabemos todos que a força eleitoral do PT provém, por um lado, de algumas políticas sociais válidas, mas obviamente insuficientes num prazo mais longo, como alavancas para o desenvolvimento econômico e social, por outro, da já referida mistificação da figura de Lula junto ao estrato de menor renda. É uma combinação poderosa.

Por isso mesmo, penso ser indispensável suscitar desde já uma indagação que me parece de suma relevância no médio e no longo prazos.
A condenação e a provável prisão do mentor principal do projeto petista de poder obviamente não significa que tal projeto haja sido suspenso; ao contrário, a estratégia eleitoral de Lula em 2010 e agora em 2012 não deixa margem para dúvida quanto a suas ambições hegemônicas. Entre a escala de tais ambições e a mentalidade do partido há entretanto um abismo.
Não estarei a revelar nenhum segredo se disser que a mentalidade média do PT é pateticamente retrógrada: na economia, um keynesianismo de fundo de quintal e uma aversão que se diria pavloviana a reformas modernizadoras; na administração pública, a elevação do corporativismo à categoria de um dogma sacrossanto; na educação, entre tantos pontos a levantar, lembrarei apenas a arraigada e irresponsável ojeriza do lulopetismo ao princípio do mérito.
Conquanto se trate de uma obviedade, gostaria de retomar aqui, à guisa de conclusão, o que afirmei no início: o meu respeito pela opção eleitoral de cada um dos cidadãos que compõem o eleitorado paulistano. Na democracia é assim, e eu me orgulho de jamais haver tergiversado quanto a este ponto.
Permito-me porém insistir no ponto delineado no parágrafo anterior. Entre o projeto de poder da máquina petista e a preferência majoritária dos estratos de menor renda, entre tudo o que a mentalidade petista contém de retrógrado e a atração que apesar disso o partido vem representando para os cidadãos que compõem esse estrato, há uma contradição anunciada. São dois polos: um ou outro, ou ambos terão de mudar. Oxalá o possam fazer sem transferir o ônus para toda a próxima geração.

 




8 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por Paulo Ferreira, em 05/11/2012 às 15:04

Como fazer a maioria entender sobre ética ?? Simples, ou aprendem em casa, ou na escola, ou no trabalho, ou na ingreja, ou no buteco, ou nas rodas de funk. Como não há esse aprendizado em nenhum destes locais para a geração atual, fica para a proxima geração se auto reciclar. O fato dos "intelectuais" não conseguirem se manifestar verbalmente deve ser por causa da perplexidade causada pelo fenômeno povo, deram o direito a voto pra todo mundo e agora não podem tomar, sugiro tirar a obrigatoriedade, já que não dá pra subtrair os direitos políticos... O fato da elite estar perdendo jogando nos mostra quão éticos e leais temos sido, aguardando as protelações juridicas se esgotarem e cumprirem as determinações da capa preta, só vai custar algumas gerações. Mas o pior de tudo, é a conversa sobre haver intelectuais no PT, estes estão para nascer, salvo o inventor do bilhete único. Naquela época o transporte público em São Paulo estava se resolvendo sozinho, dos bateau muchi, aqueles onibus caindo aos pedaços leiloados pela antiga CMTC, seguiam pelos bairros da periferia, fazendo o transporte que o então não governo do PT tinha disponibilizado aos usuários, depois vieram as peruas, as bestas, as topics e as sprinter até chegar as Volares, então uma consultoria incrivel conseguiu fazer o dinheiro passar novamente pelas mãos do poder público, e os perueiros passaram a receber metade do valor cobrado, e parte deles foram extintos. Logicamente que houve muitos ganhos, os assaltos diminuiram consideravelmente, os propineiros milicianos tanto oficiais quanto autonomos não puderam ter ganhos ilicitos, mas a ordem social que estava sendo quebrada voltou ao seu normal. O poder trocando de mãos, custe o que custar. Negativo colega, somos éticos, vamos permanecer éticos, vou perder lutando éticamente, não sou quadrilheiro, não sou petista, mas tenho de admitir o PT é de direita.

