Opinião

Por xicograziano, em 22/01/2013 às 09:45  

Feijão: da subsistência ao capitalismo

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Meu artigo desta terça (22/01) no Estadão trata de um equívoco. Boa parcela da opinião pública acredita que a comida do povo vem do agricultor familiar, enquanto o agronegócio capitalista serve ao comércio exterior. Ledo engano, vindo de uma ideia antiga, superada. Hoje manda a integração produtiva no campo.
A começar do ciclo açucareiro colonial, no Nordeste, a historiografia consagrou distintas funções, e certa oposição, entre a grande propriedade rural, dominante, e a agricultura de subsistência, que vivia em suas beiradas. Existia, realmente, um dualismo. Escritores famosos, como Caio Prado Jr., sempre descreveram a grande lavoura – o latifúndio ou a plantation – como aquela destinada à exportação, de açúcar, cacau ou borracha. Produzir alimento básico era coisa de pobre. Hoje tudo mudou.
A partir da grande crise mundial, dos anos 1930, a diversificação da economia brasileira, na cidade e no campo, aprofundou-se. Décadas depois, com o forte êxodo rural alargando as metrópoles, a necessidade do abastecimento nas periferias transformou definitivamente a agricultura de subsistência em próspero negócio. Além do tradicional arroz com feijão, os moradores do asfalto exigiam ovos, carnes, verduras e legumes, frutas, leite; aos roceiros bastava produzir e vender. Daí surgiram os Ceasas, sacolões, varejões e, claro, os supermercados. Mudou a distribuição no varejo dos alimentos.
Mudou também, e muito, o caráter da produção rural. Ela ganhou escala e tecnologia, cresceu em produtividade, integrou-se às agroindústrias, aprendeu a comercializar, buscou financiamento. O raciocínio guarda lógica: as cidades brasileiras jamais teriam sido abastecidas – e bem ou mal o foram – sem uma grande transformação ocorrida no campo. Que prossegue acelerada.
Nesse processo histórico, as análises dualistas sobre a agricultura perderam razão. Sim, existem ainda os tradicionais agricultores de subsistência, a maioria empobrecida no semiárido nordestino. Enfraqueceu-se, porém, com a modernização agrária a antiga oposição entre a grande e a pequena produção. Ambas, com tecnologia, passaram a ser regidas pela lucratividade do mercado, seja interno, seja externo. Assim, tornaram-se complementares, e muitas vezes se confundiram. Vejam alguns exemplos.
Típica da velha família rural, a banha de porco acabou substituída na cozinha pelos óleos vegetais. O mais barato, de consumo popular, origina-se do esmagamento do grão da soja. Pois bem, no Paraná e no Rio Grande do Sul, grandes plantadores da oleaginosa, 90% da produção advém de agricultores familiares, ligados às grandes cooperativas exportadoras. Ou seja, a mesma agricultura que gera divisas garante a fritura na mesa. Sem distinção.
No café, a maior parte da safra brota das lavouras mineiras, grandemente ligadas às cooperativas. A Cooxupé, a maior delas, aglutina 12 mil cafeicultores, sendo 80% pequenos produtores rurais. Do embarque total de grãos nos pátios da cooperativa (2011), perto de 15% se destinou às torrefadoras do mercado interno; a grande parte seguiu exportada. Pequenos, juntos, ficam grandes.
Em cada ramo da agropecuária nacional se pode verificar essa junção entre o agronegócio capitalista e a produção familiar, sendo difícil separar, no destino, o mercado interno do externo. Na cultura da cana, em que preponderam os grandes usineiros, cerca de 70% do açúcar se exporta, mas o etanol, que enche o tanque dos veículos, dos pobres principalmente, fica aqui dentro.
Quem produz frango, o agricultor familiar ou o agronegócio? Resposta fácil: ambos. As empresas frigoríficas representam grandes negócios, privados ou cooperativados; já os avicultores, a elas integrados, são familiares.
E o feijão? A maioria da produção, é verdade, advém de pequenos produtores. Estes, entretanto, não se configuram mais como de subsistência, vendendo apenas o excedente. Que nada. Espelham agricultores altamente tecnificados.
Nos Estados Unidos, sabe-se, a mecanização da agricultura provocou, ao mesmo tempo, o aumento da escala de produção e o fortalecimento da gestão familiar, preponderante por lá. Tal processo se caracteriza, por aqui, especialmente em Mato Grosso, onde enormes fazendas produzem soja e milho, nas lavouras tocadas pelos próprios produtores e seus filhos. Negócios gigantes, familiares.
Essas histórias mostram que ser familiar não necessariamente significa ser pequeno. E comprovam que pequeno agricultor pode, perfeitamente, participar do agronegócio, quer contribuindo para a exportação, quer alimentando o povo.
Pode acreditar: inexiste oposição entre agricultura familiar e agronegócio. O feijão virou capitalista.




