Opinião

Por , em 04/12/2012 às 16:33  

Resposta ao Presidente FHC, “Melancolia e Revolta”

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“Não sou propenso a queixas nem a desânimos. Entretanto, ao pensar sobre o que dizer nesta crônica senti certa melancolia. Escrever outra vez sobre o ‘mensalão’ e sobre o papel seminal do STF? Já tudo se sabe e foi dito. Entrar no novo escândalo, o do gabinete da Presidência em São Paulo? Não faz meu estilo, não tenho gosto por garimpar malfeitos e jogar mais pedras em quem, nesta matéria, já se desmoralizou bastante.”

- O PSDB tem se furtado ao debate sobre as causas do “mensalão”, abdicou do papel de vanguarda como teve no plebiscito de 1993, e se furta agora de adentrar o debate sobre o aparelhamento da máquina pública pelo PT, em detrimento dos servidores concursados, de carreira, que são preteridos nesses cargos em favor de afilhados políticos.

“Tentei mudar de foco indo para o econômico. Mas, de que vale repetir críticas aos equívocos da política petrolífera, que começaram com a redefinição das normas para a exploração do pré-sal. As novas regras criaram um sistema de partilha que se apresentou como inspirado no ‘modelo norueguês’ –no qual os resultados da riqueza petrolífera ficam em um fundo soberano, longe dos gastos locais, para assegurar bem estar às gerações futuras – quando na verdade se assemelha ao modelo adotado em países com regimes autoritários. Até aqui o novo modelo gerou apenas atrasos, custos excessivos e estagnação na produção de petróleo, além de uma briga inglória (e injusta para com os estados produtores) a respeito de royalties que ainda não existem e que, quando existirem, serão uma torneira aberta para gastos correntes e pressões inflacionárias. A contenção do preço da gasolina já se tornou rotina, mesmo que afete a rentabilidade da Petrobrás e desorganize a produção de etanol. O objetivo é segurar a inflação por artifícios e garantir a satisfação dos usuários. Calo sobre os efeitos da redução continuada do IPI para veículos e do combustível artificialmente barato. Os prefeitos que cuidem de aumentar ruas e avenidas para dar cabida a tanto bem estar… e os moradores das grandes cidades que se munam de ainda maior paciência para enfrentar mais congestionamentos.”

- Anote-se que o PSDB se manteve omisso quanto à partilha dos royalties do petróleo, ao invés de propor um modelo similar ao norueguês, pensando numa rentabilidade futura para os nossos cofres públicos, que sobreviva à sanha perdulária do PT no poder.

“E que dizer da tentativa de cortar o custo da energia elétrica que teve como resultado imediato a perda de valor das ações das empresas? E essa agora de altos funcionários desdizerem o anunciado e, sem qualquer segurança sobre como será ajustado o valor do patrimônio das empresas do setor elétrico, provocarem súbitas altas nas ações? O pior é que ninguém será responsabilizado por eventuais ganhos de especulação advindos da falta de compostura verbal. Valerá a pena insistir em que o trem-bala é um desvario na atual conjuntura, pois terminará sendo pago pelos contribuintes, como estão sendo pagas as usinas mal licitadas? Para construção destas, pelas condições estabelecidas pelo próprio governo, praticamente só acorrem empresas estatais financiadas pelo BNDES com dinheiro transferido do Tesouro, quer dizer, seu, meu, nosso. E as rodovias, e os aeroportos? Uma novela que já vai longe, numa trama desencontrada. Tomara ainda tenhamos final feliz…”

- Nesse ponto, a crítica foi perfeita, mas não vejo o PSDB discutir mobilidade urbana, a menos quando é para jogar todo o ônus sobre o cidadão, como no absurdo rodízio de veículo da cidade de São Paulo – sempre o caminho mais fácil e mais déspota!

“Olhando em retrocesso, nos anos da grande ilusão lá pelos finais de 1970 e meados dos 1980, os ‘projetos-impacto’, como a Transamazônica, a Ferrovia do Aço e outros tantos, feitos a partir de decisões tecnocráticas nos gabinetes ministeriais, nos estarreciam. Clamávamos também contra indícios de corrupção. Não poderíamos imaginar que depois das greves de São Bernardo e das Diretas Já, as mesmas distorções seriam praticadas por alguns que então as combatiam. Criticava-se tanto o nepotismo e o compadrio, a falta de profissionalismo na administração e de transparência nas decisões e imaginava-se com tanta fé que o Congresso livre daria cobro aos desmandos, que é difícil esconder a desilusão. As proezas de cinismo e leniência praticadas por alguns dos personagens que apareciam como heróis-salvadores são chocantes. Dá lástima ver hoje uns e outros confundidos na coorte de dúbios personagens que alegam nada saber dos malfeitos.”

