Opinião

Por , em 10/01/2013 às 10:25  

Rolf Kuntz: a coragem para dizer o que precisa ser dito!

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No Estadão on line: http://blogs.estadao.com.br/rolf-kuntz/2013/01/09/a-era-do-deboche/

Mais uma vez as chuvas do verão destroem, desalojam e matam, de modo tão previsível quanto as bandalheiras orçamentárias, mas o governo federal só gastou no ano passado cerca de um terço – 32,2% – das verbas previstas para prevenção, enfrentamento de desastres e reconstrução. O Tesouro pagou R$ 1,85 bilhão dos R$ 5,75 bilhões autorizados, segundo números oficiais tabulados pela respeitada organização Contas Abertas. Nada espantoso, nada anormal. A normalidade inclui, segundo altos funcionários da Fazenda, malabarismos contábeis para a encenação do cumprimento da meta fiscal. Foi tudo legal, tudo certinho, segundo o secretário do Tesouro, Arno Augustin.

Não seria mais fácil, mais claro e mais decente reconhecer o mau resultado e tentar, se fosse o caso, justificá-lo? Em outros tempos, com certeza. Na era do deboche, é igualmente normal deixar a aprovação do Orçamento para depois, porque o Executivo dará um jeito de garantir as despesas, dentro ou fora dos padrões constitucionais.

Neste tempo bandalho, o poder público tem prioridades muito mais interessantes que administrar a vida coletiva e servir aos interesses da sociedade. É preciso aproveitar o tempo e o dinheiro dos contribuintes para financiar empresas selecionadas, proteger setores amigos, oferecer contratos a grupos felizardos e pôr as estatais a serviço de projetos políticos pessoais e partidários. Também natural – como consequência – foi a deterioração da Petrobrás, depois de anos de submissão a decisões centralizadas no Palácio do Planalto. Com persistência, a nova presidente, Graça Foster, talvez consiga arrumar a empresa, se ficar no posto por tempo suficiente. Tem mostrado disposição para o trabalho sério, mas sua figura contrasta, perigosamente, com a maior parte do cenário.

Na era do deboche, os padrões políticos e gerenciais se degradam em quase todos os cantos e todos os níveis do sistema de poder. Um bonde sai dos trilhos, por falta de manutenção, e passageiros morrem. A primeira reação das autoridades é lançar suspeitas sobre o motorneiro, também morto no acidente. Uma criança baleada fica oito horas sem atendimento, embora levada a um hospital. Resposta oficial: o médico faltou. Faltou, sim, mas essa é a resposta errada. Pode ter sido irresponsável, mas também poderia ter sido atropelado ou atingido por um raio. Em qualquer cidade gerida com um mínimo de competência e seriedade, os serviços públicos essenciais funcionam como um sistema. Não havia outros médicos disponíveis? Não se podia mobilizar uma ambulância para levar a vítima a um lugar onde recebesse assistência? Na segunda maior cidade de uma das dez maiores economias do mundo, a falta de um único funcionário pode comprometer o socorro de emergência a uma pessoa ferida ou doente.

Mas o padrão se repete. Na capital federal, crianças ficaram sem atendimento porque plantonistas faltaram para prestar exames de residentes. Nenhum administrador sabia? Afinal, quem aplicou o exame? Novamente: que porcaria de sistema administrativo deixa a segurança dos pacientes na dependência de jovens profissionais? Sistemas organizados para funcionar de verdade têm mecanismos de segurança. São impessoais. Nenhum dirigente de nível superior tem o direito de renegar a própria responsabilidade para transferi-la aos subordinados na ponta da linha.

Na era bandalha, quem se importa com a escala das responsabilidades e com a qualidade gerencial do setor público? O governo brasileiro comprometeu-se em 2007 a hospedar a Copa do Mundo de 2014. Em 2011, quando o novo governo se instalou, nada, ou quase nada, havia sido feito para preparar o País. Havia atraso nas obras de aeroportos, estádios, estradas e sistemas urbanos de transporte. Os atrasos continuam, mas os custos subiram, muito dinheiro foi desperdiçado e mais ainda será perdido.

Nesta fase debochada, os apagões se multiplicam e chegam a atingir vários Estados, às vezes por várias horas. Os altos funcionários do sistema falam em raios, depois em falhas humanas. A chefe de todos recomenda aos jornalistas uma gargalhada, se alguém mencionar novamente a queda de um raio. Mas quem tem autoridade para pôr ordem na casa e cobrar seriedade na gestão do sistema?

Em tempos bandalhos, o presidente da Câmara dos Deputados promete asilo a condenados num processo penal – criminosos, portanto -, se a Justiça ordenar sua prisão. Qual o próximo passo: votar a revogação das penas? Combinaria bem com os padrões atuais de normalidade. Quando o Congresso adia a votação do Orçamento, crianças ficam sem assistência médica porque o serviço hospitalar é um desastre, a economia emperra porque a infraestrutura se esboroa e a diplomacia, outrora competente e respeitada, se torna subserviente à senhora Cristina Kirchner, a piada final é atribuir os males do País ao câmbio valorizado e aos juros. Abaixo o real, e tudo será resolvido.




