Opinião

Por , em 02/03/2013 às 19:41  

Eu quero que o PIB se exploda!

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A grande notícia da mídia nos últimos dias, junto com o foguetório corintiano e a renúncia do Papa, tem sido o baixo crescimento do PIB brasileiro, que ficou em míseros 0,9%, um rendimento digno dos anos de pior crise no Governo Fernando Henrique Cardoso (aquele demonizado por petistas e peemedebistas como “pouco desenvolvimentista”). Desde que Lula começou sua política de indução artificial ao consumo (que os tucanos levaram 7 anos para entender e finalmente criticar que se tratava de puro “anabolizante microeconômico”), nunca o governo do PT, agora já em sua segunda mandatária e em seu 11º ano, tinha tido um rendimento em números absolutos tão ruim.

Neste cenário aparentemente trágico, começam a vir à tona as explicações óbvias de sempre (há muitos obstáculos ao investimento em infraestrutura, a carga tributária é muito alta e mal distribuída, os juros são altos porque a máquina pública é cara e ineficiente, impedindo a geração de poupança interna), e as falácias demagógicas que querem nos levar ao abismo das soluções fáceis e equivocadas (“se dermos um calote na dívida pública sobrará dinheiro para investimentos”, ou ainda “temos que desvalorizar nossa moeda para vendermos soja mais barata aos chineses”).

É óbvio que precisamos de reformas estruturais que nos conduzam a um crescimento sustentável, no longo prazo. Precisamos de um marco regulatório mais claro para os investimentos em infraestrutura, tanto públicos quanto privados. Precisamos desonerar a folha salarial e a classe média, e aumentar os tributos sobre bens imóveis e sobre a renda dos mais ricos (Gerard Depardieu acharia o Brasil um verdadeiro paraíso, onde ricos e trabalhadores pagam os mesmos 27,5% de IRPF, sem desconto integral de gastos com saúde, educação e moradia). Precisamos de uma máquina pública cujo custo caiba dentro do seu respectivo orçamento, e o caminho passa por um pacto federativo que evite a sobreposição de funções dos três níveis de governo, além de uma modernização no marco regulatório dos serviços públicos (licitações e contratação de pessoal).

Mas essa preocupação quase que exclusiva com o crescimento nominal do PIB acaba nos conduzindo politicamente a medidas imediatistas que evitam um debate mais a longo prazo do que queremos para o futuro do nosso país. Deixamos a inflação comer 6% do nosso poder de compra todos os anos, o que, em um cenário quinquenal, significa 1/3 do poder de compra que tínhamos 5 anos antes, considerando o montante acumulado de perdas inflacionárias.

Se a inflação do Governo Fernando Henrique era eminentemente cambial, fruto da desvalorização do Real em face do Dólar, de 1,00 (paridade) para 0,25 (no final de 2002), a inflação do Governo Lula-Dilma é fruto de diversos fatores cumulativos, relacionados tanto à macro quanto à microeconomia: os subsídios estatais ao crédito consignado em folha, com estímulo ao consumo de bens não-duráveis; o aumento da carga tributária e dos gastos públicos; os endividamentos não-contabilizados do Governo Federal (emissão de títulos do BNDES e subtração de recursos do FGTS); o excesso de gastos públicos especialmente no biênio 2009/2010, para garantir a eleição de Dilma Roussef, etc.

Ou seja, vivemos um cenário que, não fosse plenamente reversível se começarmos a agir de imediato, seria quase desesperador: nossa moeda se valoriza (o que é bom para o trabalhador), mas apesar disso a nossa inflação continua crescendo a cada ano, em cascata, como aliás é próprio do dragão inflacionário sempre que o deixamos solto demais.

A excessiva preocupação com o baixo crescimento do PIB deixa de lado o debate político que realmente importa: a) fazer as reformas estruturais que obriguem o Estado brasileiro a fazer “mais com menos”, enxugando a burocracia burra da nossa legislação totalitária e diminuindo a carga tributária (além de torna-la mais justa para os pobres e a classe média) – isso vai nos permitir estarmos prontos para gastar com eficiência os petrodólares do pré-sal, quando vierem; e b) conduzir uma política macroeconômica que neutralize a inflação iminente, restringindo-a a um índice que se situe entre o índice de valorização/desvalorização cambial (podendo ser deflação, quando nossa moeda estiver valorizada) e o índice de crescimento vegetativo do país (pois o aumento populacional implica numa variante importante de inflação por demanda).