- Falta o PSDB bater mais nessa tecla, buscar formas menos megalomaníacas de reestruturar nossa infraestrutura energética e de transportes, e hoje nem Minas nem São Paulo nos apresentaram essas alternativas.

“O que entristece, porém, não é só a conduta de algumas pessoas. É o silêncio das instituições democráticas. A mídia fala e cumpre seu papel. Cumpre-o tão bem que é confundida pelos que sustentam os malfeitos como se fosse ela e não a polícia quem descobre os desatinos ou como se servisse à oposição interessada em desgastar o governo. Recentemente, algumas instituições de estado começaram a agir responsavelmente: o Ministério Público pouco a pouco perdeu o ranço ideológico para se concentrar no que lhe é devido, a defesa da lei em nome da sociedade. Os Tribunais, especialmente depois do Conselho Nacional de Justiça ser organizado, começam a sacudir a poeira e a julgar, dando-lhes igual o réu ser potentado ou pobretão. Mas o Congresso e os partidos estão longe de corresponder aos anseios dos que escrevemos a Constituição de 1988.”

- Elogio justo, mas que deixa de lados certos abusos que têm sido cometidos pelo Parquet em nome do “politicamente correto”, e ignora ainda (propositalmente?) que a Justiça é um privilégio para poucos, endinheirados, pois mesmo com a Lei de Juizados, os procedimentos ainda são inacessíveis para o grosso da população, iletrada: essa classe C que o próprio FHC tanto vangloria.

“O Congresso, que na Carta de 1988, por sua inspiração inicial parlamentarista, ficou com responsabilidades enormes de fiscalização, prefere calar e se submeter docilmente ao Executivo. Voltamos aos tempos da República Velha, com eleições a bico de pena e as Comissões de Verificação dos Poderes, que cassavam os oposicionistas. Só que agora somos ‘modernos’: não se frauda o voto, se asseguram maiorias pelos balcões ministeriais ricos em contratos e por emendas parlamentares distorcidas. Com maiorias de 80% parece até injusto pedir que a oposição atue. Como?”

- Voltamos à crise de representatividade do Parlamento, nos 3 níveis federativos. O que fazer a respeito, Sr. Presidente? O PSDB já tem uma posição COESA E UNIFICADA, sobre a reforma política? Como pode então querer dar “pito” no bloco governista?

“De qualquer maneira, é preciso bradar e mostrar indignação e revolta, ainda que pouco se consiga de prático, mesmo sem esperança de vitória ou retribuição imediata, como se fazia no tempo do autoritarismo. Não há bem que sempre dure nem mal que não acabe. Chegará o momento, como chegou nos anos 1980, em que, com toda a aparência de poder, o Sistema fará água. Entre as centenas, talvez milhares de pessoas que se beneficiam da máquina do poder e os milhões de pessoas ‘emergentes’ ávidos por melhorar sua condição de vida por este Brasil afora, há espaço para novas pregações? Novas ilusões? Quem sabe. Mas sem elas, é a rotina do já visto, das malfeitorias e dos ‘não sei, não vi, não me comprometo’.”

- Sr. Presidente, nem mesmo as conquistas do monetarismo do Plano Real estão intactas, com uma inflação de 6% ao ano, e um aumento anual do endividamento público, agravado pelo ímpeto desenvolvimentista de sacrificar o câmbio em nome da geração de empregos (numa fórmula keynesiana de trocar poder de compra por carteira assinada), o que vai “fazer água” é o próprio Plano Real e suas conquistas, retrocedendo que estão diante da demagogia fisiológica da dupla PT-PMDB.

Estamos órfãos de representatividade, e é uma pena que FHC não seja o PSDB, e que o PSDB tenha se tornado um partido esquizofrênico, dividido entre um politicamente correto burro e um conservadorismo ainda mais tacanho. A vanguarda, parlamentarista, monetarista, que buscava dar justiça e cidadania a todos, sem abdicar das liberdades individuais de foro íntimo, aquela vanguarda de Montoro, Covas, Ruth, Távola… bem, esse partido MORREU!

FHC representa o mesmo sussurrar agonizante de João Paulo II em 2005, cada um vendo morrer o sonho, e expressando esse momento de dor em lamúrias derradeiras, enquanto os bárbaros se preparam para destruir todas as conquistas do passado. Não é à toa que, tal qual Átila, o Huno, a “bárbara” venha da região da Bulgária. Coincidência?




