Meio Ambiente

Por , em 05/01/2013 às 01:04  

Nós e eles

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Qual a importância de construir um duto que terá impacto sobre a vida dos ursos selvagens? Ou construir uma usina sabendo que poderá levar os sapos locais ao “extermínio” pode ser considerado legítimo em nome do desenvolvimento econômico? Usar macacos em testes de laboratório para remédios também pode? É permissível se prender todos os donos, empregados cúmplices dos circos? As touradas deveriam ser proibidas? Eu repudio tal costume espanhol, mas deve ser preso quem faz isso? Trata-se de uma questão de “bom senso”? Então todos os espanhóis que ainda vão a touradas, assim como os turistas, são pessoas insensatas? A rinha de galo deve ser vetada, mas o boxe com humanos deve ser permitido? Corrida de cachorros pode? E jockeys montados em cavalos? A carne de cavalo pode ser consumida, tal qual em outros países? O polo deve acabar?

Compreendo que são temas complexos. Alguns de difícil resolução entre “natureza” e cultura.

Alguns pontos me chamam a atenção:
1. Nós podemos nos dividir entre (a) preservar o ecossistema local, tal e qual, não construindo duto nenhum ou (b) construir, gerando emprego e renda e dane-se os ursos. Simples, não? Errado, se considerarmos que existe uma alternativa “c”: construir um duto alguns metros do chão, sustentado por cavaletes de metal ou cimento. Piração? Esta “piração” existe no Alaska. Encarece? Sim, encarece, mas e daí? Se uma determinada sociedade compreende que vale a pena (e eu acho que vale) por que não fazê-lo?

Teremos a renda e os empregos da jazida petrolífera e a região ganha com o turismo, graças aos ursos e manadas de caribus e cervos que podem migrar por baixo do duto. Ah! E a estética da paisagem? Bem, pode se colocá-lo no subsolo, mas o perigo de algum vazamento e infiltração ainda existe, então mantenho a “opção aérea” do duto. Pode se pintá-lo, mimetizando-o à paisagem. Afinal, o que serão alguns milhares de quilômetros com uma infra-estrutura perante dezenas de milhões de km quadrados? Diz o ditado que um bom acordo é quando nenhuma das partes sai completamente satisfeita, então…

2. Um dos poucos impactos ambientais causados por usinas nucleares (se não ocorrer nenhum vazamento radioativo) é o aquecimento da água utilizada no sistema de refrigeração e que tem que retornar ao meio externo. Eu não diria que os anfíbios irão se extinguir, mas sua população local pode ser reduzida. Problema? Depende… Aqui, em SC, meses atrás fiquei sabendo de uma usina hidroelétrica (UHE) que foi impedida de ser construída por uma liminar devido a possibilidade de extinção de uma orquídea endêmica no lago que seria formado com a barragem. Uma perguntinha? Não existem orquídeas, orquidários em países frios, em estufas? Não poderia se transplantá-las? Claro que sim! O problema é que o que está por trás destas ações extremistas que levam a liminares na Justiça é um mito… “o mito moderno da natureza intocada”. E a coisa não funciona assim… Há hipóteses, bem aceitas no meio científico, que tanto o Cerrado brasileiro quanto as belíssimas pradarias norte-americanas foram resultado de … oh! … interferências antrópicas no meio!

Quanto a isto tenho duas informações que, para muitos poderão soar reveladoras de quão “natural” é seu meio de vida:

Portanto, quando se direciona o debate para o ideal de um “paraíso perdido”, começamos mal, muito mal. Ele, simplesmente, nunca existiu.

3. Sim, creio que deve se usar animais em testes laboratoriais, mas o mínimo possível. Isto não advém de uma postura calcada em “direitos animais”, mas em bioética. Acho legítimo a busca por medicamentos, mas me incomoda o teste em olhos de coelhos para comprovar a qualidade de perfumes. A questão aí é a ética que queremos adotar, pautada em algum princípio moral que endossamos. Por que adotar o comércio de peles de animais se temos peles sintéticas que esquentam por igual, assim como embelezam?

4. Analogamente, sou contra animais em circos. É minha opção. A melhor forma de protestar: pelo mercado (sempre ele), não indo aos circos. Simples. Também não gosto de touradas, assim como as hediondas “brincadeiras do boi”, eufemismo para a prática de tortura aqui em SC. A briga de galos é tortura, já o boxe parte do livre-arbítrio (e esta é uma expressão chave) de humanos. Bem diferente.

Mas, há práticas que não caracterizam tortura. Cavalos de polo são muito bem tratados, assim como a moderna zootecnia pressupõe bons tratos aos animais: aumenta o peso dos víveres e protege o couro para uso futuro ao não machucar o espécime. Sim, nós somos o parâmetro, mas justamente por nossa superioridade (em termos simples, pela consciência e poder que dispomos) podemos e devemos utilizar melhor nossos recursos.

Se isto depende de legalização do que pode e não pode ser permitido é por que uma sociedade, na qual a maioria dos indivíduos assim compreendeu e endossou. Obviamente, haverá sempre descontentes. Faz parte de qualquer jogo democrático que assim seja.

Na história, o trato que se tem com animais reflete a postura que humanos têm entre si. É um reflexo que estendemos a eles de como gostaríamos de sermos tratados.




3 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por augusto josé sá campello, em 07/01/2013 às 17:54

Boa tarde. É fato, existe esta postura preservacionista extremada. Cuidado nas próximas eleições presidenciais. Há políticos que fazem disto uma bandeira, com sucesso. Mas, voltando ao presente, a interferência antrópica no meio ambiente é minha velha conhecida. Décadas passadas fiz parte de um grupo de trabalho em Brasilia (arrgh!) cujo objetivo era a atualização do mapa de solos do país. Bom daquela experiência aprendi algumas coisas. Uma delas foi a de que a maior parte da dita Mata Atlântica existente no prolongamento da cidade do Rio de Janeiro em direção a Juiz de Fora é....mata recuperada (tem um nome esquisito que não lembro). Pois é exatamente nesta região que uma concessionária de rodovia peleja faz anos, para duplicar uma pista de subida. E tome liminar. E os usuários da rodovia...aqui ó. Ajscampello

Por Anselmo Heidrich, em 08/01/2013 às 10:59

@ajcampello Mata Secundária?

Por José Antônio da Conceição, em 05/01/2013 às 01:33

Quando li o título, sinceramente, pensei que NÓS referia-se aos pagadores de impostos e, ELES os políticos que decidem o destino destes impostos! Devo estar ficando viciado em política! Disseram que o homem é um animal político não é mesmo? Deve ser isso...