Opinião

Por xicograziano, em 05/02/2013 às 11:56  

Rumo ao interior: longe do litoral, perto do futuro

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O Brasil está interiorizando seu desenvolvimento. Basta averiguar um traço espacial da economia brasileira em 2012: o PIB da Região Centro-Oeste apresentou crescimento de 3,3%. Apesar de modesto, esse valor foi sete vezes maior do que o verificado na Região Sudeste, que subiu apenas 0,5%. Rumo ao interior.

É muito interessante perceber tal fenômeno, apontado pela consultoria Tendências. Onde impera o setor industrial – em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, parte também no Espírito Santo – anda capengando o País. Já onde domina a agropecuária – nos Estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e até no Distrito Federal – instala-se um círculo virtuoso de prosperidade. Embora sofrendo as deficiências da infraestrutura logística e, de certa forma, amargando o descaso do governo, os agronegócios têm animado a economia brasileira.

Esse dinamismo observado nas regiões mais longínquas, distantes da orla atlântica, pode configurar, com o passar do tempo, uma nova fase do desenvolvimento nacional. Com a expansão da fronteira agrícola instalam-se as agroindústrias e distribuidoras de insumos, trilham-se estradas e ferrovias para transportar a safra, cresce a população atrás do emprego. Novas oportunidades de negócios surgem, chega o comércio, geram-se renda e riqueza onde somente havia poeira, ou mata virgem. Cidades florescem.

Já ocorreram antes, em outras condições históricas, tais deslocamentos espaciais da economia. Nas origens, a produção do açúcar nordestino progressivamente ocupou parte da Zona da Mata, uma faixa de terra litorânea, estreita, desde o Rio Grande do Norte até o sul da Bahia. Solos férteis e firmes, conhecidos como “massapê”, cobertos com Mata Atlântica, suportaram os dois primeiros séculos da Colônia.

Grande movimento se deu também por causa da descoberta do ouro nas Minas Gerais. Começou assim a ocupação de vasta área, então quase desabitada, que viria a acolher um quinto da população brasileira. Fruto dessa alteração espacial no dinamismo da economia e da sociedade, a capital do País se deslocaria, em 1763, de Salvador para o Rio de Janeiro. Rodava o mundo da fortuna.

Com a descoberta da riqueza do café, a bebida que revolucionou a economia brasileira, a próspera viagem da economia adentrou o Vale do Paraíba, atingiu São Paulo e mirou as terras roxas de Campinas, para depois alcançar Ribeirão Preto. Os cafezais tomaram um descanso com a crise de 1930, mas depois ganharam fôlego e voltaram, soberbos, para desbravar o norte do Paraná. Linda saga do “ouro verde”.

Andanças secundárias deixaram sua marca na ocupação histórica do vasto território. Pode-se relatar a colonização do Vale Amazônico na busca da coleta florestal, do cacau, da pesca e, um século depois, da borracha natural; o estabelecimento da atividade pecuária nos friorentos pampas gaúchos; ou, ainda, a ousadia portuguesa dos arrozais no Maranhão colonial. Momentos de expansão do sonho da prosperidade.

É curioso perceber que a extensa área do Centro-Oeste permaneceu relativamente afastada desses ciclos da economia nacional. Sua localização, muito distante da costa, criava dificuldades de acesso. Goiás, que experimentou certo dinamismo com a mineração, somente viria a ser, em termos, redescoberto com a fundação de Goiânia (1933), a nova capital do Estado que substituiria a histórica Vila Boa (atual Cidade de Goiás). Em 1988 dele se desmembraria o Estado do Tocantins.

Mato Grosso contou com a ajuda da navegação fluvial para ser inicialmente desbravado. Subindo ao longo do Rio Paraguai, ou descendo pelo Rio Tietê, os colonizadores e bandeirantes atingiram o povoado de Albuquerque. A capital da extensa província se deslocaria para Cuiabá (1835), mas nenhuma força econômica verdadeiramente a impulsionava. A valorização da pecuária motivou a separação, em 1977, do jovem Estado de Mato Grosso do Sul.

Fora as longas distâncias, outra característica básica domina a Região Centro-Oeste: nela se situa grande parte do Cerrado brasileiro, bioma assentado em 23,9% do território nacional. Com vegetação típica, árvores pequenas, cascorentas e retorcidas, decorrentes da estação extremamente seca que impera entre maio e setembro, os solos do Cerrado apresentam baixa fertilidade e acidez elevada. Até os anos 1950 nenhum agrônomo imaginava que poderiam tornar-se produtivos.

Aconteceu, porém, uma espécie de milagre da tecnologia agrícola. Utilizando calcário e fertilizantes, aquelas chapadas do Cerrado, consideradas imprestáveis, foram se transformando em exemplos mundiais de agricultura, ostentando produtividades maiores do que as antigas regiões da terra roxa. Mais ainda: o temor da erosão, maldito na agricultura tradicional, acabou vencido pelo plantio direto, sistema que não exige aração nem gradeação do terreno todo para se efetuar a semeadura. Uma revolução tecnológica.