19 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por augusto josé sá campello, em 05/12/2012 às 12:12

Bom dia. Esquecer é uma arte. Esquecer que a PF estava saindo do caos. Mal paga e sem instalações e equipamentos. Esquecer que a tal compra de votos supostamente articulada por S Motta jamais foi, nem de perto comprovada. E que na realidade foi veneno espalhado por quem havia "outorgado" milhares de emissoras de rádio e de tv para políticos e apadrinhados. Esquecer que instituições como o TCU, MPF, e outras, representaram uma luta no sentido de sua implantação. Esquecer que o PSDB, como partido de oposição não tem vez nem voz. Que sua presença no Congresso é abaixo da minoritária. É fácil. Olha meu caro Victor, assisti a estas e muitas outras coisas, de cadeira. Em Brasilia. Onde até o cara do cafezinho sabe do que se passa. E, para finalizar, veja bem, não estou defendendo a era FHC. O que defendo é a história recente de nosso país. Ajscampello

Por Victor Castro, em 05/12/2012 às 15:12

@ajcampello Augusto, veja como finalizei o texto: "Estamos órfãos de representatividade, e é uma pena que FHC não seja o PSDB, e que o PSDB tenha se tornado um partido esquizofrênico, dividido entre um politicamente correto burro e um conservadorismo ainda mais tacanho". Sou talvez o maior fã de FHC aqui no OP, porque o sou pelos motivos certos: o Plano Real, com TODAS AS MEDIDAS QUE SE FAZIAM NECESSÁRIAS, e a coragem dele em sacrificar sua popularidade em nome do melhor para o país. O que critico hoje nele e no PSDB é que ambos preferem ficar na zona de conforto, a se expor e buscar ser vanguarda novamente, trazer um projeto político novo, ainda que sob certas premissas imutáveis (a prevalência das liberdades individuais sobre o interesse coletivo, o que sempre diferenciou o PSDB do marxismo de PT e PDT; o monetarismo como forma de blindar o trabalhador assalariados das variações negativas do mercado; o parlamentarismo como alternativa à crise de representatividade política que vivemos). O PSDB abdicou de ser vanguarda, e FHC hoje se limita a ser vanguarda na questão das drogas - porque não expande esse entendimento, por exemplo, para abraçar a bandeira do abolicionismo penal? Estaria em excelente companhia de grandes juristas libertários do Brasil. Não tenho a pretensão de que o PSDB seja liberal, se apenas voltasse a ser o PSDB de 94, já estaria de excelente tamanho.

Por lauro esteves, em 04/12/2012 às 22:39

Argento, todos os meus posts são haqueados.

Por lauro esteves, em 04/12/2012 às 21:34

NO GOVERNO FHC CORRUPÇÃO ERA DESCARADAMENTE ACOBERTADA Ontem (3), o ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, afirmou publicamente que “A corrupção não está mais debaixo do tapete” e que, “Hoje, há mais autonomia dos órgãos de fiscalização e controle como o Ministério Público, a Controladoria Geral da União (CGU) e a Polícia Federal”. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de pronto, rebateu a afirmação de Carvalho. À noite, no Jornal Nacional, a reportagem mostrou parte das declarações do ministro e do ex-presidente sobre o assunto. FHC, visivelmente alterado, qualificou como “leviandade” a declaração do adversário político. Vejamos, pois, quanto de motivos teve o ex-presidente para se irritar assim com a declaração do ministro de Dilma. FHC, quando governou, foi beneficiário da cumplicidade da mídia, que ajudou a acobertar descaradamente a corrupção ao sonegar ao público notícias sobre escândalos que dispensariam o bom e velho “domínio do fato” devido à vastidão de provas que havia. Nesse ponto, há que fazer jus ao jornal Folha de São Paulo, o único grande veículo que denunciou adequadamente a compra de votos para a reeleição de FHC, quando deputados da base aliada de seu governo foram grampeados declarando, ipsis-litteris, que haviam sido pagos pelo então ministro (hoje falecido) das Comunicações, Sérgio Motta, para votarem a favor da emenda constitucional que permitiu ao tucano obter um segundo mandato em 1998. Além de FHC ter mudado as regras de jogo com ele em andamento ao propor ao Congresso a emenda da reeleição – o que Lula não se permitiu fazer apesar de ser tratado pela mídia tucana como se tivesse tentado e não conseguido –, ainda teve uma denúncia muito bem fundamentada, com provas materiais, de que deputados foram pagos para apoiá-lo. Além da Folha de São Paulo, nenhum veículo de peso deu destaque ao escândalo. E o procurador-geral da República de então, que o presidente tucano manteve no cargo por oito anos – Lula, nesse período, nomeou QUATRO procuradores-gerais –, não esboçou a menor reação. Observação: essa foi a principal razão de o ex-PGR Geraldo Brindeiro ter sido alcunhado como “engavetador-geral da República”. Controladoria Geral da União? No governo FHC chamava-se Corregedoria, em vez de Controladoria, e jamais incomodou o governo, enquanto que a CGU de Lula e Dilma tem sido uma pedra no sapato deles, pedra colocada por eles mesmos no âmbito do esforço hercúleo que fizeram para dar transparência ao que o antecessor tucano escondia. Polícia Federal? Essa só serviu mesmo para ajudar o governo, ou melhor, o candidato do governo FHC à própria sucessão. Ou alguém esqueceu que a PF só incomodou políticos da oposição durante a era tucana e que seu maior feito foi em 2002, quando destruiu a candidatura de Roseana Sarney para ajudar o candidato governista, José Serra? FHC esbofeteou a nação ao comparar a omissão criminosa dos órgãos de controle de seu governo (no que tangia a investigá-lo) com a atuação deles hoje. E esse crime foi cometido com o concurso de praticamente toda a grande imprensa, que não só fechou os olhos para a corrupção da era tucana como levantou escândalos só contra a oposição petista. E se você, acha exagero, assista o vídeo (completo) de entrevista que o dito “decano do colunismo político brasileiro”, Janio de Freitas, da Folha de São Paulo, concedeu ao programa Roda Viva. Na ocasião, como se pode ver no vídeo, afirmou que a mídia funcionou como “suporte político” do governo FHC.