Mas o mais triste nessa história toda é a miopia dos nossos políticos. A Oposição (PSDB-DEM-PPS) não consegue propor uma plataforma efetiva para as reformas estruturais elencadas acima, e continua apostando em um nome para 2014, ao invés de tentar chegar em um consenso sobre um projeto de país.

O Governo (PT-PMDB-PSB-PCdoB-PR-PRB-PTB-PDT-PSD) segue sua estratégia de evitar o conflito com as forças fisiológicas da base governista no Congresso, afastando da pauta as reformas mais polêmicas (inclusive a Política), e “tocando o barco” na cômoda estratégia de “balcão de negócios”, onde todos têm cargos comissionados, emendas orçamentárias, obras de infraestrutura superfaturadas, e todo mundo fica feliz com o seu “pedaço do bolo”.

Não há alternativa. Toda a política brasileira se transformou em um imenso circo de personalidades cultuadas individualmente, como se fossem salvadores da pátria. Falsas lideranças que não têm sequer a capacidade de discutir uma proposta de reforma legislativa que traduza em termos jurídicos as necessidades institucionais do nosso país.

E a imprensa, que poderia ajudar a elevar o nível desse debate, como faz em países mais desenvolvidos (quem já ligou uma TV aberta na Europa, no horário nobre, pôde se surpreender ao, ao invés de novela, ver um debate sobre políticas públicas), segue aderindo ao discurso oficial, “chapa branca”, de que o problema com o “pibinho” (apelido carinhoso para o fracasso da gestão Guido Mantega) são os turistas brasileiros que viajaram para o exterior.

Somos mesmo uma República de Bananas!




17 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por augusto josé sá campello, em 05/03/2013 às 13:48

Boa tarde. Me perdoem o mau humor aí abaixo. Ninguém precisa ir catar coquinho. Acontece que hoje pela manhã fiz a compra mensal de meus remédios. Sempre os mesmos. Bom, mes passado custaram 484,00. Hoje gastei 545,00. Um outro detalhe sempre esquecido nos posts daqui é o bendito sistema financeiro que se tem. Ele é fraco, desarticulado e depende da boa vontade de Brasília. E tem de encarar a concorrência desleal do segmento financeiro estatal. Ajscampello

Por Victor Castro, em 06/03/2013 às 07:41

@ajcampello Eu entendo sua desconfiança em relação a dar qualquer ideia do tipo ao Governo. Fazendo uma analogia com um sex shop, é como se disséssemos ao Governo: "ao invés do vibrador pneumático, me introduza só o de couro, ok?", e o Governo introduzirá os dois simultaneamente. Mas saiba que sua birra em relação à tributação dos remédios é com os impostos sobre produtos e serviços (ICMS, ISS, IOF, IPI), não sobre bens imóveis (IPTU, ITR).

Por augusto josé sá campello, em 05/03/2013 às 12:53

Boa tarde. Já falei bastante deste assunto.. Inclusive, lá atrás vivia dizendo que vivemos tempos difíceis. Mas eu não posso concordar com mais tributação em cima da propriedade imobiliária. É uma sandice antiga e improdutiva. Depardieu se candidatou à cidadania Russa não por ter inúmeras e grandes propriedades e sim porque vive de remunerações diversas relativas a direitos autorais, marketing de produtos com sua chancela, salários e participações,etc Depardieu tem, registradas mais de 15 empresas como sócio, dono individual, etc. Agora, amigos, procurem calcular o que incide, direta e indiretamente de impostos e taxas as mais diversas sobre um apartamentinho de aposentado de 82 m2. Não esqueçam de somar a infame taxa de lixo e a de iluminação pública. Ora vão catar coquinho. Ajscampello

Por Victor Castro, em 06/03/2013 às 07:39

@ajcampello Augusto, o que eu levantei é na verdade um dos pontos de estudo dos tributaristas: a vinculação do imposto à capacidade contributiva do tributado. Hoje o grosso da arrecadação no Brasil são os impostos sobre a produtos e serviços (ICMS, ISS, IOF e IPI) e o imposto de renda. O IPTU e o ITR representam menos de 10% da arrecadação total do país. Ora, qualquer pessoa com o mínimo de bom senso sabe que os impostos que mais atendem ao Princípio da Capacidade Contributiva (tributam-se os que possuem mais) são o IR (se forem ampliadas as faixas de tributação, ao invés do 15-27 que temos hoje)e e os impostos sobre propriedade imóvel. Ou seja, a ideia não é tornar concomitantes os impostos sobre produtos e serviços E o aumento nos impostos territoriais, mas sim OU UM OU OUTRO tipos. Capicce?

