Brasil

Por Fernando Henrique Cardoso, em 06/01/2013 às 07:00  

Sem saudades, por Fernando Henrique Cardoso

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É quase uma constante começar o ano novo com um balanço sobre o que finda e com votos de esperança para o futuro. Neste janeiro, não fosse a reiteração da esperança haveria dificuldades em manter o ânimo. Melhor imaginar que algo de positivo ocorrerá no futuro porque do ano que se encerrou, pouco restou de bom. Na vida pessoal é distinto. Cada um fará o balanço que melhor lhe aprouver; eu pessoalmente nada de monta tenho a lastimar. Mas nos acontecimentos públicos, quanto desalento. Ainda bem que a História não se repete automaticamente. Vade retro!

Comecemos pela economia e pelas finanças internacionais. Quando parecíamos estar saindo da recessão que se arrastava desde 2008, a recuperação mundial se mostrou mais lenta e a crise na Europa ainda mais profunda. É desolação para todos os lados. Os americanos, mais pragmáticos, nadam de braçada em um mar de dólares trocados por títulos de solvência difícil, à custa do resto do mundo. Este não sabe o que fazer com a taxa de câmbio para se defender da inundação de dólares enquanto os Estados Unidos postergam o dia do ajuste final. Sua taxa de desemprego continua elevada, embora não em ascensão; não exibem retomada vigorosa da economia, sem todavia cair no abismo fiscal anunciado pela imprensa, o fiscal cliff. Ou melhor, estão mergulhados nele, mas com escafandro: mantém as ruas aquietadas e vão contornando sem violência os que protestam nas praças, como no caso do movimento Occupy. Não conseguem, é verdade, escapar do abismo político das posições radicalmente distintas entre republicanos e democratas, muito maior do que aquele no qual está imerso o Tesouro. Os dois partidos não se entendem para definir uma política fiscal que alivie as aperturas do Tesouro, pois os republicanos não aceitam impostos que taxem mais os ricos, nem apoiam medidas que deem alívio às dificuldades dos mais pobres, sobretudo na questão da saúde. A sociedade americana parece bloqueada.

Os europeus pretendem levar a sério o que os americanos dizem, não o que fazem. Pilotam a economia com rédea de ferro, ortodoxos como ninguém conseguira antes. E a economia, tal como o cavalo do inglês que, quando aprendeu a viver sem comer morreu, vai de austeridade em austeridade desfazendo o tão penosamente construído modelo social europeu, rompendo, ou melhor, sufocando o estado de bem estar social e destruindo as bases de um pacto de convivência aceitável. É governo caindo por todo lado e desemprego fazendo as famílias gemerem sem ilusões. E nada do PIB crescer nem das contas públicas melhorarem: da crise de liquidez do setor bancário privado passaram a quebradeira dos Tesouros nacionais, enquanto o euro continua intrépido como se fosse bandeira da Alemanha triunfante. Esta, por sua vez, torna-se capenga pela falta de quem compre as mercadorias que sua produtividade torna baratas em comparação com as produzidas além fronteiras.

Até a China, cujo aparelho produtivo, baseado em exportações, foi criado em aliança com as multinacionais, teve de ajustar-se às circunstâncias, pois lhes falta hoje o vigor do mercado externo de outrora. O país reconstitui penosamente seus objetivos; por ora, essa transição não se completou e o velho modelo já não produz os mesmos exuberantes resultados. Tenta aumentar o consumo doméstico e criar a rede de proteção social indispensável para dar ânimo às pessoas e fazê-las, em vez de poupar para a velhice e a invalidez, consumir. Ao mesmo tempo, com demanda interna insuficiente, a China reduz suas compras de commodities e busca exportar mais os muitos produtos manufaturados que fabrica. O Brasil sofre com isso. Se aqui a crise não produziu um tsunami, suas marolas converteram-se em marasmo, que obriga à navegação a vela em tempos de calmaria.