Resultado: em menos de 30 anos uma verdadeira corrida para o oeste desbravou o Cerrado. Protagonizado por lavradores gaúchos, paranaenses e paulistas, esse “eldorado” tupiniquim abriu as portas do progresso na região – e sem devastação, pois a área cultivável do Cerrado ocupa apenas metade do total. Hoje o Centro-Oeste já responde por 41% da safra nacional de grãos, liderado por Mato Grosso, que sozinho produz 25%. Fora o rebanho bovino, de elevada qualidade genética. Incrível.

Daqui a, talvez, duas décadas, estará consolidada uma nova geografia econômica no Brasil. A facilidade na comunicação, se for complementada por fortes investimentos na logística, terá vencido, definitivamente, a distância que manteve amordaçado o potencial produtivo do Centro-Oeste. Longe do litoral, perto do futuro.




4 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por acir carlos ochove, em 06/02/2013 às 10:50

Bom dia Xico, verdadeiro tratado de historia economica, digno de ser incorporado as nossa escolas, parabens; venho acompanhando o desenvolvimento da região centro oeste, particularmente dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul desde 1968; acrescentaria à materia o grande valor dos brasileiros que com disposição para o trabalho vieram do SUDESTE e SUL do nosso Pais para colonizar e transformar o que era antes, como voce afirmou, cerrado acido, em verdadeiro paraiso produtivo. Alem dos elementos referidos gostaria de enumerar alguns fatores que tambem contribuiram para o sucesso da região; a introdução de sementes de curto ciclo que permitiram duas safras anuais e já se falando em tres, a introdução das gramineas resistentes a seca e de alta produtividade; a ureia como otimizador na conversão alimentar dos bovinos, a implantação de granjas de suinos e frangos, confinamentos bovinos, acompanhados de frigorificos que trouxeram a tão solhada verticalização; do campo a mesa do consumidor nas cidades. abs

Por augusto josé sá campello, em 05/02/2013 às 18:03

Boa tarde. Como foi bem acentuado, os investimentos em capital fixo - leia-se : infraestrutura ou a tal logística, tem apenas uma janela de oportunidade. Qual a amplitude desta janela? Muito difícil de dizer. É claro que existe o potencial, muito mal aproveitado, de uma via de escoamento fluvial. O que nos leva a pensar em dragagem, estaleiros, acordos com os países confrontantes e com os dois ao final da mesma via. Ferrovias? Certamente. Mas, quanto tempo será gasto para implantar ferrovias que possam ser integradas a outros modais de transporte. E seu custo/investimento? Rodovias? Tudo bom. Mas, por favor sem repetir erros estratégicos passados e bem conhecidos. E linhas de crédito e sua ponta, o investimento em estruturas de silagem e quiçá de beneficiamento das safras. Visando evitar a doença holandesa e agregar valor, gerar empregos,etc? E, há outras fronteiras em ebulição. Como a do sul do Piauí. Conheci de perto uma destas maravilhas do desenvolvimento agrícola. No Pará. Em termos práticos, fruto de políticagem rasteira, acabou. Finou-se. Também há a controversa região do interior seco do nordeste. Se tudo o que pode dar errado, inclusive a agredida hidrologia do Rio S Francisco, via o projeto de Transposição. Talvez venha a se instalar um "cabo de guerra" entre estas promissoras realidades. Ajscampello

Por Elza A. Cardoso, em 06/02/2013 às 01:16

@ajcampello Campelo, sabia que quando "IMPLANTARAM" as ferrovias no Brasil o fizeram com UMA BITOLA DIFERENTE DAS DOS OUTROS PAÍSES SUL-AMERICANOS? IMAGINE QUE.... DESDE "AQULLOS TIEMPOS".... Pobre Brasil. Mas deixa eu "pinçar" algumas frases: "o PIB da Região Centro-Oeste apresentou crescimento de 3,3%." "Já onde domina a agropecuária – nos Estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e até no Distrito Federal – instala-se um círculo virtuoso de prosperidade. " "Resultado: em menos de 30 anos uma verdadeira corrida para o oeste desbravou o Cerrado. " "Daqui a, talvez, duas décadas, estará consolidada uma nova geografia econômica no Brasil. " OH! MEU DEUS ! QUE BELEZA! QUE BELEZA!!! ISTO É TUDO O QUE A BANCADA RURALISTA DESEJA!!! QUASE NÃO ACREDITO NO QUE EU LI, no "Anno Domini" de 2013...

Por José Antônio da Conceição, em 08/02/2013 às 21:18

@zazamir Na mosca, amiga Elza! Lembro-me de comentários de 40 anos passados (ou mais): "Terra por onde japonês passou e produziu, fica imprestável, improdutiva, não compre nunca!" Mas parece que a MONSANTO com os trânsgênicos e também com as "sementes cujas plantas não reproduzem sementes" vai resolver o problema no pequeno e médio prazo! A longo prazo, todo mundo que sabia plantar, cuidar e colher, já terá morrido! Nesta data a humanidade estará de joelhos, pagando o preço que o agronegócio pedir, ou morrendo de fome!