Por Victor Castro, em 05/12/2012 às 15:14

@capeto Então tá, campeão. O PT está há 10 anos no Poder, e nunca conseguiu provar nenhuma dessas acusações. Preguiça de pesquisar nos arquivos do Governo Federal?

Por roberto argento filho argento, em 04/12/2012 às 22:08

@capeto: Poderia ter feito como um Post.

Por Ricardo Froes, em 04/12/2012 às 18:46

Cabia no post dele, mas a vaidade em mostrar o intelecto foi maior, não é Victor?

Por Victor Castro, em 05/12/2012 às 15:15

@bobjaniak Bob, não foi vaidade não, é porque o tópico lá tem 52 comentários, ia ficar perdido no meio de um monte de "apoiado" e "muito bem, Presidente". Achei que merecia um tópico para uma discussão mais aprofundada.

Por Ricardo Froes, em 06/12/2012 às 09:26

@victorcfs Foi só uma cutucada de brincadeira, Victor. Nada contra. Desculpe.

Por Ane C. C. Silva, em 05/12/2012 às 14:24

@bobjaniak Não gosta de ser contrariado, sabichão do OP?

Por Ricardo Froes, em 06/12/2012 às 09:24

@voltemmilitares Fica quieta, Maria Batalhão!

Por Ane C. C. Silva, em 04/12/2012 às 21:13

@bobjaniak Olha só quem fala. Você já fez isso várias vezes aqui; Usar o comentário de uma discussão pra criar outra. E quem não tem uma vaidadezinha na vida, que atire a primeira pedra no Vitor.

Por Ricardo Froes, em 05/12/2012 às 08:45

@voltemmilitares Fica quieta aí, maria batalhão!

Por Obi Ser Vando, em 04/12/2012 às 17:31

Os blogs não estão sendo atacados Para saber se é blog ou discussão normal veja o endereço na barra do navegador os blogs são http://www.observadorpolitico.org.br/2012/12/... onde 2012 é o ano e 12 é o mês de postagem. as discussões são http://www.observadorpolitico.org.br/grupos/... como visto em http://www.observadorpolitico.org.br/grupos/internet/forum/topic/blogs-do-op-nao-sao-vulneraveis-aos-ataques-virtuais

