Opinião

Por xicograziano, em 05/03/2013 às 09:26  

Agrotóxicos sem veneno: a boa agronomia contra um tabu ecológico

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Pragas e doenças ameaçam a produtividade das lavouras em todo o mundo. No combate a esses organismos danosos, produtores rurais recorrem ao uso de defensivos agrícolas, que, por sua vez, afetam o meio ambiente. Seria possível praticar agricultura sem agroquímicos? Dificilmente.
No bê-á-bá da agronomia se aprende que um inseto somente pode ser considerado uma praga se causar danos econômicos às plantações. Isso porque, na natureza bruta, folhas e grãos são normalmente mastigados pelos bichinhos, que se reproduzem no limite estabelecido por seus predadores naturais. Quando, por qualquer motivo, se rompe o equilíbrio do ecossistema, altera-se a dinâmica das populações envolvidas naquela cadeia alimentar. Advêm problemas ecológicos.
Tudo começou quando, há cerca de 10 mil anos, a população humana se tornou sedentária. Surgiu daí a agricultura, inicialmente nos deltas fluviais, provocando os primeiros desequilíbrios ambientais. Pragas e doenças são relatadas desde essas remotas origens da civilização. Gafanhotos nas plantações, pestes no rebanho e piolho nos campos se encontram entre as dez pragas bíblicas do Egito.
Cinzas de madeira foram os primeiros defensivos agrícolas. A partir de 1850, quando a população humana já atingira seu primeiro bilhão, alguns produtos químicos, como o arsênico e o mercúrio, começaram a ser utilizados. Muito tóxicos, acabaram abandonados. Em 1930, os habitantes da Terra chegavam aos 2 bilhões. Foi quando se descobriu a ação inseticida do DDT, derivado do cloro, utilizado na saúde pública para combater os insetos transmissores de doenças. Somente nos anos de 1960, quando a explosão populacional elevou para 3 bilhões a espécie humana, os defensivos químicos passaram a ser utilizados em grande escala no campo.
Em 1962, a bióloga norte-americana Raquel Carson publicou seu extraordinário livro Primavera Silenciosa, mostrando que ovos de pinguins da Antártida continham resíduos de pesticidas clorados. O alerta forçou os governos a atuar e obrigou a indústria a evoluir. Persistentes no meio ambiente, a primeira geração de produtos agrotóxicos clorados acabou mundialmente banida. Desde 1985 encontram-se proibidos no Brasil.
Nessa época, organizados na Associação dos Engenheiros Agrônomos de São Paulo (Aeasp) e liderados por Walter Lazzarini, os profissionais exigiram leis mais rígidas para regular o uso e a aplicação dos agrotóxicos, incluindo, à semelhança dos médicos, a exigência da receita agronômica para a venda desses insumos. Nossa palavra de ordem era o “uso adequado e correto” dos defensivos agrícolas, não sua proibição total. O foco residia na agricultura de qualidade. Saímos vitoriosos.
Pois bem, Nem o aumento dos humanos, que já ultrapassaram 7 bilhões de habitantes, nem a expansão rural, que já ocupa 37% da superfície da Terra, cessaram. Embora a tecnologia tenha conseguido notáveis sucessos, o vetor básico continua atuando: novas bocas para alimentar exigem mais alimentos, que pressionam o desmatamento, que aumenta o desequilíbrio dos ecossistemas, que favorece o surgimento de pragas e doenças. Trajetória da civilização.
A safra brasileira tem batido recordes, ampliando o uso de defensivos agrícolas. Além do mais, nos trópicos o calor e a umidade favorecem o surgimento de pragas e doenças nas lavouras. Graças, porém, ao desenvolvimento tecnológico, nos últimos 40 anos se observou forte redução, ao redor de 90%, nas doses médias dos inseticidas e fungicidas aplicados na roça. Quer dizer, se antes um agricultor despejava dez litros de um produto por hectare, hoje ele aplica apenas um litro. Menos mal.
Fórmulas menos tóxicas, uso do controle biológico e integrado, métodos de cultivo eficientes, inseticidas derivados de plantas, vários elementos fundamentam um caminho no rumo da sustentabilidade. Os agroquímicos são mais certeiros, menos agressivos ao meio ambiente e trazem menores riscos de aplicação aos trabalhadores rurais. Nada, felizmente, piorou nessa agenda.
Surge agora, nos laboratórios, uma geração de moléculas que atuam exclusivamente sobre o metabolismo dos insetos-praga, bloqueando sinais vitais. Funcionam de forma seletiva, combatendo-os sem aniquilar os predadores naturais, nem afetar insetos benéficos ou animais mamíferos. No sentido ambiental, configuram-se como pesticidas não venenosos, deixando de ser “agrotóxicos”. Sensacional.
Existe, ainda, contaminação de alimentos por agrotóxicos tradicionais. O problema, contudo, difere do de outrora, quando resíduos cancerígenos dominavam as amostras coletadas. Hoje a grande desconformidade recai sobre o uso de produtos químicos não autorizados para aquela lavoura pesquisada, embora permitidos em outras. Raramente se apontam resíduos químicos acima dos limites mínimos de tolerância.
Isso ocorre por dois motivos. Primeiro, o governo tem sido extremamente lerdo no registro de novos defensivos agrícolas. Segundo, mostra-se muito onerosa, para as empresas, cada autorização de uso para lavouras distintas.
Resultado: inexistindo produto “oficial” para o canteiro de pimentão, por exemplo, o horticultor utiliza aquele outro vendido para tomate. O problema, como se percebe, é mais agronômico, menos de saúde.
Muita gente critica os defensivos químicos, considera agrotóxico um palavrão. Mesmo na agricultura orgânica, imaginada como solução milagrosa, todavia, se permite utilizar caldas químicas elaboradas com sulfato de cobre, hidróxido de cálcio e enxofre.
Resumo da história: na escala requerida pela população, as lavouras sempre exigirão pesticidas contra organismos que as atacam. Importa o alimento ser saudável.