Por Capitão Caverna, em 02/11/2012 às 08:29

A crítica aqui de Bolivar Lamounier à eleição de Haddad, um representante legítmo do lulismo em São Paulo embute também uma crítica feroz aqueles que toleraram o lulismo de maneira oportunista. A abdicação do papel de oposição do PSDB permitiu o crescimento exagerado do lulismo, especialmente nas camadas menos esclarecidas da população. A lógica política atual, dos políticos profissionais, dos conchavos e trocas fisiológicas, não consegue contrapor-se ao projeto autoritário do lulismo, que usa justamente dessas armas, sem pudor para perpetuar-se no poder. Ser uma verdadeira oposição incluiria a necessidade de combater práticas políticas das quais todos os partidos tiram vantagem... e ai está a armadilha... e ninguém asume esse papel. O discurso do PSDB de moralidade, de rigor e competência administrativa é ridículo, pois coloca para o povo que deve-se trocar a direção do país, dos governos estaduais e municípios sem mudar as práticas que levam à corrupção, ao mensalão... no fundo também é um populismo com sinal contrário ao lulismo... Ah! FHC era melhor, etc... um discurso semelhante, trocando-se apenas os protagonistas... também é um engodo. A verdade é que não há resposta ao projeto hegemônico do PT, pois esse projeto alimenta-se da corrupção, do fisiologismo, da falta de patriotismo de todos os políticos... mesmo com a condenação dos mensaleiros, fica o projeto, fica o modus operandi e a inação de uma oposição que no fundo também só quer o poder! Por que mudar?

Por Luiz Cabral, em 30/10/2012 às 23:16

Concordo plenamente ...

