Comunicação

Por Gabriel Rossi, em 08/11/2012 às 09:59  

Eleição sem internet, mais uma vez

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As eleições municipais acabaram. E mais uma vez não se obteve no Brasil aquela utópica ideia de conquistar eleitores pela internet. Já se vão quase 20 anos do surgimento efetivo da rede no Brasil, com avanços como a banda larga para milhões de pessoas, e eleitores, nos últimos anos, mas em pouco a web tem ajudado os candidatos a crescerem nas intenções de voto. Há, claro, uma conquista de voto aqui e ali, mas no geral as campanhas online ainda pecam pelo amadorismo e, por isso, são supérfluas.

“Mas se os Estados Unidos conseguiram, aqui também conseguiremos”, logo vem a ponderação de especialistas de araque, marquetólogos e políticos, que ainda não se cansaram de lembrar o caso de Barack Obama, já há longínquos quanto anos (muito tempo na internet). Sim, Obama mudou a visão de uma campanha política digital, mas agora é hora de pensar adiante.

Nestas eleições brasileiras, se avaliarmos os métodos usados pelos candidatos para atingir o eleitorado, é perceptível que, no final das contas, o uso da internet contribuiu apenas para aumentar a antipatia do cidadão em relação à política. São Paulo é o maior exemplo. Ataques na web sobre o mensalão ou a chamada privatização tucana só atingiram militantes ou eleitores já muito familiarizados com os assuntos. Para o resto do eleitorado as disputas caracterizaram uma batalha pra surdos: só ouve quem quer.

O erro está na origem. Muitas campanhas na internet foram feitas para militantes “sedentos por sangue”, em vez de tentar sensibilizar o eleitor. As equipes dos candidatos encheram redes sociais – especialmente Twitter e Facebook – com o que podemos chamar de “molecagem agressiva”. É evidente que atacar tira voto do adversário, como vimos com Celso Russomano no primeiro turno – vítima de ataques em duas frentes, PSDB e PT – e até com José Serra e Fernando Haddad, ambos com oscilações de votos após receberem ataques. Mas este tipo de postura permite que o oponente também ataque, o que com o passar dos dias zera o saldo deste tipo de ação. Mais: se o atacado perde votos, quem ataca perde valor de imagem. E isso, quando a urna está à frente, afeta o voto.

As redes sociais só foram utilizadas pelas campanhas para difusão de piadinhas e ofensas a oponentes. Que levante a mão quem viu uma proposta de candidato veiculada em larga escala nestas plataformas. A realidade, por mais tétrica, nefasta e bizarra que seja, é que o debate de qualidade na internet praticamente inexistiu.

É preciso atentar para o comportamento do eleitor, para seus desejos e necessidades, para o bate-papo, na web ou fora dela. Os candidatos também pecaram por não terem estratégias mais bem articuladas para atingir a nova classe média. Ela quer inclusão, é mais pragmática e imediatista que outras e se interessa por micropolítica  – atendimento na saúde, educação, escolas mais próximas – exatamente assuntos que um prefeito pode agir com segurança.

O fato é que ninguém olhou para “neoeleitor”, o cidadão que está conectado 24 horas por dia, ou em boa parte dele, uma pessoa cética, que debate com eficiência, não se apega tanto a partido político, mas, sim, a propostas. É quem deixou de ser convencido meramente por propaganda eleitoral e que abomina a distribuição de santinhos e a fixação de faixas, banners e cavaletes. Tem outra característica importante: muda conforme a emoção. O candidato que deseja convencer o neoeleitor não pode apenas ser diferente, precisa continuar sendo diferente.

Ainda temos no Brasil a imagem do publicitário “salvador”. Se no passado a tal vedete era a mandachuva de toda uma campanha, agora isso deve ser repensado. É uma figura onerosa e desproporcional perante outras atividades de campanha. Ela endivida os partidos e retira investimentos que poderiam ser alocados, por exemplo, em estrategistas de marketing, equipe profissional de internet e pesquisas qualitativas online. O “publicitário mágico” começa a cair por terra com os resultados de 28 de outubro.

Entramos em uma fase que a questão moral ganha mais força. O aborto, o direito dos animais e a sustentabilidade, por exemplo, tomam o lugar de assuntos de outrora, como as tradicionais questões sociais. E a religião também passa a ser um importante fator político, principalmente pela facilidade que os líderes religiosos têm de penetrar nas comunidades e servirem como porta-vozes dos políticos. A internet terá um papel importante nessa nova realidade.

Que os políticos aprendam a lição. Quem ganha com isso é a população.

 

* Gabriel Rossi é palestrante e especialista em marketing

 




2 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por Paulo Ferreira, em 08/11/2012 às 11:31

Além da demagogia que poderia ter sido escrita nos santinhos, deveria ter ao menos a proposta principal do partido bem facil do eleitor perceber. No "meu bairro" haviam votos validos suficiente para eleger 2 vereadores do bairro, mas haviam 8 candidatos muito ruins, sabe quantos do bairro foram eleitos ? Nenhum e não foi por falta de votos, foi por falta de propostas que atingissem o coletivo consciente do eleitor. Independente do estrelismo deste comentario, atente ao fato por si só, é hora de se perguntar o que o partido quer daqui a 2 anos, repetir o que aconteceu agora, duvideodó.

Por Paulo Ferreira, em 08/11/2012 às 11:25

"As redes sociais só foram utilizadas pelas campanhas para difusão de piadinhas e ofensas a oponentes. Que levante a mão quem viu uma proposta de candidato veiculada em larga escala nestas plataformas. A realidade, por mais tétrica, nefasta e bizarra que seja, é que o debate de qualidade na internet praticamente inexistiu." Procurei propostas para a minha região, como não encontrei alguma que satisfizesse os interesses coletivos, já sabe né..