11 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por Elza A. Cardoso, em 14/03/2013 às 21:45

"...as lavouras sempre exigirão pesticidas contra organismos que as atacam. Importa o alimento ser saudável." O QUE SERIA UM "ALIMENTO SAUDÁVEL" CONTENDO PESTICIDA?

Por Guilherme Gomes de Souza, em 06/03/2013 às 18:31

Muito bom texto. Será também publicado na Revista Lugar de Notícias.

Por José Antônio da Conceição, em 05/03/2013 às 17:20

Amigo Campello! Eu ia abordar esta questão quando de repente, li o seu comentário. O restabelecimento do equilíbrio natural, utilizando o predador da praga (que na natureza não era praga) é o único caminho natural e saudável. Esbarra porém no ídolo-mor do agronegócio: custos! Onde o objetivo "passa longe" de sentimento de produzir alimento para os humanos e fica colado com epóxi no objetivo de maximizar o lucro... Entendeu, né?

Por augusto josé sá campello, em 05/03/2013 às 12:35

Boa tarde. Já usei e uso diversas estratégias com e sem defensivos. A última foi a compra de 5 000 Joaninhas congeladas. Baratinho : 150. Reais mais 22 de frete. Funcionou Ajscampello

Por Elza A. Cardoso, em 14/03/2013 às 21:47

@ajcampello Com certeza! AS JOANINHAS SE ALIMENTAM DE VÁRIAS PRAGAS.