Se pelo menos a situação política mundial desse algum sinal de melhoria haveria consolo. No final de 2011 meus votos foram pela construção de uma melhor governança global, processo que se avizinhava. Não foram atendidos, demos marcha à ré. As esperanças suscitadas pelo G-20 viraram poeira e, pelo menos até agora, a regulação do mercado financeiro virou balela. No plano das relações de poder, apesar dos avanços já alcançados — as razoáveis relações sino-americanas, o deslocamento do eixo do mundo para a Ásia, a progressiva aceitação da Rússia como parte do jogo de poder mundial e o reconhecimento do peso político específico de alguns dos países de economia emergente, como o Brasil — não houve progresso de monta. O que parecia um ressurgimento que permitiria o reconhecimento do mundo árabe-islâmico como parceiro global – a Primavera Árabe – ainda é uma incógnita. Como se não bastassem a desastrada intervenção europeia na Líbia, que resultou em faccionalismo e violência, a revolta fomentada na Síria, com enorme custo humano, o fracasso da intervenção ocidental no Afeganistão e o congelamento de uma situação política precária no Iraque, há ainda o impasse nas relações palestino-israelense. Este, graças à aceitação pela ONU do estado palestino na condição de observador, junto com a enigmática revolução egípcia, poderá ser rompido. Sabe-se lá usando quais meios. Oxalá não os nucleares, pretextando a nuclearização do Irã.

Há, portanto, boas razões para desconfiar que 2013 nos prepare dias melhores. Resta o consolo de que entre nós brasileiros, a despeito do já dito e do desapontador “pibinho”, que parece desenhar outro apenas melhorzinho para o ano em curso, pelo menos o Judiciário desempenhou seu papel. Sem me regozijar pelo que não me anima — a desolação da cadeia para quem quer que seja — é forçoso reconhecer que as instituições republicanas funcionaram. Há choro e ranger de dentes entre alguns poderosos. Há tentativas desesperadas de negar as evidências e acusar de farsa o que é correto. Mas tem prevalecido a serenidade dos que acreditam, como diz a bandeira dos mineiros sobre a Liberdade, que a Justiça pode tardar, mas não falha. São meus votos.

(Artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo, dia 6 de janeiro de 2012)




14 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por Marcelo Apablaza, em 08/01/2013 às 14:09

Claro e direto, como sempre senhor Presidente.

Por Elza A. Cardoso, em 07/01/2013 às 21:17

"Os americanos, mais pragmáticos, nadam de braçada em um mar de dólares trocados por títulos de solvência difícil, à custa do resto do mundo." BRAVO!!!Mas os banqueiros internacionais estão com as "burras" cheias e a Europa fazendo papel de tola, sob a batuta dos 5 mandatários mundiais... "..e vão contornando sem violência os que protestam nas praças, como no caso do movimento Occupy" desculpe, mas se "isto" é "sem violência", devo estar "desinformada"... As pessoas foram retiradas pela polícia de "Wallshet" na base da cacetada, a imprensa mundial mostrou. Mas aqui, nada se disse. "Mas tem prevalecido a serenidade dos que acreditam, como diz a bandeira dos mineiros sobre a Liberdade, que a Justiça pode tardar, mas não falha. São meus votos." Presidente, o senhor não acha que já está muito tarde pra se acreditar nas estória do "liberdade ainda que tardia"?

Por Elza A. Cardoso, em 07/01/2013 às 21:16

"Os americanos, mais pragmáticos, nadam de braçada em um mar de dólares trocados por títulos de solvência difícil, à custa do resto do mundo." BRAVO!!!Mas os banqueiros internacionais estão com as "burras" cheias e a Europa fazendo papel de tola, sob a batuta dos 5 mandatários mundiais... "..e vão contornando sem violência os que protestam nas praças, como no caso do movimento Occupy" desculpe, mas se "isto" é "sem violência", devo estar "desinformada"... As pessoas foram retiradas pela polícia de "Wallshet" na base da cacetada, a imprensa mundial mostrou. Mas aqui, nada se disse. "Mas tem prevalecido a serenidade dos que acreditam, como diz a bandeira dos mineiros sobre a Liberdade, que a Justiça pode tardar, mas não falha. São meus votos." Presidente, o sennhhor não acha que já está muito tarde pra se acreditar nas estória do "liberdade ainda que tardia"?