12 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por augusto josé sá campello, em 11/01/2013 às 12:07

Bom dia. Vou ser chato, por repetir o que tenho repetido aqui. Depois vou ser...talvez contundente. O chato : "Vivemos tempos difíceis". Neste quesito, repito : Educação, nos últimos anos, virou piada. Grotesca e destrutiva. Se é que há um modelo adotado é o da destruição. O objetivo visado? Conformar a Educação a padrões calcados em Ideologia carcomida pelo tempo que passou e ninguém viu. Saúde : Salvo as poucas restantes ilhas de boa qualidade, foi para o manguezal. Não soube fazer medicina de massa e tão pouco a de ponta - pesquisa. Aí se inclui a Ind. Farmacêutica. Nesta jogou-se a toalha e não se desdobrou a trilha do genérico. Segurança : o que é e quantos são os integrantes da minúscula Força Nacional De Segurança Pública? Quando a P F for tornada "cumpanheira", quando ao final se tolher o MP e outros componentes da Segurança - que antes de tudo deve ser institucional no sentido de ser Republicana, isenta e articulada, teremos o que? Algo como a KGB bolchevista e suas irradiações até o inspetor de quarteirão? Alardeou-se a compra por quantia ignorada de VANTS para controlar as fronteiras. Onde estão? Drogas pesadas e armas entram pelas fronteiras. Investimento público : parece algo kafkianao. Não atingiu níveis compatíveis com as necessidades e esborou-se na ausência da capacidade fazer projetos, de fiscalizar sua execução. Vendeu-se a alma a uma grande empreiteira que passou a atuar em muita parte. E tudo terminou em pizza. Energia : projetos? Muitos. Realidade? O investimento não foi feito. E agora? É chorar pitangas e ranger de dentes. Apostando na chuva. O Pré Sal, outro projeto energético, ideológicamente tisnado, impediu, inibiu investimentos Agora, que se importe o que. Finanças públicas : um retrocesso em direção a coisas espúrias como a famigerada Conta Movimento e o arrombamento do Tesouro mais Orçamentos "indicativos" e contingenciados e adívida pública vira uma caixa preta indecifrável. Recentemente manobra no sentido de afrouxar uma conquista popular - a Lei de Responsabilidade Fiscal. O objetivo? Tornar Estados e Municípios falidos e inviáveis capazes de imprimir dinheiro e investir, gastar além das suas possibilidades. Modernização da Gestão Pública : outra piada de gosto amargo. Liberdades básicas : já repararam que para tudo é imposta a apresentação do CPF ou do CNPJ ? É o controle total da sociedade e das suas atividades. Crédito : o modelo de que se fala agora seria o do "consumo interno". Mentira ! Foi o do crédito. E do CPF até para comprar uma dúzia de laranjas...no cartão. Querem que continue? Ou já basta? Ajscampello

Por Victor Castro, em 12/01/2013 às 23:54

@ajcampello Nossos governantes fingem que legislam, fingem que fazem alguma coisa com o nosso dinheiro (além de colocar nos seus respectivos bolsos), fingem que entendem alguma coisa de gestão pública...

Por roberto argento filho argento, em 11/01/2013 às 15:24

@ajcampello: sussurra-me a paranoia que não é por simples incompetência

Por augusto josé sá campello, em 12/01/2013 às 17:47

@argento Amigo Argento. Sua paranóia não está errada. Muita gente tende a esquecer que se trata de um projeto de poder em curso. Ajscampello

Por roberto argento filho argento, em 11/01/2013 às 15:23

@ajcampello: sussurra-me a paaranoia que não é por simples incompetência

Por roberto argento filho argento, em 10/01/2013 às 15:21

BudaQuiBariu!!! - morri de inveja por não ter escrito, Eu, este artigo.

Por mario jota, em 10/01/2013 às 13:38

O pior de tudo na Era Lula é que até alguns setores da iniciativa privada também estão com problemas de atendimento. Setores da telefonia, tv paga e por aí vai................ Digamos que a baderna no país se instalou pelas mentiras, corrupção e descaso dos governantes.

Por erikssom patos, em 10/01/2013 às 10:41

Pois é, agora quero ver se vão continuar a falar alguma coisa do apagão de 2001! O PT agora também tem o seu apagão! Empate técnico. O caso da saúde publica, em especifico o de Brasilia, é caso de policia! Os responsáveis (ou são irresponsáveis mesmo?!) ali deveriam ser presos. Não se sabe se é o fato principal por certo que não, mas parte do problema é que existe uma conivência por parte da gestão do sistema com profissionais contratados que não comparecem ao trabalho. Isso já esta ficando velho no Brasil no meio medico com o sistema único de saúde, um profissional ser contratado para fazer uma carga horaria, mas uma parcela expressiva desses não fazem essa jornada, e nada acontece, não existe fiscalização.

Por Victor Castro, em 10/01/2013 às 10:25

Porque o PSDB e o DEM não têm a coragem de dizer o mesmo?

Por augusto josé sá campello, em 11/01/2013 às 12:15

@victorcfs Amigo Victor, o PSDB e o DEM (desmoralizado) só podem espernear. Para fazer oposição seria necessário um discurso coerente e articulado e dinheiro....muito dinheiro. Para competir com as famigeradas assessorias de imprensa que se tornaram num megafone monocórdio de blindagem preventiva dos "mal feitos" e propagação de grandes realizações que não se concretisam totalmente. Ficam as coisas transmutadas numa colcha de retalhos. Coisa que não funciona. Por exemplo, no caso presente da eletricidade. Ajscampello

Por roberto argento filho argento, em 10/01/2013 às 15:31

@victorcfs : Por Quê? - porque, na pior das hipóteses, a Teta está garantida.

Por mario jota, em 10/01/2013 às 13:36

@victorcfs Digamos o Aécio. O PPS é que pediu a quebra dos sigilos telefônicos, bancário e internet da Rosemary. Isto deveria ter sido feito pelo PSDB, específicamente pelo Aécio.