Por César Guimarães, em 03/03/2013 às 12:38

Não concordo que "a) fazer as reformas estruturais [do] Estado brasileiro (...) e b) conduzir uma política macroeconômica que neutralize a inflação iminente" sejam o debate político que realmente importa. O debate que realmente importa é o "marco regulatório (...) para os investimentos em infraestrutura".

Por Victor Castro, em 03/03/2013 às 18:53

@cesarguimaraes César, você não concorda que o marco regulatório da infraestrutura está contido em "fazer as reformas estruturais que obriguem o Estado brasileiro a fazer 'mais com menos', enxugando a burocracia burra da nossa legislação totalitária"?

Por José Antônio da Conceição, em 03/03/2013 às 00:37

Não sei não Victor! Se relacionarmos os Partidos Políticos "ausentes" aí no texto do post, você aponta um deles prá nós? Pode apontar até uma lista tríplice! A gente se vira prá descobrir sua preferência!

Por Victor Castro, em 03/03/2013 às 10:25

@joseantonio400 José, se você entendeu aquele parágrafo como uma defesa indireta do Rede Sustentabilidade Kaiowá, o novo partido da Marina e da turma eco-cool, pode ir tirando seu cavalinho da chuva. No parágrafo seguinte eu digo que a nossa política virou um culto a personalidades, sem um debate profundo de ideias. E há muitos outros não citados: P-Sol, PSTU, PCO, PSC, PTC, PRN, PMN, PAN, etc. É letrinha para um caldeirão inteiro de sopa!

Por roberto argento filho argento, em 02/03/2013 às 22:59

Rapaz!, li tudinho mas, depois de descobrir que o PRB vai melhorar minha Aposentadoria e vai cuidar dos da "melhor idade" (minha faixa etária), tô pensando em abandonar o PQP e abraçar a "causa" do PRB ... PRB é DEZ!!! - o PIB que se exploda! e, somos, sim, uma República de Bananas

Por Victor Castro, em 03/03/2013 às 10:26

@argento Hahahahahaah, boa, Argento! Também vi o programa dos caras essa semana. Surgem com cada uma, do nada...

Por erikssom patos, em 02/03/2013 às 19:56

Numa palavra: o governo aparelha o estado para perpetuar no poder, para isso monta um balcão de negócios no meio do poder e fatia, esquarteja a nação em pedacinhos e distribuiu aos parasitas do estado.

Por Victor Castro, em 02/03/2013 às 19:58

@patos Digo: está dando certo enquanto estratégia para se manter no poder. A Oposição não tem nenhuma chance para 2014, e se por ventura ganhar, vai herdar um país endividado e em recessão.

Por erikssom patos, em 02/03/2013 às 20:12

@victorcfs, pois eu te digo, se não houvesse essa loucura do governo em interferir na economia como faz dia e noite, se mudassem de rumo, o remédio amargo seria abraçar a recessão como a cura mais rápida e possível. Claro que isso são atitudes de um realismo econômico que foge completamente os padrões atuais.

Por Victor Castro, em 02/03/2013 às 19:57

@patos E está dando certo, Erikssom...

Por mario jota, em 02/03/2013 às 19:53

Tenho a impressão ( aliada a crônica e incurável incompetência petista ) que a baderna no país é proposital. Não é possível que não haja algum petista com conhecimentos economicos, um só, que não tenha vislumbrado essa derrocada economica brasileira. Se não houver algum petista com conhecimentos e experiência, então podemos dizer: é pura falta de imaginação e incompetência típica dos homens dos tempos da caverna. Se houver e não se manifestou durante todas as presepadas do Lula e deste governo, então só pode ser proposital tal baderna instalada no país.

Por Victor Castro, em 02/03/2013 às 19:56

@mario130852 Existe um só, Mario: Antonio Palocci. Mas aí seria admitir a lógica do "rouba, mas faz".

Por mario jota, em 02/03/2013 às 20:01

@victorcfs No final das contas.....não temos mais ninguém.