16 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por Seu Creysson, em 30/01/2013 às 16:52

erikssom, De acordo com o que escreveu: "Na verdade a cada caso que você apresenta apenas confirma O QUANTO um estado regulador atrapalha a liberdade econômica das pessoas, independente delas terem ou não uma propriedade, de terem um certificado ou não, disso ou daquilo. Isso não tem nada haver com capitalismo e o livre mercado. A trava ai é simplesmente do ESTADO REGULADOR" Acrescento que aqui temos um debate interessante sobre a qualidade do produto, sobre padrões mínimos aceitáveis exigidos por LEI (Estado regulador) e padrões de qualidade superior como diferencial de qualidade do produto, cobrado com preços diferenciados na prateleira do supermercado. Isso já existe com o café e vale a pena ser discutido com quem trabalha no setor para estar sempre definindo em acordos mútuos sobre o que é possível ser feito, o que é desejável ser feito e a distância entre uma coisa e outra, se é grande ou pequena.

Por Seu Creysson, em 30/01/2013 às 16:43

Que interessante! Teria sido a uniformização dos padrões de qualidade do produto a principal responsável pelo desaparecimento desta distinção rígida entre agricultura familiar e grandes produtores transnacionais? Desconfio que sim!... Ganham os produtores em vendas, ganha o consumidor em preço e qualidade, ganha o Governo em arrecadação e todos ficamos felizes!...

Por augusto josé sá campello, em 27/01/2013 às 17:48

Boa tarde. A discussão e´interessante. Para meu gosto pessoal, parte de um trabalho jornalístico que, por ser jornalistico, é uma simplificação. Matérias em jornais devem ser concisas e ter um certo impacto. Parabens, Sr Xico Graziano, o artigo tem impacto. Mas, do pouco que tenho visto nos últimos anos, trabalhando como consultor para cooperativas agricolas, para municípios interessados em facilitar a vida do agricultor e mesmo para o famigerado agribusiness, a realidade é bem mais complicada. Se não o fosse, seria muito ruim para todos : produtores (em qualquer escala) e consumidores. Alguém aí em baixo desancou a intervenção do poder estatal. Com certa razão. Mas, sem razão no tocante, pór exemplo, às boas intervenções no tocante ao uso de defensivos agrícolas. Certificação disso e daquilo, convenha-se são processos por vezes meio acinzentados. E irreais. Fora da realidade. Em Minas Gerais, terra de José Antonio, a produção de aguardente - cachaça, sempre foi algo um tanto artesanal. Pois bem, tentem certificar-se como produtores de cachaça hoje. Que me recorde, são pelo menos meia dúzia de papéis para dar início a qualquer coisa. Depois, vem o fiscal e fecha o alambique por que há galinhas perto do galpão. Registrar um rótulo é uma guerra. Cooperativar-se é uma saída. Mas, há cooperativas de toda espécie. Das melhores até às mafiosas. Para não dar uma de "profundo conhecedor" , que não sou, vamos fechar com a figura mais próxima do agricultor - o PREFEITO. Esta ingrata figura nos recebe com dificuldade apática. Não está interessado na plantação de couve ou de qualquer outra coisa de baixo valor de porteira. Mas, fale em gado de corte e olho cresce e o bolso se abre. Depois há o efeito demográfico. A cada dia nasce mais gente. Comsumodores de alface, couve, feijá, fritas, etc. O PRFEFEITO constroi um belo hortomercado. Mas sem o projeto de expansão. Conseguir um box para vender sua produção vira um negócio esquisito para não dizer escuso. E ai do produtor que venha a reclamar, por exemplo da ponte ou da estradinha de terra. Mudou a produção agrícola? Mudou. Muito. E o estado ficou parado. Ajscampello

Por José Antônio da Conceição, em 22/01/2013 às 20:46

QUARTA TENTATIVA TENTANDO "COLAR" ESTE COMENTÁRIO: ARGENTO DISSE (22/01/2013 às 15:55) PAPA TANGO, Pois é, Papa Tango, esta é a "pedra no feijão" que a "esquerda festiva" não consegue resolver ou remover. ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- JOSÉ ANTÔNIO DISSE: (22/01/2013 às 20:36) AREGENTO, Muito boa a "esquerda festiva". PSDB e PT junto com os "agregados" que garantem a base parlamentar e a governabilidade! ( e ainda tem direitista esperneando nesta mesma discussão - será tentativa de "enganar os idiotas lançando fumaça naquilo que o Xico disse", para turvar o verdadeiro sentido da discussão ??? ) ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Até quando ??? Até sempre ??? SERÁ QUE DESTA VEZ SERÁ PUBLICADO?