Por roberto argento filho argento, em 04/12/2012 às 17:13

<form action="#" method="post" data-user-logged="true" > <textarea readonly="readonly" name="topic_title" class="countChar" data-max="140" data-target="countTitulo" > Resposta ao Presidente FHC, “Melancolia e Revolta” </textarea> <br> <textarea readonly="readonly" name="topic_text" data-target="countMsg"> “Não sou propenso a queixas nem a desânimos. Entretanto, ao pensar sobre o que dizer nesta crônica senti certa melancolia. Escrever outra vez sobre o ‘mensalão’ e sobre o papel seminal do STF? Já tudo se sabe e foi dito. Entrar no novo escândalo, o do gabinete da Presidência em São Paulo? Não faz meu estilo, não tenho gosto por garimpar malfeitos e jogar mais pedras em quem, nesta matéria, já se desmoralizou bastante.” - O PSDB tem se furtado ao debate sobre as causas do “mensalão”, abdicou do papel de vanguarda como teve no plebiscito de 1993, e se furta agora de adentrar o debate sobre o aparelhamento da máquina pública pelo PT, em detrimento dos servidores concursados, de carreira, que são preteridos nesses cargos em favor de afilhados políticos. “Tentei mudar de foco indo para o econômico. Mas, de que vale repetir críticas aos equívocos da política petrolífera, que começaram com a redefinição das normas para a exploração do pré-sal. As novas regras criaram um sistema de partilha que se apresentou como inspirado no ‘modelo norueguês’ –no qual os resultados da riqueza petrolífera ficam em um fundo soberano, longe dos gastos locais, para assegurar bem estar às gerações futuras – quando na verdade se assemelha ao modelo adotado em países com regimes autoritários. Até aqui o novo modelo gerou apenas atrasos, custos excessivos e estagnação na produção de petróleo, além de uma briga inglória (e injusta para com os estados produtores) a respeito de royalties que ainda não existem e que, quando existirem, serão uma torneira aberta para gastos correntes e pressões inflacionárias. A contenção do preço da gasolina já se tornou rotina, mesmo que afete a rentabilidade da Petrobrás e desorganize a produção de etanol. O objetivo é segurar a inflação por artifícios e garantir a satisfação dos usuários. Calo sobre os efeitos da redução continuada do IPI para veículos e do combustível artificialmente barato. Os prefeitos que cuidem de aumentar ruas e avenidas para dar cabida a tanto bem estar… e os moradores das grandes cidades que se munam de ainda maior paciência para enfrentar mais congestionamentos.” - Anote-se que o PSDB se manteve omisso quanto à partilha dos royalties do petróleo, ao invés de propor um modelo similar ao norueguês, pensando numa rentabilidade futura para os nossos cofres públicos, que sobreviva à sanha perdulária do PT no poder. “E que dizer da tentativa de cortar o custo da energia elétrica que teve como resultado imediato a perda de valor das ações das empresas? E essa agora de altos funcionários desdizerem o anunciado e, sem qualquer segurança sobre como será ajustado o valor do patrimônio das empresas do setor elétrico, provocarem súbitas altas nas ações? O pior é que ninguém será responsabilizado por eventuais ganhos de especulação advindos da falta de compostura verbal. Valerá a pena insistir em que o trem-bala é um desvario na atual conjuntura, pois terminará sendo pago pelos contribuintes, como estão sendo pagas as usinas mal licitadas? Para construção destas, pelas condições estabelecidas pelo próprio governo, praticamente só acorrem empresas estatais financiadas pelo BNDES com dinheiro transferido do Tesouro, quer dizer, seu, meu, nosso. E as rodovias, e os aeroportos? Uma novela que já vai longe, numa trama desencontrada. Tomara ainda tenhamos final feliz…” - Nesse ponto, a crítica foi perfeita, mas não vejo o PSDB discutir mobilidade urbana, a menos quando é para jogar todo o ônus sobre o cidadão, como no absurdo rodízio de veículo da cidade de São Paulo – sempre o caminho mais fácil e mais déspota! “Olhando em retrocesso, nos anos da grande ilusão lá pelos finais de 1970 e meados dos 1980, os ‘projetos-impacto’, como a Transamazônica, a Ferrovia do Aço e outros tantos, feitos a partir de decisões tecnocráticas nos gabinetes ministeriais, nos estarreciam. Clamávamos também contra indícios de corrupção. Não poderíamos imaginar que depois das greves de São Bernardo e das Diretas Já, as mesmas distorções seriam praticadas por alguns que então as combatiam. Criticava-se tanto o nepotismo e o compadrio, a falta de profissionalismo na administração e de transparência nas decisões e imaginava-se com tanta fé que o Congresso livre