Opinião

Por Fábio Chateaubriand, em 07/03/2013 às 00:00  

O gigantismo de Covas

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Era 12 de dezembro de 1968 (véspera do AI-5) e a sombra da ditadura militar já escurecia o Congresso Nacional. O deputado federal Mario Covas obteve uma vitória da palavra contra a força. Armado apenas com sua oratória, reverteu uma votação que parecia perdida e salvou o mandato do colega Márcio Moreira Alves com um discurso que terminava assim: “Eu, (…), por formação e por índole, sou um homem que fundamentalmente crê. Desejo morrer réu do crime da boa fé, antes que portador do pecado da desconfiança. Creio na Justiça, cujo sentimento, na excelsa lição de Afonso Arinos, é a noção de limitação de Poder. (…). Creio no povo, anônimo e coletivo, com todos os seus contrastes, desde a febre criadora à mansidão paciente. Creio ser desse amálgama, dessa fusão de lamas e emoções, que emana não apenas do Poder, mas a própria sabedoria. E nele crendo, não posso desacreditar de seus delegados. Creio na palavra ainda quando viril ou injusta, porque acredito na força das idéias e no diálogo que é seu livre embate. Creio no regime democrático, que não se confunde com a anarquia, mas que em instante algum possa rotular ou mascarar a tirania. Creio no Parlamento, ainda que com suas demasias e fraquezas, que só desaparecerão se o sustentarmos livre, soberano e independente. Creio na liberdade, este vínculo entre o homem e a eternidade, essa condição indispensável para situar o ser à imagem e semelhança de seu criador. (…). Porque em tudo isso creio, (…), quero declarar minha firme crença de que, hoje, o Poder Legislativo será absolvido”.

Mario Covas Júnior nasceu no dia 21 de abril de 1930, na cidade de Santos. Seu pai, pequeno comerciante, era de origem portuguesa. Sua mãe provinha do sul da Espanha. Cursou o primeiro grau no Colégio Santista e o segundo grau no Colégio Bandeirantes, em São Paulo. Em 1955 (já casado com Lila), formou-se engenheiro civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, onde teve uma intensa militância na política estudantil, sendo eleito vice-presidente da UNE.

Nomeado engenheiro da prefeitura santista, ganhou reconhecimento de toda a cidade por salvar inúmeras famílias carentes de um deslizamento no morro do Marapé. Assim, em 1961, candidatou-se à prefeitura da cidade pelo Partido Social Trabalhista (PST), obtendo o segundo lugar. Pelo mesmo partido, Covas elegeu-se deputado federal no ano seguinte e em 1966 se reelegeu já pelo MDB.

Dois anos depois, o dia 13 de dezembro de 1968 abraça o Brasil e um sentimento. Naquela data, o governo militar do presidente Arthur da Costa e Silva decretou o AI-5 – o ato institucional que deu plenos poderes ao chefe de Estado, pôs o Congresso Nacional em recesso, suspendeu o recurso jurídico de habeas-corpus, estabeleceu a censura e iniciou uma infindável leva de cassações políticas. Mario Covas tem seu mandato cassado, perdendo seus direitos políticos por dez anos. “É um erro político-histórico tentar procurar vínculos entre a tomada de posição do Congresso, em 68, e o AI-5”, advertiu Covas uma década depois. “Se déssemos aquela autorização (para o processo contra Moreira Alves), nós mesmos estaríamos cassando o Congresso”.

Mario Covas retoma seus direitos políticos no final da década de 1970 e em 1982 (já com a nova reforma partidária assinada pelo presidente Figueiredo) é eleito pelo PMDB para o seu terceiro mandato de deputado federal. Tendo sido um dos mais votados, foi convidado pelo Governador Franco Montoro para ser Secretário dos Transportes e, em seguida, para ser prefeito da capital paulista.

O sucesso da gestão frente à Prefeitura de São Paulo foi reconhecido pelo povo nas eleições de 1986, quando Mario Covas foi eleito Senador da República com mais de 7,7 milhões de votos, fato que o fez ocupar o Guiness por 16 anos. O Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) assim comentou a atuação do Senador Mario Covas: “Parlamentar preparado, excelente orador, foi a voz mais autorizada no processo de elaboração da Constituição de 1988”.

Em 1994, já no PSDB, partido que ajudou a fundar e após amargar duas derrotas consecutivas, em 1989, quando perdeu a Presidência da República para Fernando Collor e, em 1990, quando perdeu o Governo do Estado para Luiz Antonio Fleury, foi conduzido ao Palácio dos Bandeirantes.

Como governador pegou um Estado endividado, mas com um projeto austero, implementando responsabilidade fiscal antes que a lei assim o exigisse, recuperou as finanças paulistas e deu início à uma série de obras que recolocaram São Paulo no caminho do progresso e do desenvolvimento social.

Finalmente, em 1998 foi reeleito numa campanha em que a grande dificuldade era mostrar à população tudo o que havia feito nos últimos quatro anos, já que a contenção de gastos eliminara as despesas com publicidade. Em 2001 um câncer na bexiga o impediu de completar o mandato. Porém, a doença não fez com que ele deixasse de combater. Ao contrário, fez o que pode até o limite de suas forças físicas.

Ao longo de sua vida, Mario Covas, seguramente um dois maiores políticos brasileiros, foi singular por diversas razões; seja porque tinha visão de Estado, sabendo pôr o interesse público à frente das conveniências, ou porque era capaz de abdicar de crenças e posições longamente acalentadas se a realidade e o interesse coletivo assim o exigissem. Covas entra para a história paulista e brasileira como um homem de princípios, valores e principalmente como um lutador: “Adversidade? Não… Não me venham falar em adversidade. A vida me ensinou que, diante dela, só há três atitudes possíveis: enfrentar, combater e vencer!”.




1 opinião publicada

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Por Ricardo Froes, em 07/03/2013 às 09:08

Que falta faz um Covas hoje...