Opinião

Por xicograziano, em 08/01/2013 às 13:28  

Bolsa Floresta: novo paradigma para a Amazônia

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Meu artigo no Estadão desta terça (08/01/2013) fala do Bolsa Floresta, um programa de desenvolvimento sustentável implementado no Amazonas. “Fazer a floresta valer mais em pé do que derrubada” – o lema move essa pioneira experiência onde se mostra que a conservação ambiental deve servir às pessoas, ajudando, e não atrapalhando, a promoção humana. Programa exemplar.
Comandado pela Fundação Amazonas Sustentável (FAS), organização não governamental criada em 2007, ele conta com o endosso do governo estadual e o apoio financeiro de grandes empresas. Sua área de atuação foca as comunidades tradicionais que vivem dentro das reservas de desenvolvimento sustentável (RDSs), unidades de conservação idealizadas pelo biólogo amazônida Márcio Ayres, posteriormente incluídas na legislação ambiental brasileira. Grande ideia.
As RDSs configuram-se como locais de natureza protegida, mas, ao contrário dos parques e reservas florestais, que se pretendem intactos, nelas se pode manter atividade humana produtiva. As áreas são escolhidas em função de sua valiosa biodiversidade, ou da fragilidade de seu belo ecossistema. Nas RDSs não há necessidade de desapropriação ou remoção dos ocupantes históricos. A regra principal é condicionar a exploração do território às regras de sustentabilidade.
Com ajuda financeira distribuída em quatro componentes – renda, social, familiar e associação -, a Bolsa Floresta trabalha sob o conceito da corresponsabilidade, procurando desenvolver o espírito empreendedor nas pessoas. A ordem é inserir as populações locais nas cadeias produtivas florestais, “empoderando” as comunidades. Cursos e oficinas pedagógicas promovem o aprendizado profissional, direcionado para os negócios sustentáveis.
Atualmente o programa beneficia 8.090 famílias, distribuídas em 15 regiões do Estado do Amazonas. Grupos comunitários e famílias individuais, apoiados pela fundação, descobrem como produzir e preservar ao mesmo tempo, buscando oportunidades na pesca e na piscicultura, no turismo ecológico e de aventura, na exploração madeireira e no artesanato. Novas tecnologias.
Quem me levou para conhecer alguns desses projetos foi o engenheiro florestal Virgílio Viana, superintendente da FAS. Doutor em Biologia da Evolução por Harvard (EUA), esse criativo pesquisador impulsiona na prática, porque na teoria tudo é fácil, o conceito básico da economia verde: no abrigo da floresta amazônica, gerar emprego e renda, para melhorar a qualidade de vida das comunidades ribeirinhas. Dá gosto de ver.
A RDS do Rio Negro, criada em 2008, estende-se por três municípios – Novo Airão, Iranduba e Manacapuru -, ocupando um território protegido de 103 mil hectares. Em seu interior vivem 526 famílias, distribuídas por 20 comunidades. Nelas se destaca a Tumbiras, que funciona como uma espécie de polo empreendedor das demais. Lá, a 70 km de Manaus, estão instalados os principais equipamentos públicos que funcionam como alicerce do Programa Bolsa Floresta: salas de aula, módulo para o ensino a distância, alojamento dos professores, computadores com internet, refeitório, marcenaria, horta doméstica. Tudo bem arrumado.
Roberto, ex-madeireiro, líder da comunidade, aguardava-nos na escadaria às margens do igarapé. Logo desatou a falar, orgulhoso, sobre o recente progresso do seu chão, destacando o ensino das crianças, as novas perspectivas para os jovens, a energia solar – que exigiu um acerto na comunidade sobre o nível do consumo doméstico de eletricidade, resultando na proibição, vejam só, do uso da “chapinha” de cabelo. Na saúde, tudo mudou quando entraram em funcionamento as três ambulanchas – isso mesmo, ambulanchas – que socorrem a saúde das pessoas naquelas estradas d’água.
Roberto destaca o valor do conhecimento, utilizando o seu próprio caso: “Antes eu não sabia o que significava manejo florestal, agora sei como cortar madeira sem destruir”. Vai além. Defende a tese de que sem alternativas para a ocupação das pessoas, sem botar dinheiro no bolso, de nada adianta a fiscalização ambiental, muito menos o belo discurso preservacionista. Encerra a conversa sobre o manejo sustentável da floresta com uma curiosa frase: “As pessoas que moram na comunidade também são árvores”. Lapidar.
A Pousada do Garrido, administrada por sua esposa, Nádia, recebeu cerca de cem turistas em 2012, a maioria de estrangeiros. Ligado na internet, o rústico hotelzinho oferece diária completa por R$ 60, incluídos no pacote turístico três refeições, trilha pela mata, passeio de barco e muita conversa mole recheada com “causos” sobre os botos-cor-de-rosa e a curupira, divindade maior da floresta. Encanta qualquer citadino.
Das 28 famílias que moram em Tumbiras, três acabaram de regressar de Manaus. Fugiram da violência urbana, escaparam das drogas, esqueceram o trânsito barulhento. Somente retornaram, porém, porque vislumbraram oportunidades, ter ocupação e ganhar dinheiro no berço da sua origem. Voltaram, também, porque agora podem assistir à televisão e ligar uma geladeira. Mínimo conforto.
Ali perto, dona Raimunda, veterana da comunidade do Saracá, tenciona dedicar-se à piscicultura, criando tambaquis e matrinchãs em tanques-rede. Já o Nelson, da comunidade Santa Helena do Inglês, quer montar uma pousada utilizando a moradia que o Incra teima em lhe construir após finalizar a regularização fundiária do local. Inexiste alternativa: todo mundo ganha casa nova, mesmo que não necessite. Incrível, até nas barrancas do Rio Negro se joga fora o dinheiro da reforma agrária.
Virgílio Viana está convicto de que os antigos paradigmas, ecológico ou militarista, sobre a Amazônia impedem seu desenvolvimento sustentável. A Bolsa Floresta aponta para o futuro.




