Opinião

Por , em 06/01/2013 às 21:06  

A favor dos leilões… e da decência!

Tamanho da fonte: a-a+

Depois de toda a polêmica envolvendo a jovem catarinense que leiloou a virgindade, participando de um programa de televisão australiano, agora é a vez de uma jovem do interior da Bahia, residindo aqui no Brasil, tentar fazer o mesmo, utilizando a internet.

Os debates sobre se tal conduta é ou não prostituição, se deve ou não ser proibida, se denigre ou não a imagem da mulher na sociedade, depois de anos de luta feminista, todos são precedidos de um outro debate: há quem pague?

A resposta parece óbvia: tanto há que as jovens têm encontrado propostas financeiramente interessantes. A primeira, mais de 1 milhão de reais, dada a repercussão internacional do caso, o meio utilizado (a televisão), e a originalidade da ideia. A segunda, parece ter conseguido valor próximo a 70 mil reais, usando apenas um vídeo de internet, sem a credibilidade de uma rede de televisão a “validar o contrato”.

Primeiramente, cabe indagar: tal conduta é prostituição? E se sim, mas o que é prostituição? Prostituição é crime no Brasil? Deveria ser?

Em uma sociedade capitalista, pessoas se “prostituem” por dinheiro o tempo todo. Em uma sociedade socialista ou fascista, pessoas se “prostituem” por prestígio junto aos poderosos. Todos nós nos prostituimos, em nossos ideais, em nossas convicções, em nossas vontades. Trabalhamos 12, 14 horas por dia (cerca de 2/3 do tempo que passamos acordados), por 40, 50 anos. Agimos contra a nossa vontade e controlando os nossos instintos quase que todo o tempo que interagimos com terceiros, para sobrevivermos às exigências do mundo exterior aos nossos desejos, o mundo real, em que existe “o outro”.

Nessa abstração entre ser e existir, entre o que queremos para nós e o que o mundo alheio nos impõe, é natural que haja uma relativização dos valores impostos por esse mesmo mundo ao longo do nosso agir. Como bem alertou o filósofo Slajov Zizek, esse “superego” imposto por um sistema externo à nossa vontade não é mais ético do que fazer a nossa própria vontade – sermos leais a nós mesmos.

Sem querer contudo aderir ao ceticismo niilista extremo, mas combinando esse raciocínio com uma visão judaico-cristã e mesmo kantiana de “como nossos atos refletem em terceiros”, indago se há alguma lesão à “moral e aos bons costumes” de que jovens virgens leiloem as suas “purezas” sexuais.

Se há quem pague, se elas são maiores e lúcidas, se ninguém será lesado nessa transação, ou levado a fazer algo contra a sua vontade, qual cenário futuro, em uma projeção absoluta desse tipo de conduta, poderia ser tão horripilante a ponto de rejeitarmos como ideia o leilão da virgindade sexual? Ainda estamos falando de ocorrências pontuais, facultativas, não de uma regra, uma norma, um hábito.

Ainda que todas as nossas jovens (e os nossos jovens!) se prostituíssem, vendessem o sexo em troca de dinheiro, seríamos piores? Quanto é o valor agregado para vermos espetáculos esportivos e artísticos, para muito além (na maioria das vezes) do que o valor agregado ao trabalho de um profissional da saúde (exceto médicos) ou da educação (especialmente nas faixas etárias inferiores)?

Agregamos valor a ações e relações intersubjetivas a partir de um conjunto de convenções sociais, cujos interesses variam, da necessidade fisiológica (orgânica) ao hedonismo puro e simples. Já disse em uma outra oportunidade que, não fosse o valor agregado na aquisição de um bem ou serviço, e a Europa seria ainda hoje uma enorme fazenda de queijo, pão, vinhos e azeitona.

Precisamos do capitalismo, com suas distorções de valores e valorações, para que, jogando esse jogo, o ser humano possa romper as barreiras primitivas da hierarquização pela força (própria das sociedades tribais) ou do utilitarismo que massacra as individualidades em favor da coletividade.

É inegável que, podendo escolher (se ricas já fossem), essas meninas não teriam escolhido se prostituir. Mas massacradas por uma sociedade que segrega pelo poder aquisitivo de cada indivíduo, escolheram, livremente, não sofrer o ônus de suas respectivas (e distintas) condições sociais.

Precisamos delas presas para que possamos nos sentir “seguros” enquanto sociedade?

Quanto ao feminismo, que tanto lutou pela autonomia do corpo da mulher, deve mesmo se sentir contrariado de ver mulheres se rendendo de forma tão óbvia à comercialização desse mesmo corpo. Mas não pode, mesmo com toda a ginástica retórica anti-capitalista, sugerir se tratar de algo diferente do que a livre expressão da… autonomia do corpo da mulher!

Parabenizo as duas garotas pelo leilão de suas virgindades (sexuais). Que outros indivíduos tenham a coragem de contrariar convenções e exercerem o seu livre arbítrio, conquanto não prejudiquem ninguém com isso. E Deus – o real, não o moralista inventado por hipócritas para assustar criancinhas – nos livre de abstrações coletivas que tentam nos dizer como devemos agir, sempre argumentando para tal fim a existência de um “bem coletivo” ferido.

