Eleições

Por Gabriel Rossi, em 02/01/2013 às 10:06  

Big Data e a pesquisa brasileira

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Artigo originalmente publicado no Correio Braziliense 25/12/2012

Passada as eleições no Brasil e nos Estados Unidos, é possível determinar: a pesquisa brasileira precisa mudar. E mudar muito. Não vou me ater à eterna discussão, que aflora a cada dois anos, sobre a correção ética dos institutos, pois parto do princípio de que são empresas limpas. Mas é chegada a hora de aprendermos com o novo modelo norte-americano.

No embate Barack Obama e Mitt Romney, a grande novidade foi o chamado Big Data. Utilizada em silêncio por Obama e sua equipe, essa ferramenta afundou o jornalismo político americano, assim como a oposição republicana. Depois da eleição, é possível afirmar que nunca mais uma campanha presidencial americana será igual.

A campanha de Obama decidiu utilizar a análise de grandes dados de bancos de dados. É disso que se trata o Big Data. É o grande armazenamento de dados, gerando informações em alta velocidade. Em 2008, a equipe vencedora de Barack Obama já havia utilizado análises de dados de forma sistemática. E também foi um exemplo para o resto do mundo.

Mas, na época, todo o foco ficou na então novidade, as redes sociais Facebook e Twitter. Já nas eleições de novembro deste ano, com Mitt Romney equilibrando essa força, partiu-se para uma análise intensa e eficaz de dados captados de maneira abrangente. Não se trata de uma amostragem ou algo com margem de erro. É muito mais do que isso. É, sim, algo preciso.

Toda a captação de dados na campanha de Obama em 2012 foi integrada. Enquanto Romney trabalhava com o tradicional método de pesquisa, sabendo em termos gerais a opinião de seus eleitores, Obama tinha dados fundamentais certeiros. Esse diferencial foi fundamental na campanha e lhe garantiu a permanência na Casa Branca.

Tudo sobre uma pessoa que pode ser medido foi medido. Combinando com análise apurada, o sistema permitiu que a campanha não só encontrasse eleitores, mas também determinasse que tipos de mensagens deveriam ser difundidas para obter a atenção deles.

Um exemplo do uso dos dados: verificou-se que havia em Nova York um público sedento por um tipo de programa noturno peculiar, um possível jantar com celebridades, especialmente a atriz Sara Jessica Parker. Esse grupo existia e, verificou-se, tinha bolso profundo. Aí nasceu um concurso de doação para a campanha. Quem doasse poderia jantar com ela e Obama. Sucesso imediato.

É claro que muito mais foi feito. A campanha democrata de Obama pôde saber qual a mensagem correta para levar aos eleitores de cada região dos estados mais disputados. Todo o dinheiro passou a ser escoado para determinada região, não apenas pelo “achômetro” ou pela pesquisa que “indicava” tal área. Com um banco de dados monumental, foi possível ter certeza de onde investir força e dinheiro.

Com o Big Data, a equipe de Obama identificou o perfil do eleitor indeciso, o que ele precisava ouvir, que argumentos o fariam sair de casa e votar. As pesquisas eram diárias, via internet, com dezenas de milhares de eleitores, podendo-se perceber, precisamente, as mais tênues flutuações. Jamais se conduziu uma campanha eleitoral com tanta informação. Nunca tantas decisões foram tomadas com tanta tranquilidade.

O resultado da eleição americana — 332 votos do colégio eleitoral para Obama, contra 206 do rival — mostra como a imprensa e os políticos no geral estavam enganados. Durante toda a campanha, mostrou-se um placar apertado, inclusive com alguns institutos dando Mitt Romney à frente na intenção de votos. A poucas horas da urna, pesquisas eram divulgadas mostrando, no máximo, uma vitória apertada do presidente. Convenhamos: 61,7% a 38,3% nada tem de aperto. Obama e sua equipe sabiam exatamente o que estavam fazendo. E acertaram em cheio. Eles e alguns poucos “seguidores” do Big Data.

Esse sistema indica o futuro. Não há previsão. Há análise de dados em massa. A captação de dados já está no cotidiano das pessoas, mesmo que não se perceba. Ou o Brasil começa a pensar nesse modelo de precisão, ou viverá eternamente na margem de erro. Não fazemos pesquisas em número suficiente para dar precisão ao Big Data… ainda.

GABRIEL ROSSI é palestrante e especialista em marketing

 




4 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por José Antônio da Conceição, em 02/01/2013 às 22:03

Gabriel Rossi: Já que você tem interesse neste tipo de processamento de dados, se quiser, converse com o pessoal do DECOM (Departamento de Computação) da UFOP. Assisti a uma palestra de uma professora do Departamento, cuja pesquisa é "identificar anomalias no tempo-espaço". Ninguém da sala entendeu até ela explicar: O sofrtware captura todos os Twitters e aplica neles um algoritmo de programação. Resulta em um gráfico crescendo da direita para esquerda em "crista de galo" normal e estabilizada no eixo dos Y. De repente as cristas dão vários "piques" indicando uma anomalia. As anomalias ocorrem quando muita gente escreve no twitter sobre um mesmo fenômeno, numa mesma região! Uma catástrofe natural, um grande incêndio ou acontecimento fora do comum que chame a atenção de muita gente. O Software indica horário e região em que ocorreu a anomalia. Ele funciona 24 horas por dia em tempo real!

Por milton valdameri, em 02/01/2013 às 16:57

A eleição do Obama não teve nada a ver com persquisas. O palestrante deveria se informar um pouco melhor, pois na eleição de 2012, nos EUA, o Obama fez mais de 100% dos votos em muitas urnas. A não ser que mudaram a matemática, isto é algo impossível. A eleição do Obama foi fruto de uma fraude, não de pesquisas eficientes.

Por Delio Nilton Tonin, em 02/01/2013 às 12:28

Isso prova que os institutos de pesquisas, tanto aqui no Brasil, quanto nos EUA, estão defasados e sem credibilidade nenhuma, logo, não merecem a confiança dos eleitores. O que antes era apenas um prognóstico ficou evidente nas três últimas eleições presidenciais no Brasil, nas quais, todos os institutos de pesquisas colocaram o Lula em 2002 e 2006 e a Dilma em 2010, como vencedores, ainda em primeiro turno, fato que não se confirmou em nenhuma das três eleições e, principalmente, nas eleições municipais de 2012, quando o Ibope e o Data Folha erraram tudo, com erros absurdos chegando a superar os 20%. Se fossem institutos sérios deveriam, no mínimo, fechar as portas, mas antes pedir desculpas aos cidadãos brasileiros, mas como não são sérios, continuam divulgando pesquisas manipuladas, com erros gigantescos, enganando e manipulando os eleitores desinformados que, infelizmente, são a grande maioria dos eleitores brasileiros.

Por Ricardo Froes, em 02/01/2013 às 10:34

Na verdade o artigo tem muito mais a ver com estratégias de campanha do que com pesquisa eleitoral propriamente dita.