daria cobro aos desmandos, que é difícil esconder a desilusão. As proezas de cinismo e leniência praticadas por alguns dos personagens que apareciam como heróis-salvadores são chocantes. Dá lástima ver hoje uns e outros confundidos na coorte de dúbios personagens que alegam nada saber dos malfeitos.” - Falta o PSDB bater mais nessa tecla, buscar formas menos megalomaníacas de reestruturar nossa infraestrutura energética e de transportes, e hoje nem Minas nem São Paulo nos apresentaram essas alternativas. “O que entristece, porém, não é só a conduta de algumas pessoas. É o silêncio das instituições democráticas. A mídia fala e cumpre seu papel. Cumpre-o tão bem que é confundida pelos que sustentam os malfeitos como se fosse ela e não a polícia quem descobre os desatinos ou como se servisse à oposição interessada em desgastar o governo. Recentemente, algumas instituições de estado começaram a agir responsavelmente: o Ministério Público pouco a pouco perdeu o ranço ideológico para se concentrar no que lhe é devido, a defesa da lei em nome da sociedade. Os Tribunais, especialmente depois do Conselho Nacional de Justiça ser organizado, começam a sacudir a poeira e a julgar, dando-lhes igual o réu ser potentado ou pobretão. Mas o Congresso e os partidos estão longe de corresponder aos anseios dos que escrevemos a Constituição de 1988.” - Elogio justo, mas que deixa de lados certos abusos que têm sido cometidos pelo Parquet em nome do “politicamente correto”, e ignora ainda (propositalmente?) que a Justiça é um privilégio para poucos, endinheirados, pois mesmo com a Lei de Juizados, os procedimentos ainda são inacessíveis para o grosso da população, iletrada: essa classe C que o próprio FHC tanto vangloria. “O Congresso, que na Carta de 1988, por sua inspiração inicial parlamentarista, ficou com responsabilidades enormes de fiscalização, prefere calar e se submeter docilmente ao Executivo. Voltamos aos tempos da República Velha, com eleições a bico de pena e as Comissões de Verificação dos Poderes, que cassavam os oposicionistas. Só que agora somos ‘modernos’: não se frauda o voto, se asseguram maiorias pelos balcões ministeriais ricos em contratos e por emendas parlamentares distorcidas. Com maiorias de 80% parece até injusto pedir que a oposição atue. Como?” - Voltamos à crise de representatividade do Parlamento, nos 3 níveis federativos. O que fazer a respeito, Sr. Presidente? O PSDB já tem uma posição COESA E UNIFICADA, sobre a reforma política? Como pode então querer dar “pito” no bloco governista? “De qualquer maneira, é preciso bradar e mostrar indignação e revolta, ainda que pouco se consiga de prático, mesmo sem esperança de vitória ou retribuição imediata, como se fazia no tempo do autoritarismo. Não há bem que sempre dure nem mal que não acabe. Chegará o momento, como chegou nos anos 1980, em que, com toda a aparência de poder, o Sistema fará água. Entre as centenas, talvez milhares de pessoas que se beneficiam da máquina do poder e os milhões de pessoas ‘emergentes’ ávidos por melhorar sua condição de vida por este Brasil afora, há espaço para novas pregações? Novas ilusões? Quem sabe. Mas sem elas, é a rotina do já visto, das malfeitorias e dos ‘não sei, não vi, não me comprometo’.” - Sr. Presidente, nem mesmo as conquistas do monetarismo do Plano Real estão intactas, com uma inflação de 6% ao ano, e um aumento anual do endividamento público, agravado pelo ímpeto desenvolvimentista de sacrificar o câmbio em nome da geração de empregos (numa fórmula keynesiana de trocar poder de compra por carteira assinada), o que vai “fazer água” é o próprio Plano Real e suas conquistas, retrocedendo que estão diante da demagogia fisiológica da dupla PT-PMDB. Estamos órfãos de representatividade, e é uma pena que FHC não seja o PSDB, e que o PSDB tenha se tornado um partido esquizofrênico, dividido entre um politicamente correto burro e um conservadorismo ainda mais tacanho. A vanguarda, parlamentarista, monetarista, que buscava dar justiça e cidadania a todos, sem abdicar das liberdades individuais de foro íntimo, aquela vanguarda de Montoro, Covas, Ruth, Távola… bem, esse partido MORREU! FHC representa o mesmo sussurrar agonizante de João Paulo II em 2005, cada um vendo morrer o sonho, e expressando esse momento de dor em lamúrias derradeiras, enquanto os bárbaros se preparam para destruir todas as conquistas do passado. Não é à toa que, tal qual Átila, o Huno, a “bárbara” venha da região da Bulgária. Coincidência? </textarea> <br><input type="submit" name="submit_topic" class="btSendOk" value="Enviar"></form>