5 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por augusto josé sá campello, em 11/01/2013 às 12:31

Bom dia. A idéia de autosustentabilidade de "povos da selva" é de matriz ideológica. Trata-se de um modelo que peca por sua base e que não foi testado. Ajscampello

Por augusto josé sá campello, em 09/01/2013 às 12:15

Bom dia. A idéia e os conceitos por trás são encantadores. Propositalmente usei a palavra encantador. Como sempre, faltam alguns elementos de visão a prazo. São umas tantas famílias, isoladas ou reunidas em "comunidades". É do ser humano procriar. Ou seja daqui mais vinte anos ou mais, novas gerações estarão presentes nas RDSs. O que vai acontecer? Conheci projeto assemelhado lá se vão mais de trinta anos. As últimas notícias que tenho do bom religioso que administrava são desalentadoras. O primeiro crime não tardou muito. Haviam manchas de Castanheiras. Coletar cocos de castanheira é atividade cansativa. E a madeira da Castanheira é altamente valorizada. As manchas desapareceram. As pequenas áreas nas quais haviam "comunidades" - naquela época eram vilas, expadiram-se. Há o que se chama da necessidade do "cinturão verde" uma área próxima na qual se planta o de comer. E assim caminharam, floresta adentro. Para desespero do bom religioso. Que via as árvores sendo cortadas para a construção de moradias, lenha, canoas e barcos, e a indefectível exportação. Na amazônia, Sr Xico, existem "tesouros" que excitam a cobiça. Há árvores cujas madeiras, por suas propriedades, podem ser e acabam sendo vendidas a peso de ouro. É a derrubada em estilo "formiguinha", por exemplo da Muiracatiara. Uma árvore cuja madeira , além de linda, é imune à água e a cupins. Seu ciclo de vida? Mais de meio século. Projetos como o descrito pelo Senhor, Sr Xico, criam vínculos entre os paroaras (habitantes da Amazônia) e empresas urbanas. A demanda por mais e mais produto, seja peixe ornamental, medeira, artesanato, o que seja, termina em estravasamento dos condicionantes originais. Além, é claro, da demografia. Dou-lhe um exemplo. O "couro vegetal". Feito nas comunidades à base de borracha, seiva da Seringa ou Seringueira. Fez furor entre estilistas de roupa. A procura cresceu, a qualidade caiu. Deu-se o desinteresse. Hoje os seringueiros tentam bravamente colocar seu couro vegetal em mercados europeus. Criou-se uma cadeia de atravessadores e todos os males daí decorrentes. Boa sorte e um abraço. Ajscampello

Por erikssom patos, em 10/01/2013 às 11:16

@ajcampello, você já matou a xarada logo no inicio da sua fala, o tempo, é o tempo que é o senhor da razão. Tudo que se cria hoje, que se pensa hoje, só será sustentável de fato se daqui a 20 anos ou mais estiver da mesma forma que se imaginou hoje. Penso que é uma ilusão imaginar que as coisas vão ficar estáticas, não vão. Não sei explicar direito, mas tem algo de errado com os projetos ecológicos, tem algo de fato encantador, mas falta ago realista neles, algo de permanente, sem que haja algum tipo de proibição como essa aí que o Xico fala da chapinha no cabelo para não haver gasto de energia elétrica, isso não funciona com o ser humano.

Por Ricardo Froes, em 08/01/2013 às 16:15

Já não era sem tempo, mas parece um contrassenso que seja preciso que gente da cidade ensine a quem nasceu na selva como tratá-la e de onde tirar dinheiro sem destruí-la. Em todo caso é uma boa ideia, desde que não haja interesses escusos por trás dessa ONG. Cachorro mordido por cobra tem medo até de linguiça.

Por erikssom patos, em 10/01/2013 às 11:25

@bobjaniak, pois é, eu vejo nessas comunidades que passam a integrar esses programas pilotos como se fossem modelos futuros de sociedades socialistas totalmente controladas por regras rígidas. Não há como sustentar projetos desses sem imaginar num futuro próximo, na entrada e saída de famílias ali integradas e as que pressionarão para integrar as que já estão por lá, o processo migratório é uma corrente histórica na humanidade que povoou o mundo. Basta esse fato para mostrar que os mini modelos estouram com o tempo, a não ser como eu disse, se torna uma mini republica socialista fechada com sua cortina de ferro. Qualquer base social que conte com um minimo de um processo econômico se não contiver princípios de liberdade no arranjo da economia por si só se estagna.