Por Itá Castanon, em 07/01/2013 às 13:58

Sim, eu tenho algo dizer, que muito me orgulho de sempre acompanhar minuciosamente tudo o que o Presidente Fernando Henrique tem a nos dizer e ensinar. Entretanto confesso que depois de tanto apoio nele depositado atraves de meus votos ou mesmo em calorosas discussões entre amigos ou familiares, hoje estou deveras desapontado pela sua postura mantendo-se timidamente à margem das grandes discussões da política e dos caminhos do nosso pais que hoje sim, enfrenta severas crises institucionais e principalmente está órfão de uma crítica severa e de reais opositores leais aos princípios da democracia e sempre ocupados no atendimento dos desígnios de um pais.. Dia após dia estamos conhecendo um novo escândalo, ou mais um esquema desestabilizadores do sistema e temos de enfrentá-los apenas com a nossa eterna paciência esperando que algum dia, mesmo que distante e utópico a nossa jovem e insipiente democracia se torne finalmente numa instituição sólida naquilo que diga respeito ao seu principal ingrediente, nós brasileiros. Graças a minha grande sede pelo conhecimento pude acompanhar mais essa belíssima cronica magistralmente burilada pelo grande sociólogo, notável político e ilibado homem publico que tanto nos enche de orgulho, entretanto cada vez que leio suas brilhantes páginas percebo o quão pobres ficamos quando nos percebemos praticamente abandonados na beira do descaminho, quando ao invés de uma oposição consciente e presente no dia a dia da nossa política nós somos obrigados a encontrar apenas e tão somente algum respaldo junto a ira jornalistica ou no máximo o eco produzido pelo nosso mais profundo descontentamento. Lembro-me sem a menor retórica do quão execrada foi a ilustre figura do nosso querido e saudoso Presidente FHC, geralmente atacado por calunias difamações ou até por ofensas pessoais até hoje nunca comprovadas, e hoje em pleno olho do furação, nós encontramos na figura do nosso ex presidente algo muito diferente daquela combativa e expressiva figura dos tempos em que disputava palmo à palmo as mais acirradas disputas no campo político nacional, enfrentando sem economia de esforços ou palavras tudo o que se opunha as suas idéias e conceitos. Porem, hoje, como que sentíssemos a condição de um pai ausente ou herói esquecido, percebemos que tantas lutas e glórias do passado jamais deveriam ter sido em vão, mas hoje nesta condição de órfãos em total abandono e desabrigo estamos já quase perdendo o prumo diante da mais pura falta de orientação, obrigados a assistir impávidos não simplesmente ao atual desgoverno, mas antes de tudo, com o perdão do neologismo, um verdadeiro governocídio o qual pode por osmose levar todos nós de roldão, enterrando assim de uma só vez tanto trabalho e suor derramado ao longo de um árduo caminho, para termos chegado onde chegamos, e assim de supetão sermos despejados sem aviso prévio de uma condição conseguida através de duras penas e tantos sacrifícios. Da mesma forma que a minha geração lutou pelas diretas já, hoje deveria estar lutando com as mesmas forças por uma oposição presente e atuante, pois assim ao menos não sentiríamos esse gosto amargo de perdedores, entregando com tamanha suavidade uma posição conquistada com a honra e o sacrifício de toda uma geração.

Por Sandro Barreto, em 07/01/2013 às 12:50

Políticos e agregados encontram soluções, tem visões do futuro, são capazes de solucionar qualquer coisa quando não estão no poder, me lembro do senhor Delfim Netto e do senhor Maílson da Nóbrega os quais hoje acham soluções mirabolantes e resolvem em poucos minutos numa conversa com algum repórter o problema da economia. Quando eram ministros não fizeram nada que preste.