Por Obi Ser Vando, em 05/03/2013 às 11:06

... Plantas Companheiras São plantas pertencentes a espécies ou famílias, que se ajudam e complementam mutuamente, não apenas na ocupação do espaço e utilização de água, luz e nutrientes, mas também por meio de interações bioquímicas chamadas de Efeitos Alelopáticos. Estes podem ser tanto de natureza estimuladora quanto inibidora, não somente entre plantas, mas também em relação a insetos e outros animais. ... Algumas espécies possuem substâncias que afastam ou inibem a ação de insetos, como ocorre, por exemplo, com o piretro, presente no cravo-de-defunto e nos crisântemos. ... Muitas plantas possuem substâncias atrativas específicas para alguns insetos, que podem ser utilizadas como plantas-armadilha para várias pragas. A simples concentração dessas pragas já as torna mais vulneráveis a parasitas e predadores, assim como mais sujeitas a doenças, permitindo também a utilização de métodos agroecológicos de manejo de pragas e doenças. artigo completo http://planetaorganico.com.br/site/?p=1103&preview=true ________________ Nos ecossistemas tropicais e subtropicais (ao contrário daqueles de clima temperado) o fator biológico é o principal agente regulador de populações de espécies fitófagas; isso explica a maior biodiversidade neles existentes, o maior número de interações tróficas e a maior estabilidade. O mesmo é verdadeiro para os agroecossistemas, com pragas e patógenos só atingindo níveis de dano econômico quando desequilíbrios ocorrem motivados por fatores que: 1. Diminuem a diversidade de culturas no tempo (monocultivos) e no espaço (ausência de culturas intercalares e de vegetação natural de cobertura); 2. Reduzem a diversidade de macro e de microespécies úteis existentes na rizosfera (por falta de matéria orgânica no solo, responsável pelas características físicas, químicas e biológicas desejáveis, e flora pobre acima dele); 3. Desregulam o equilíbrio bioquímico das culturas, diminuindo a síntese de proteínas (com acúmulo de aminoácidos) e de açúcares complexos (com acúmulo de monossacarídeos), motivados pelo uso de agrotóxicos e de adubos minerais solúveis; 4. Promovem a morte de inimigos naturais e competidores (pelo uso de agrotóxicos de síntese); 5. Induzem ao uso de variedades susceptíveis ou pouco tolerantes a pragas e patógenos, melhoradas principalmente para alta resposta a adubos solúveis (maior produtividade), ou para melhorar o sabor, o aspecto externo e a resistência no transporte e na distribuição. Tudo isso já é do conhecimento do agricultor orgânico. Presentemente, porém, um novo campo se abriu à pesquisa e alguns trabalhos têm aparecido provando muito do que suspeitávamos no passado: os agrotóxicos também são capazes de diminuir a resistência natural das plantas às pragas e doenças por suprimir o fator evolutivo de pressão seletiva, isto é, a espécie fitófaga (praga ou patógeno). Assim, quando as espécies que se alimentam de plantas estão presentes nas culturas (e impedidas de atingirem níveis de danos econômicos pelas técnicas citadas acima) o fator seletivo existe e é detectado de alguma forma pelas plantas (possivelmente por processo bioquímico alelopático), fazendo com que elas produzam substâncias de defesa (fitoalexinas, por exemplo). continua em http://damasconatural.com.br/index.php?route=information/news&news_id=11

Por Elza A. Cardoso, em 14/03/2013 às 21:50

@feliz Como o cravo de defunto e o tomate! Plantei ao redor da estufa de tomates e deu certo!

Por José Antônio da Conceição, em 05/03/2013 às 20:44

@feliz Acelga, plantada no entorno dos canteiros de alface. A acelga é toda comida pela praga e a alface completa seu ciclo sem ataques da praga!

Por Obi Ser Vando, em 06/03/2013 às 12:15

@joseantonio400 aí está!

Por milton valdameri, em 05/03/2013 às 09:40

Gostei da abordagem, mas vou chamar a atenção para um detalhe importante. Agrotóxico sem veneno é impossível, pois se é tóxico é venenoso, então o correto é falar em defensivo agrícola sem veneno. Existem muitos médotos para defender a agricultura sem usar agrotóxicos, o problema é que nem sempre se mostram viáveis para a produção de alimento necessária, resultando na escolha em usar agrotóxico ou deixar multidões passando fome. Apenas por curiosidade, vou relatar uma experiência de um agricultor chinês (não é lenda). Na época não haviam os defensivos químicos, se haviam não estavam ao alcance do agricultor chinês, que estava tendo grandes perdas causadas pelas lagartas na plantação. O chinês fez um viveiro de passarinhos, onde alimentava-os com lagartas retiradas da plantação. Sempre que ia alimentar o passarinhos, usava um apito, condicionando os passarinhos a presença das lagartas quando ouviam o apito. Depois de algum tempo, o chinês soltou os passarinhos e caminha pela plantação usando o apito. Os passarinhos condicionados vinham procurar as lagartas e outros passarinhos aprenderam com eles, desta forma o chinês conseguiu diminuir significativamente suas perdas.

Por roberto argento filho argento, em 05/03/2013 às 11:09

@miltonv: Xiiiiii!. Sem Veneno? - light, talvez? (diet não!)