Opinião

Por Roberto Takata, em 07/03/2013 às 15:20  

Lições da polêmica na comunidade neurocientífica nacional

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Com a publicação do manifesto “Eu apoio a Ciência Brasileira” assinado por sete neurocientistas brasileiros na qual acusava-se o pesquisador Miguel Nicolelis de apropriar-se do aparato e das verbas do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Interface Cérebro-Máquina (INCeMaq) em benefício próprio, muito barulho foi feito, mas, na minha avaliação serviu apenas para manter e aprofundar a cisão entre os grupos envolvidos.

Para os desdobramentos, vide texto meu alhures e as atualizações ali. (As informações contidas nos links são essenciais para entender o restante deste texto.)

Com o benefício do conhecimento após os eventos, podemos olhar em retrospecto e tentar tirar algumas lições.

*Provavelmente teria sido melhor se Miguel Nicolelis tivesse mencionado que desenvolvia um projeto similar quando Márcio Moraes fez sua apresentação na reunião do comitê gestor do INCeMaq. Mas Nicolelis não teria como julgar à época.

*Provavelmente teria sido melhor que os signatários, antes de publicarem o manifesto, tivessem tentado contato direto com a equipe de Nicolelis para esclarecer a questão da autoria e da motivação para que o projeto publicado não tivesse sido mencionado na reunião. Mas o mau relacionamento entre os grupos talvez tenha dificultado essa opção.

*É preciso tomar cuidados redobrados ao interpretarmos ações de quem consideramos inimigos ou maus adversários. Podemos estar imputando malícia onde não existe.

*É preciso tomar cuidado ao divulgar essas disputas. No meio jornalístico é impossível não publicar uma querela envolvendo nomes grandes da ciência brasileira; também segue-se que se deve tentar ser imparcial e ouvir os dois lados. Mas, ao fazer isso, quase que inevitavelmente acaba funcionando como uma caixa de ressonância e magnificando o desentendimento. Talvez apenas ouvir os dois lados não baste. Um terceiro ou quarto lados sem ligação direta que possam analisar a questão de modo desapaixonado podem ser necessários.

*Como cidadãos, devemos cobrar mais transparência das agências de fomento e órgãos de fiscalização das atividades científicas. Temos mecanismos legais para isso: nominalmente a Lei de Acesso à Informação.

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É sempre triste que grandes cientistas entrem em conflito. Fico imaginando o quanto o Brasil não perde ao deixar de haver colaboração produtiva entre pessoas tão capazes. Mas cientistas são, antes de mais nada, humanos e estão sujeitos como tais a mal entendidos e erros do gênero.




3 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por Roberto Takata, em 08/03/2013 às 12:12

Augusto, Regina, Não vou me aventurar a conjecturar a razões psicológicas dessa ordem. É difícil avaliar o que as pessoas pensam mesmo quando convivemos com elas, avaliar à distância, então, é temerário. Ainda mais que o episódio nos ensinou justamente o perigo que é a interpretação da intenção alheia. Podem, perfeitamente, as partes terem tido as melhores intenções, mas que resultou em erro. Até prova em contrário, trabalho com essa hipótese de que todos estão agindo de boa fé. Agora, quanto a marketing pessoal, Regina. Isso varia de pessoa para pessoa e também da cultura em que ela está imersa. Mas também aqui podemos ter uma percepção equivocada: podemos achar que a pessoa está querendo aparecer quando está apenas empolgada com aquilo que faz. E também um certo nível de autopromoção pode ser necessário para chamar a atenção para o que tem para se mostrar. E aí pode ser alvo para diferenças de ponto de vista se uma dada ação é excessiva ou não. Sou um admirador declarado do Dr. Nicolelis, então sou suspeito em dizer que, de modo geral, acho que ele contribui muito com a ciência brasileira. (Sem deixar de reconhecer também a importância do trabalho dos pesquisadores signatários do manifesto.) [E obrigado pelas boas vindas, ainda que eu seja seu veterano no OP. : )] []s, Roberto Takata

Por regina helene de oliveira, em 07/03/2013 às 22:51

Takata, não tinha encontrado você antes por aqui .Bem dou-lhe as boas vindas. O problema não se limita aos cientistas não é mesmo?O orgulho, ego desmedido, busca do poder a qualquer custo...se enquadram na maioria de nós humanos.Só lhe faço uma pergunta: é normal um cientista que se pressupõe um estudioso introvertido que vive para a ciência utilizar tanto o marketing?Algo soa mal.

Por augusto josé sá campello, em 07/03/2013 às 15:34

Boa tarde. Quando os recursos são abaixo do escasso, as pessoas surtam. Ajscampello