Por Victor Castro, em 05/12/2012 às 15:16

@argento Argento, isso é uma forma de blindar contra hackeamentos? Me ensina como faz?

Por Luiz Felipe, em 04/12/2012 às 16:58

"...há espaço para novas pregações? Novas ilusões? Quem sabe. Mas sem elas, é a rotina do já visto, das malfeitorias e dos ‘não sei, não vi, não me comprometo’.” O que vocês têm nesse sentido ?

Por Victor Castro, em 05/12/2012 às 15:17

@luisfelipe Abolicionismo penal nos costumes; parlamentarismo com voto em lista na representatividade; austeridade na política fiscal; monetarismo na política cambial; cooperativismo na microeconomia. Vê como nem tudo se resume a estrutura federativa do seu PNB?

Por Victor Castro, em 04/12/2012 às 16:34

"Não sou propenso a queixas nem a desânimos. Entretanto, ao pensar sobre o que dizer nesta crônica senti certa melancolia. Escrever outra vez sobre o 'mensalão' e sobre o papel seminal do STF? Já tudo se sabe e foi dito. Entrar no novo escândalo, o do gabinete da Presidência em São Paulo? Não faz meu estilo, não tenho gosto por garimpar malfeitos e jogar mais pedras em quem, nesta matéria, já se desmoralizou bastante." - O PSDB tem se furtado ao debate sobre as causas do "mensalão", abdicou do papel de vanguarda como teve no plebiscito de 1993, e se furta agora de adentrar o debate sobre o aparelhamento da máquina pública pelo PT, em detrimento dos servidores concursados, de carreira, que são preteridos nesses cargos em favor de afilhados políticos. "Tentei mudar de foco indo para o econômico. Mas, de que vale repetir críticas aos equívocos da política petrolífera, que começaram com a redefinição das normas para a exploração do pré-sal. As novas regras criaram um sistema de partilha que se apresentou como inspirado no 'modelo norueguês' –no qual os resultados da riqueza petrolífera ficam em um fundo soberano, longe dos gastos locais, para assegurar bem estar às gerações futuras – quando na verdade se assemelha ao modelo adotado em países com regimes autoritários. Até aqui o novo modelo gerou apenas atrasos, custos excessivos e estagnação na produção de petróleo, além de uma briga inglória (e injusta para com os estados produtores) a respeito de royalties que ainda não existem e que, quando existirem, serão uma torneira aberta para gastos correntes e pressões inflacionárias. A contenção do preço da gasolina já se tornou rotina, mesmo que afete a rentabilidade da Petrobrás e desorganize a produção de etanol. O objetivo é segurar a inflação por artifícios e garantir a satisfação dos usuários. Calo sobre os efeitos da redução continuada do IPI para veículos e do combustível artificialmente barato. Os prefeitos que cuidem de aumentar ruas e avenidas para dar cabida a tanto bem estar… e os moradores das grandes cidades que se munam de ainda maior paciência para enfrentar mais congestionamentos." - Anote-se que o PSDB se manteve omisso quanto à partilha dos royalties do petróleo, ao invés de propor um modelo similar ao norueguês, pensando numa rentabilidade futura para os nossos cofres públicos, que sobreviva à sanha perdulária do PT no poder. "E que dizer da tentativa de cortar o custo da energia elétrica que teve como resultado imediato a perda de valor das ações das empresas? E essa agora de altos funcionários desdizerem o anunciado e, sem qualquer segurança sobre como será ajustado o valor do patrimônio das empresas do setor elétrico, provocarem súbitas altas nas ações? O pior é que ninguém será responsabilizado por eventuais ganhos de especulação advindos da falta de compostura verbal. Valerá a pena insistir em que o trem-bala é um desvario na atual conjuntura, pois terminará sendo pago pelos contribuintes, como estão sendo pagas as usinas mal licitadas? Para construção destas, pelas condições estabelecidas pelo próprio governo, praticamente só acorrem empresas estatais financiadas pelo BNDES com dinheiro transferido do Tesouro, quer dizer, seu, meu, nosso. E as rodovias, e os aeroportos? Uma novela que já vai longe, numa trama desencontrada. Tomara ainda tenhamos final feliz…" - Nesse ponto, a crítica foi perfeita, mas não vejo o PSDB discutir mobilidade urbana, a menos quando é para jogar todo o ônus sobre o cidadão, como no absurdo rodízio de veículo da cidade de São Paulo - sempre o caminho mais fácil e mais déspota! "Olhando em retrocesso, nos anos da grande ilusão lá pelos finais de 1970 e meados dos 1980, os 'projetos-impacto', como a Transamazônica, a Ferrovia do Aço e outros tantos, feitos a partir de decisões tecnocráticas nos gabinetes ministeriais, nos estarreciam. Clamávamos também contra indícios de corrupção. Não poderíamos imaginar que depois das greves de São Bernardo e das Diretas Já, as mesmas distorções