Opinião

Por , em 15/02/2013 às 09:24  

Texto de Helio Schwartsman sobre ética

Tamanho da fonte: a-a+

A ética como meio*

Em seu discurso ao plenário do Senado, na sexta, Renan Calheiros levantou uma questão interessante. Disse que a ética é um meio, e não um fim em si mesmo. Vale explorar mais a afirmação.

Num sentido muito trivial, o novo presidente do Senado tem razão. Exceto por alguns kantianos patológicos, ninguém sustenta que a ética é a meta final da humanidade. As pessoas costumam escolher outros objetivos para dar significado às suas existências, como a salvação, no caso de religiosos, ou apenas viver uma boa vida, como preferimos os incréus.

É preciso, porém, cautela ao reduzir a ética a um instrumento. Mesmo filósofos consequencialistas, que utilizam resultados práticos, e não princípios abstratos, como critério para julgar escolhas, vêm se tornando cada vez mais cuidadosos. Em suas formulações mais modernas, éticas consequencialistas já não sustentam que o indivíduo deve decidir cada um de seus atos avaliando os resultados esperados. Além de jamais termos acesso a todas as informações relevantes para fazer as contas, somos preguiçosos demais para nos engajar em reflexões complexas diante de escolhas às vezes banais.

É por isso que ganhou espaço o chamado consequencialismo das regras. Em vez de calcular o resultado de cada ação, nós o fazemos em relação a regras. Em vez de elucubrar se, assassinando um notório criminoso, produzirei bem-estar para o mundo, devo me perguntar se a adesão à norma “não matarás” resulta em maior ou menor felicidade geral, devendo assim ser acatada ou rejeitada.

O bacana no consequencialismo de regras é que ele reduz um pouco o vale-tudo das formas mais clássicas, conservando o pé na terra que éticas principistas muitas vezes ignoram.

A ética pode ser meio, mas é um muito especial, que precisa ser tratado com cuidado para não conspurcar os próprios fins aos quais serviria de instrumento. É esse cuidado que nossos legisladores não estão tendo.

* Hélio Schwartsman é bacharel em filosofia, publicou “Aquilae Titicans – O Segredo de Avicena – Uma Aventura no Afeganistão” em 2001. Escreve na versão impressa da Página A2 às terças, quartas, sextas, sábados e domingos e às quintas no site.




5 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por José Antônio da Conceição, em 15/02/2013 às 11:57

A deontologia, termo introduzido po Jeremy Bentham em 1834, anteriormente trabalhado por Immanuel Kant (1724-1804) com o seu "imperativo categórico", que, para que seja aplicável à nossa situação, segundo John Rawls (¹), é importante reconhecer que a lei moral, o imperativo categórico e o procedimento do imperativo categórico são três coisas diferentes! João Sementeiro e Dona Maria das Tranças estão de olho, esperando que este post atinja centenas de comentários para possibilitar o entendimento deles! (¹) - Lectures on the History of Moral Philosophy, de John Rawls (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2000)

Por Victor Castro, em 15/02/2013 às 18:33

@joseantonio400 José, não acho que a solução seja nivelar o debate por baixo, mas tentar introduzir os menos instruídos em conceitos e universos que hoje ignoram. Aliás, nivelar o debate por baixo é exatamente o que nos conduziu a esse pensamento de manada tão estreito e aético que temos hoje na política brasileira - e o PSDB é cúmplice disso, ao ter negado elevar o debate, e ter se nivelado por baixo a PT e PMDB, demagogos por excelência. Terei o maior prazer em sentar com João Sementeiro e Maria das Tranças e, olho no olho, tentar até minhas últimas forças recuperar parte do passivo deixado por um péssimo sistema educacional, medíocre, burocrático e excludente.

Por José Antônio da Conceição, em 15/02/2013 às 12:01

@joseantonio400 Ou ainda: Enquanto os esclarecidos desta nação continuarem falando em dialetos distantes da linguagem coloquial do povo, como é que estes esclarecidos poderão, em sã consciência, continuar reclamando das construções erigidas pelos tijolos fornecidos por este povo, por meio do voto?

Por erikssom patos, em 15/02/2013 às 10:15

E ai Victor, o que seria melhor, ser um consequencialista, ou um deontologista? Isso me fez lembrar do autor deste livro: http://www.amazon.com/Ethics-Social-Science-Philosophy-Cooperation/dp/1840645210/ref=sr_1_7?s=books&ie=UTF8&qid=1356659816&sr=1-7&keywords=leland+yeager

Por Victor Castro, em 15/02/2013 às 18:29

@patos Erikssom, acho que toda deontologia necessita de uma pitada de utilitarismo para que as normas e princípios gerais não se alienem de sua razão de existir. Acho que o "consequencialismo de regras" que Schwartsman fala é uma deontologia, mas é uma deontologia que busca adaptar meios (a diferentes situações) sem relativizar princípios. Ou seja, a regra é "não mentir", mas ninguém nega o fato de que mentir para um algoz de uma vítima inocente quanto ao seu paradeiro não fere a regra geral. Isto porque a regra "não mentir" está fundada no "não lesar outrem com a falta da verdade", e não há lesão ao algoz injusto, posto que ele nada perde deixando de matar de forma imotivada a vítima inocente. No direito, chamamos isso de "análise teleológica da norma", ou análise finalística.