Opinião

Por José Antônio da Conceição, em 06/12/2012 às 13:54  

REPUBLICANDO – ÉTICA – A Concorrência e o Cinismo

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Uma característica central do sistema de mercado capitalista é a concorrência, a sobrevivência do mais fortes/competente. Hoje é muito comum ouvirmos ardorosas defesas da “livre concorrência” por aqueles que acreditam que o mercado tem solução para todos os nossos problemas econômicos e sociais. Essa defesa incondicional da livre concorrência faz parte do mito do progresso. Como vimos acima, segundo esse mito a humanidade conseguirá chegar ao paraíso, à acumulação infinita que possibilitará a satisfação de todos os desejos, através do progresso tecnológico. Quanto mais progresso técnico, mais perto do paraíso. O segredo está na maximização do progresso.

Para se obter o máximo de progresso é preciso que os mais competentes estejam à frente dos negócios. Pois os menos competentes só atrasariam o ritmo do progresso. E a concorrência é exatamente o processo de seleção dos mais competentes ou fortes. A concorrência também tem outra função. Como o mundo é finito, de bens escassos, não é possível que todos satisfaçam o seu desejo de acumulação infinita.

À primeira vista, um indivíduo só pode realizar esse seu desejo na medida em que ele derrota os seus concorrentes nessa corrida sem fim. Assim, a concorrência nasce desse conflito de interesses. Na verdade, ninguém vai poder satisfazer o desejo de posse infinita. Mas, enquanto não se chega a essa conclusão, a concorrência é vista como o caminho natural para a realização de todos os desejos.

Essa lógica da concorrência gera uma continua ansiedade e tensão nos que ainda estão lutando dentro do mercado, e dificuldades de sobrevivência para aqueles que são expulsos do mercado. Pois numa sociedade em que toda a produção está voltada para o mercado, estar fora do mercado significa não ter acesso aos bens necessários para a sobrevivência.

Mas na medida em que esta realidade social é aceita como a “realidade”, como a única possível, acaba gerando conformidade nas pessoas e um certo sentimento de segurança E o sofrimento, a miséria e a morte dos excluídos do mercado são vistos e legitimados como “sacrifícios necessários” para o progresso econômico da sociedade.

A sensação de “normalidade” diante da realidade social leva, muitas vezes, a uma atitude de cinismo, de pensar que as coisas são assim mesmo ou que “eu não tenho nada a ver com isso”, diante dos graves problemas sociais gerados pela lógica do mercado. Problemas esses que não se pode esconder ou negar, por mais que se construam muros em torno dos condomínios fechados ou de outros espaços “privês”. Pois os pobres que nunca Puderam participar dos benefícios e chances proporcionados pelo mercado e os mais “fracos” que foram sendo expulsos do mercado continuam ainda a fazer parte da sociedade. Só que sem possibilidades de uma vida digna.

Postura de cinismo ou Indiferença frente aos problemas sociais e às dificuldades de sobrevivência dos que estão fora do mercado, é o outro lado da moeda da expulsão da ética das discussões econômicas, ou da substituição da ética pela técnica econômica.

Autores: Jung Mo Sung e Josué Cândido da Silva. Livro: Conversando Sobre ética. Ed.: Vozes.




1 opinião publicada

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Por augusto josé sá campello, em 07/12/2012 às 12:50

Boa tarde, amigo José da Conceição. Já tentei dar minha contribuição umas duas vezes. Sempre me aparece a fatídica tela branca com indicativo de erro. Portanto, vou ser rápido. O ogro maldito do mercado teve sua lógica interna muito alterada nos últimos 30 anos. Esta alteração ainda está em curso. Vai demorar a se estabelecer plenamente. Mas vai. Ajscampello