seriam praticadas por alguns que então as combatiam. Criticava-se tanto o nepotismo e o compadrio, a falta de profissionalismo na administração e de transparência nas decisões e imaginava-se com tanta fé que o Congresso livre daria cobro aos desmandos, que é difícil esconder a desilusão. As proezas de cinismo e leniência praticadas por alguns dos personagens que apareciam como heróis-salvadores são chocantes. Dá lástima ver hoje uns e outros confundidos na coorte de dúbios personagens que alegam nada saber dos malfeitos." - Falta o PSDB bater mais nessa tecla, buscar formas menos megalomaníacas de reestruturar nossa infraestrutura energética e de transportes, e hoje nem Minas nem São Paulo nos apresentaram essas alternativas. "O que entristece, porém, não é só a conduta de algumas pessoas. É o silêncio das instituições democráticas. A mídia fala e cumpre seu papel. Cumpre-o tão bem que é confundida pelos que sustentam os malfeitos como se fosse ela e não a polícia quem descobre os desatinos ou como se servisse à oposição interessada em desgastar o governo. Recentemente, algumas instituições de estado começaram a agir responsavelmente: o Ministério Público pouco a pouco perdeu o ranço ideológico para se concentrar no que lhe é devido, a defesa da lei em nome da sociedade. Os Tribunais, especialmente depois do Conselho Nacional de Justiça ser organizado, começam a sacudir a poeira e a julgar, dando-lhes igual o réu ser potentado ou pobretão. Mas o Congresso e os partidos estão longe de corresponder aos anseios dos que escrevemos a Constituição de 1988." - Elogio justo, mas que deixa de lados certos abusos que têm sido cometidos pelo Parquet em nome do "politicamente correto", e ignora ainda (propositalmente?) que a Justiça é um privilégio para poucos, endinheirados, pois mesmo com a Lei de Juizados, os procedimentos ainda são inacessíveis para o grosso da população, iletrada: essa classe C que o próprio FHC tanto vangloria. "O Congresso, que na Carta de 1988, por sua inspiração inicial parlamentarista, ficou com responsabilidades enormes de fiscalização, prefere calar e se submeter docilmente ao Executivo. Voltamos aos tempos da República Velha, com eleições a bico de pena e as Comissões de Verificação dos Poderes, que cassavam os oposicionistas. Só que agora somos 'modernos': não se frauda o voto, se asseguram maiorias pelos balcões ministeriais ricos em contratos e por emendas parlamentares distorcidas. Com maiorias de 80% parece até injusto pedir que a oposição atue. Como?" - Voltamos à crise de representatividade do Parlamento, nos 3 níveis federativos. O que fazer a respeito, Sr. Presidente? O PSDB já tem uma posição COESA E UNIFICADA, sobre a reforma política? Como pode então querer dar "pito" no bloco governista? "De qualquer maneira, é preciso bradar e mostrar indignação e revolta, ainda que pouco se consiga de prático, mesmo sem esperança de vitória ou retribuição imediata, como se fazia no tempo do autoritarismo. Não há bem que sempre dure nem mal que não acabe. Chegará o momento, como chegou nos anos 1980, em que, com toda a aparência de poder, o Sistema fará água. Entre as centenas, talvez milhares de pessoas que se beneficiam da máquina do poder e os milhões de pessoas 'emergentes' ávidos por melhorar sua condição de vida por este Brasil afora, há espaço para novas pregações? Novas ilusões? Quem sabe. Mas sem elas, é a rotina do já visto, das malfeitorias e dos 'não sei, não vi, não me comprometo'." - Sr. Presidente, nem mesmo as conquistas do monetarismo do Plano Real estão intactas, com uma inflação de 6% ao ano, e um aumento anual do endividamento público, agravado pelo ímpeto desenvolvimentista de sacrificar o câmbio em nome da geração de empregos (numa fórmula keynesiana de trocar poder de compra por carteira assinada), o que vai "fazer água" é o próprio Plano Real e suas conquistas, retrocedendo que estão diante da demagogia fisiológica da dupla PT-PMDB. Estamos órfãos de representatividade, e é uma pena que FHC não seja o PSDB, e que o PSDB tenha se tornado um partido esquizofrênico, dividido entre um politicamente correto burro e um conservadorismo ainda mais tacanho. A vanguarda, parlamentarista, monetarista, que buscava dar justiça e cidadania a todos, sem abdicar das liberdades individuais de foro íntimo, aquela vanguarda de Montoro, Covas, Ruth, Távola... bem, esse partido MORREU! FHC representa o mesmo sussurrar agonizante de João Paulo II em 2005, cada um vendo morrer o sonho, e expressando esse momento de dor em lamúrias derradeiras, enquanto os bárbaros se preparam para destruir todas as conquistas do passado. Não é à toa que, tal qual Átila, o Huno, a "bárbara" venha da região da Bulgária. Coincidência?