Por Luiz Felipe, em 07/01/2013 às 07:46

Na verdade, a Justiça dos Homens tarda mas não falta, embora às vezes falhe, e feio, posto que é relativa. Porém, a Justiça Divina é absoluta, inexorável, não tarda, não falta e nem falha, e Dela ninguém escapa, nem mesmo os bagres ensaboados luso-tupiniquins encontradiços em profusão nos modello de república e de pollítica-partidária-elleitoral, 171, que, exceto o Leão da Meritocracia Eleitoral, os Leões do STF que já não agüentam mais julgar tantas barbaridades derivadas dos "ditos cujos", e mais alguns gatos pingados, ninguém parece dar mostras de querer mudar de verdade os "ditos cujos", a começar pelos próprios interessados que fogem das mudanças profundas igual o diabo foge da cruz, via subterfúgios, malabarismos, tervigersações, verborragias, digressões, sofismas, artifícios, ardis, manobras diversionistas, etc., etc. e tal. Aliás, às vezes, quase todo mundo tem convicção de que alguém tem culpa no cartório mas o próprio alguém acha que não tem, ou faz de conta que não que não tem e representa esse papel julgando estar convencendo alguém. E o píor de tudo é que, às vezes, ou quase sempre, quase todo mundo tem razão. E daí, neste caso, o melhor a fazer é começar a dobrar os joelhos, rezar, orar e pedir perdão ao Paizão, porque mais dias ou menos dias Ela vem que vem, forte e implacável. Liberdade, liberdade, abre o foco e as asas sobre nós.

Por Luiz Felipe, em 07/01/2013 às 07:52

@luisfelipe , antes tarde do que nunca.

Por Capitão Caverna, em 06/01/2013 às 22:18

Diz ai FHC: O PSDB vai apoiar Renan Calheiros a presidência do Senado? Não seria nenhum problema, não é? Afinal ele já foi presidente do Senado na sua Gestão... Mas e Marconi Perillo, vai continuar no PSDB? Você dará a mesma justificativa que deu para a permanência de Eduardo Azeredo? Um crime menor, não é? Não têm moral para opinar sobre corrupção no país... é melhor falar de economia mesmo.

Por lauro esteves, em 06/01/2013 às 13:46

O que diz a bandeira dos mineiros sobre a liberdade? se for a bandeira da elite colonizadora e governista deu no que deu, tiraram do caminho e enforcaram um insurgente, mas de se olharmos o que diz a bandeira olhado pelo povo mineiro certamente não se encaixa no que escreve.

Por Itá Castanon, em 07/01/2013 às 14:22

@Lauro Esteves & @joseantonio400. Nem com tanta cultura mas ao menos com algum esclarecimento ou a sua eterna busca, podemos notar que a inscrição do belo pavilhão Mineiro possui, assim como quase tudo nesse nosso amado pais, algum erro ou no minimo falta de maiores acertos e vontade de esclarece-los. Tal expressão, dita como derivada do que fora um dia dito por Meribeu, traz um equivoco naquilo que poderia ter sido intencionalmente traduzido de “Libertas quae sera” do Latim para "Liberdade, Ainda Que Tardia" no Português. O “tamem” contudo, seria tão somente uma conjunção para dar continuidade à frase original daquele diálogo, e ao menos no que diz respeito a minha pessoa, desde a muito tempo me fez pensar muito à respeito, teria sido apenas um erro ingênuo e espontâneo, ou quiçá terá algum efeito proposital e misterioso.

Por José Antônio da Conceição, em 06/01/2013 às 13:52

@capeto "Libertas Quae Sera Tamem" - Liberdade ainda que tardia! As liberdades são muitas, as escravidões também. Mudam na forma mas não mudam na essência! Os mineiros, brasileiros, todos os seres humanos abaixo do topo da pirâmide ainda aspiram por liberdade!

Por lauro esteves, em 06/01/2013 às 14:26

@joseantonio400 Perfeito amigo José Antonio.

Por José Antônio da Conceição, em 06/01/2013 às 13:24

É sempre um aprendizado ler e ter contato com a visão de um sociólogo. Ficam claros alguns detalhes que nunca se inserem nos textos dos posts por aqui. Quiçá em posts futuros o político FHC fale juntamente com o sociólogo FHC, construa propostas e aponte caminhos!

Por lauro esteves, em 06/01/2013 às 14:24

@joseantonio400 Seria bom separar a sociologia da filosofia.