Um mundo mais tolerante é, a meu ver, um mundo mais decente. E fórmulas de conduta (“não beba”, “não xingue”, “não seja preconceituoso”), impostas de fora para dentro, sempre nos conduzirão a um embate enorme entre o que nos diz nossa consciência, e o que percebemos de forma real como consequência (positiva ou negativa) dos nossos atos.

Posso leiloar meu sexo, minha voz, minha força de trabalho, meu riso, meu choro. Só uma coisa não posso leiloar (pois me é impossível tornar-me adimplente em tal obrigação): a minha consciência.

Victor Castro Fernandes de Sousa, janeiro de 2013, Brasília-DF.




11 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por augusto josé sá campello, em 07/01/2013 às 17:36

Boa tarde. As meninas podem até fazer os seus leilões. Direito delas. Mas, considerando a Moral e a Ética, não, não deveriam. Por uma outra vertente, defendo intransigentemente o direito delas de fazerem seus leilões. Bem lá no passado, a sociedade, a nação e, por decorrência o Estado, deixou de cumprir sua função de facilitar o aprendizado de valores, da Moral e da Ética. Quen não venha agora, indevidamente, interferir em decisão de foro íntimo. Penso que a discussão peca por um aspecto : o da apuração dos fatos. São reais estes leilões? Ajscampello

Por Victor Castro, em 08/01/2013 às 17:59

@ajcampello Augusto e José: e elas estariam agindo de modo antiético porque? O que caracteriza a atitude delas como antiético? Vou pela definição do Dahlai Lama, para quem ética é agir sempre de modo a causar menos danos ao outro. A que "outro" elas estariam prejudicando?

Por José Antônio da Conceição, em 08/01/2013 às 01:58

@ajcampello Sempre "cortante" como disse certa vez o Argento, ao identificar que entre você e ele existia um traço comum: "a preferência por lâminas". Mas gosro do seu estilo. Direto e reto! É isso que a maioria das pessoas estão precisando ouvir! VERDADES!

Por roberto argento filho argento, em 08/01/2013 às 20:40

@joseantonio400: Zé, o gosto pelas lâminas é um traço comum entre Mim (argento) e Campello. O que não impede que haja outros com o mesmo gosto por elas.

Por José Antônio da Conceição, em 08/01/2013 às 02:26

@joseantonio400 O Jader tem memória prodigiosa! Eu Também! Frequentemente um de nós cita fatos passados aqui no OP! A diferença é o objetivo da citação! Mas não vou explicar! É subjetivo! Cada um (utilizando da própria subjetividade) entenda como achar que deve!

Por roberto argento filho argento, em 07/01/2013 às 11:14

Rapaz! - não sei por quê intuí, deste post, algo assim como reflexões, insight de um seminarista.

Por roberto argento filho argento, em 07/01/2013 às 11:34

@argento (deste e neste) Liberdade para as Borboletas!!!

Por José Antônio da Conceição, em 06/01/2013 às 21:52

Primeiramente, cabe indagar: tal conduta é prostituição? E se sim, mas o que é prostituição? Prostituição é crime no Brasil? Deveria ser? ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Se há quem pague, se elas são maiores e lúcidas, se ninguém será lesado nessa transação, ou levado a fazer algo contra a sua vontade, qual cenário futuro, em uma projeção absoluta desse tipo de conduta, poderia ser tão horripilante a ponto de rejeitarmos como ideia o leilão da virgindade sexual? Ainda estamos falando de ocorrências pontuais, facultativas, não de uma regra, uma norma, um hábito. ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Então prezado Victor, por analogia, quem vende suas "atitudes" dentro do cargo público ou do mandato que ocupa, é apenas uma questão "facultativa" já que está sendo obedecida a regra geral de "cuide do que pode ser seu porque ninguém irá lhe oferecer de graça"? ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Ao parabenizar as garotas você está incentivando a prática do "levar vantagem em tudo, desde que seja possível auferir os lucros"? ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- A ética REALMENTE morreu? Cabe a nós enterra-la para sempre?

Por Victor Castro, em 06/01/2013 às 23:43

@joseantonio400 A diferença crucial, José, é que no caso das meninas, os seus corpos lhes pertencem. No caso dos mandatos de nossos políticos, os mesmos pertencem ao povo brasileiro, assim como os recursos financeiros que o exercício deles demanda. Sua comparação foi muito infeliz. Acaso os corpos dessas meninas seriam propriedade da "moralidade pública", seguindo seu raciocínio?

Por Victor Castro, em 08/01/2013 às 17:59

@victorcfs Então você está comparando um leilão que a pessoa faz da própria virgindade a um estupro de terceiro?

Por José Antônio da Conceição, em 07/01/2013 às 00:39

@victorcfs Não Victor. Os corpos das meninas pertencem a elas e elas fazem deles o que bem entederem! Acontece que moral (costumes de uma cultura) ou ética (ciência que estuda a moral e justifica ou não pela lógica os atos cometidos pelos seres humanos) não são "departamentais" ou excludentes conforme o caso ou a acasião! Um advogado, pode até ser um excelente profissional e um cidadão correto! Se, nas horas vagas e nos fins de semana sua atividade for dedicada a estupros e corrompimento de menores, infelizmente a boa imagem e a correta atitude enquanto profissional, não serão razões suficientes para que eu deixe de classifica-lo como crápula, pervertido e criminoso nojento. Ou ele é ético 24 horas por dia, ou não é ético!