Por José Antônio da Conceição, em 22/01/2013 às 20:48

@joseantonio400 Desculpe o "AREGENTO" ! ! ! Foi erro de digitação após três TENTATIVAS e a plataforma REFUTANDO!

Por Papa Tango, em 22/01/2013 às 14:11

O nosso esquerdismo tupiniquim é assim: criticam os grandes capitalistas e exigem melhores condições de trabalho e melhores remunerações. Porém, quando estes intelectualóides precisam contratar algum pedreiro para assentar a laje em sua casa, procuram os que cobram menos e nem se importam se as pernas dos andaimes estão amarradas com arames mal-retorcidos. Sobre o tema do feijão poderíamos incluir algo que no final atinge diretamente as mulheres, que geralmente são as responsáveis pelo cozimento diário de alimentos nas famílias brasileiras, que nesse caso é o tempo perdido escolhendo grãos de feijão. Hoje, praticamente inexiste a necessidade de seleção de grãos e apenas algumas marcas inferiores ainda obrigam esta prática - não por acaso, são as marcas "empurradas" em cestas básicas por serem mais baratas. O controle de qualidade é algo que jamais seria possível de ser imposto aos pequenos agricultores. Então, voltemos aos intelectualóides esquerdistas que, por sua vez, defendem a agricultura familiar. Como defender a agricultura familiar para se contrapor a um certo monopólio dos grandes produtores se no final o consumidor optará pelos produtos do campo mais baratos e com melhor qualidade? No final você terá pequenos agricultores vendendo seus produtos a preço de bananas e condenados a miséria do campo.

Por roberto argento filho argento, em 22/01/2013 às 15:55

@papatango: Pois é, Papa Tango, esta é a "pedra no feijão" que a "esquerda festiva" não consegue resolver ou remover.

Por José Antônio da Conceição, em 22/01/2013 às 20:36

@argento Muito boa a "esquerda festiva". PSDB e PT junto com os "agregados" que garantem a base parlamentar e a governabilidade! ( e ainda tem direitista esperneando nesta mesma discussão - será tentativa de "enganar os idiotas lançando fumaça naquilo que o Xico disse", para turvar o verdadeiro sentido da discussão ??? )

Por roberto argento filho argento, em 22/01/2013 às 16:59

@argento: ... mas que, lá no fundo, não interessa retirar!!!.

Por milton valdameri, em 22/01/2013 às 13:16

Parabéns pelo artigo, mas não há nada no artigo que não seja óbvio, que não seja explítcito para qualquer um que tenha um mínimo de percepção, de discernimento. É lamentável que a maioria da população não perceba o obvio por causa dos discursos mistificadores do marxismo. É lamentável ter que dar os parabéns para alguém que escreve um artigo como o seu, por que são raras as pessoas que procuram informar as pessoas sobre o óbvio. É lamentável TER que escrever um artigo como o seu, quando existem muitos temas mais complexos que não podem ser abordados, por que a maioria não entende nem mesmo de onde vem sua alimentação. Novamente parabéns, espero que mais pessoas abordem esta questão com a mesma propriedade que você abordou, para que a próxima geração possa escrever artigos sobre temas mais complexos.

Por Seu Creysson, em 30/01/2013 às 16:54

@miltonv Também gostei muito, texto informativo e esclarecedor.

Por erikssom patos, em 22/01/2013 às 10:21

Xico concordo contigo plenamente, salvos alguns detalhes. Eu vivi um pedaço da minha vida no campo (fui criado lá), vi o cheiro da terra arada dentro de uma das fronteiras agrícolas nas décadas de 1960 e 1970.Eu vi um pedaço do surgimento e da evolução da mecanização das lavouras e da pecuária. Do trator a colheitadeira, de arroz, de soja e do algodão. Como também eu vi a pecuária leiteira sair do tradicional tirar leite no peito da vaca para o processo totalmente mecânico e informatizado, o aperfeiçoamento genético do rebanho, o surgimento do gado de corte, principalmente o nelore. Eu tanto conheci a pequena propriedade como também a de grande extensão (latifúndio). Vi e vivi muita coisa no campo. Também vi o subsidio sair do programa do governo, eu vi muita quebra de agricultores com o BB. Vi muita coisa. Por ultimo eu vi e vejo os hortigranjeiros na periferia das grandes cidades. Vi como esse negocio prosperou, vi o surgimento das cesas. Eu fui um trabalhador braçal da roça. Tenho em mente uma historiografia do campo.