Por roberto argento filho argento, em 30/10/2012 às 19:50

Por Bolivar Lamounier, em 30/10/2012 às 11:06 / 2 opiniões. Com todo respeito, mas também com a devida franqueza TAMANHO DA FONTE: A-A+ Peço licença para começar por uma obviedade. Eu respeito todos os partidos em atividade, nos termos e nos limites da lei; respeito o voto de cada cidadão e a preferência da maioria. Isso porém não me impede de hoje reiterar certas avaliações que aqui fiz em diversos momentos da campanha eleitoral. Reitero, em primeiro lugar, que considero nefastas para a política brasileira a visão e as práticas políticas do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, em especial o papel de chefe de facção que ele tem assumido nos pleitos eleitorais, quando o desejável seria que se comportasse com isenção, como faz todo verdadeiro magistrado. Não é ilegal, mas é a meu ver abominável o uso que Lula faz de sua incontestável popularidade para eleger o que alguns designam como “postes” e eu prefiro denominar “paus mandados”. Neste aspecto, o caso de Fernando Haddad parece-me até mais grave que o de Dilma Rousseff. A presidente, bem ou mal, adquiriu uma certa formação técnica; e teve uma atividade política – equivocada, mas teve. Haddad, pelo que me consta, concluiu o doutorado em política com uma tese típica da logorréia marxista. Como ministro da Educação, foi de uma irretocável mediocridade. Por enquanto, tenho pois o direito de supor que a capacitação para administrar a maior cidade da América do Sul custar-lhe-á muito tempo e esforço. Oxalá eu esteja errado, porque o ônus dessa formação tardia poderá tornar-se um fardo para os estratos sociais mais vulneráveis de nossa cidade. Sei que o PT possui em seus quadros numerosos profissionais e intelectuais de qualidade, e que uma parcela de seus militantes se esforça por adquirir habilidades técnicas. Fato é, porém- como o julgamento do mensalão está evidenciando-, que o partido também abriga uma proporção de incompetentes, picaretas e inescrupulosos ao que tudo indica sem precedente na história partidária brasileira. Neste particular, a atitude da “maioria (?) silenciosa” petista constitui para mim um segredo dentro de um enigma dentro de um mistério (para lembrar a boa expressão de George Kennan). Custa-me compreender por que nem os intelectuais mais expressivos e respeitáveis conseguiram até aqui dizer algo relevante sobre, entre outras, a questão da corrupção, a propensão a recorrer sistematicamente à mentira, o culto temporão de certas ambiguidades marotas a respeito do ordenamento institucional da democracia e, não menos importante, o endeusamento mistificador de Lula como um novo Padim Ciço. Sabemos todos que a força eleitoral do PT provém, por um lado, de algumas políticas sociais válidas, mas obviamente insuficientes num prazo mais longo, como alavancas para o desenvolvimento econômico e social, por outro, da já referida mistificação da figura de Lula junto ao estrato de menor renda. É uma combinação poderosa. Por isso mesmo, penso ser indispensável suscitar desde já uma indagação que me parece de suma relevância no médio e no longo prazos. A condenação e a provável prisão do mentor principal do projeto petista de poder obviamente não significa que tal projeto haja sido suspenso; ao contrário, a estratégia eleitoral de Lula em 2010 e agora em 2012 não deixa margem para dúvida quanto a suas ambições hegemônicas. Entre a escala de tais ambições e a mentalidade do partido há entretanto um abismo. Não estarei a revelar nenhum segredo se disser que a mentalidade média do PT é pateticamente retrógrada: na economia, um keynesianismo de fundo de quintal e uma aversão que se diria pavloviana a reformas modernizadoras; na administração pública, a elevação do corporativismo à categoria de um dogma sacrossanto; na educação, entre tantos pontos a levantar, lembrarei apenas a arraigada e irresponsável ojeriza do lulopetismo ao princípio do mérito. Conquanto se trate de uma obviedade, gostaria de retomar aqui, à guisa de conclusão, o que afirmei no início: o meu respeito pela opção eleitoral de cada um dos cidadãos que compõem o eleitorado paulistano. Na democracia é assim, e eu me orgulho de jamais haver tergiversado quanto a este ponto. Permito-me porém insistir no ponto delineado no parágrafo anterior. Entre o projeto de poder da máquina petista e a preferência majoritária dos estratos de menor renda, entre tudo o que a mentalidade petista contém de retrógrado e a atração que apesar disso o partido vem representando para os cidadãos que compõem esse estrato, há uma contradição anunciada. São dois polos: um ou outro, ou ambos terão de mudar. Oxalá o possam fazer sem transferir o ônus para toda a próxima geração.

Por roberto argento filho argento, em 30/10/2012 às 19:52

@argento: Mais Bolivar Lamounier, menos Barbara Flávia!!!

Por Rodrigo A., em 30/10/2012 às 21:52

@argento Boa, mais Bolívar.

Por mario jota, em 30/10/2012 às 19:26

Suas palavras tem aquilo que gostaríamos de ouvir e estou reproduzindo uma delas: ""Custa-me compreender por que nem os intelectuais mais expressivos e respeitáveis conseguiram até aqui dizer algo relevante sobre, entre outras, a questão da corrupção, a propensão a recorrer sistematicamente à mentira, o culto temporão de certas ambiguidades marotas a respeito do ordenamento institucional da democracia e, não menos importante, o endeusamento mistificador de Lula como um novo Padim Ciço"" Estes intelectuais petistas, se é que podemos chamar estes picaretas de intelectuais, se mantém num silêncio ensurdecedor onde a única conclusão que podemos tirar é: são iguais e concordam que roubar dinheiro público não é crime. O interessante é sabermos os nomes desses supostos intelectuais, esses picaretas precisam ser identificados para podermos tomar os devidos cuidados com suas falas e idéias.

Por augusto josé sá campello, em 30/10/2012 às 15:56

Boa tarde. Faço minhas as suas palavras. Principalmente quando faz votos de que a maneira de fazer política do PT, que a meu ver contaminou grande parte dos demais partidos, não venha a prejudicar gerações futuras. Ajscampello