Por José Antônio da Conceição, em 22/01/2013 às 21:41

@patos Só sobre as CEASAS! Você sabe (na data atual) que para "comerciar" nas CEASAS é preciso ter certificação (um documento emitido pelo poder público) de PRODUTOR RURAL? Para você saber: Antes de meu filho nascer (mais de 26 anos passados) trabalhei na obra civil de dois sócios que tinham um "Revenda de peças de trator". Negócio altamente lucrativo porque estas peças não são encontradas em todas as esquinas! Naquele tempo (repetindo), há mais de 26 anos, sem FHC ter ido ao poder, sem PT ter ido ao poder, os proprietários do galpão em funcionava o "negócio" de peças de tratores TINHAM conseguido o tal CERTIFICADO DE PRODUTOR RURAL, devido serem donos de uma fazenda no interior de Minas Gerais! ELES podiam comerciar na CEASA-MG. Nenhum parente da minha mãe (todos produtores rurais tinham permisão para negociar na CEASA-MG, construida com DINHEIRO PÚBLICO) Esta minha intervenção, é para TENTAR que você entenda minhas colocações contra o CAPITALISMO que aí (e aqui também) está norteando NOSSAS VIDAS! COLOCAREI OUTRAS INFORMAÇÔES, embora já saiba de antemão, que você irá encontrar uma forma de refuta-las!

Por erikssom patos, em 23/01/2013 às 01:53

@joseantonio400, não vou apenas refutar por refutar, mas por necessidade de debater a questão mais detalhadamente. No caso que você cita, o fazendeiro que comercializava na Ceasa de MG é porque ele tinha o certificado de produtor rural. Agora no caso do seus parentes eu não sei porque eles não tinham esse certificado se eram produtores rurais. No caso eles não conseguiram esse certificado? É isso? Ou o motivo de não terem o certificado era devido eles não terem uma propriedade? Na verdade a cada caso que você apresenta apenas confirma O QUANTO um estado regulador atrapalha a liberdade econômica das pessoas, independente delas terem ou não uma propriedade, de terem um certificado ou não, disso ou daquilo. Isso não tem nada haver com capitalismo e o livre mercado. A trava ai é simplesmente do ESTADO REGULADOR, isso é fato José Antonio. Isso é tão notório que sem conhecer o caso citado por você e supondo que os seus parentes tinham uma propriedade e procuraram a Ceasa para emitir o tal certificado e foi negado (estou apenas supondo ou conjecturando) por n motivos, ao passo que ao fazendeiro foi permitido a comercialização, isso configura uma corrupção passiva por parte do funcionário publico daquele centro comercial mediante a algum suborno ou propina - um estado abarrotado de regulação se presta a muita corrupção. Caso eles não tinham propriedade, já o motivo é outro diferente de corrupção. O estado neste caso seria uma barreira de proteção a uma classe social, de proprietários, ou de um segmento qualquer da economia, no caso o estado com a sua regulação nesta atividade setaria pondo dificuldades para um grupo de pessoas não entrarem naquele ramo de negocio, um tipo de proteção, ou reserva de mercado. Esse fato também é uma prova concreta do quanto a ação do estado nem sempre é o que aparenta ser, ou nem sempre rende aquilo que diz que quer fazer para as pessoas. É aquela velha historia de boas intenções o inferno está cheio, e neste caso não basta o estado ter uma boa intenção, pois acaba selecionado ao extremo quem pode e quem não pode comercializar os seus produtos. Muitas das vezes o estado utiliza do argumento de que quer proteger o consumidor dos maus comerciantes, no caso suposto, dos seus parentes. Ora, independente deles terem propriedades ou não, eles eram produtores de alguma coisa e tinham o interesse de comercializar o que produziam, mas não podiam porque uma ação governamental impediam disso. Se não existisse a figura do estado no meio, os seus parentes simplesmente poderiam fazer o seu comercio livremente naquele centro comercial, pois que os impediriam de fazer isso, ou até mesmo em outro lugar? Penso nisso, o que representa o livre mercado para os consumidores e para todos aqueles que queiram e podem fazer esse comercio. Como você mesmo diz: não fique preso nas ideologias, seja pratico.

Por roberto argento filho argento, em 22/01/2013 às 13:30

@patos: E qual é o ponto "discordante" da "concordância plena", os "detalhes" apontados e não ditos???!

Por erikssom patos, em 23/01/2013 às 01:20

@argento, correto, não poderia ser plenamente se há algum detalhe discordante. Anotado a contradição!