Opinião

Por Fábio Chateaubriand, em 04/04/2013 às 01:00  

Assis Chateaubriand, estrela de primeira grandeza

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“(…) No fundo Getúlio Vargas gostava de mim porque eu era um canalha igual a ele – que sabia que eu manobrava com ele quase sempre com o propósito de enganá-lo, como ele enganava a mim.” Assis Chateaubriand

 

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, o Chatô, nasceu em Umbuzeiro, estado da Paraíba, em 5 de outubro de 1892 e faleceu em São Paulo em 4 de abril de 1968. Era filho de Francisco Chateaubriand (os Bandeira de Melo) e Maria Carmem (os Guedes Gondim). Chatô apontou no jornalismo brasileiro como uma estrela de primeira grandeza, falando por si não somente os seus valores literários, que o tornou imortal da Academia Brasileira de Letras, mas também o império jornalístico por ele criado, fazendo funcionar dezenas de jornais, revistas, estações de rádio, emissoras de televisão, agências de notícias e agências de propaganda por todo o Brasil, sob a denominação de Diários e Emissoras Associados, num trabalho de bandeirantismo e de integração nacional.

De forma pioneira e ousada, Chatô conseguiu acumular atividades em diversas áreas. Além dos Diários Associados, criou a revista O Cruzeiro (a mais famosa e poderosa da época e por vários anos), idealizou o Museu de Arte de São Paulo (MASP), fundou a primeira emissora de televisão da América Latina, a PRF-3 TV Tupi – Difusora, foi catedrático de Direito Romano da Faculdade de Direito de Recife, foi ocupante da cadeira nº 37 da Academia Brasileira de Letras. Na política, elegeu-se senador da República duas vezes e foi nomeado embaixador do Brasil em Londres pelo presidente Juscelino Kubitschek. Porém, é possível que os seus jornais o tenham feito acompanhar o movimento político e a ele influenciar mais do que os seus próprios cargos. Até a década de 1950, a imprensa brasileira baseava-se fundamentalmente em troca de favores e estratégias com o governo. Assim, a política e a imprensa se apoiavam mutuamente, regidos por esquemas pouco claros. Incapazes economicamente, os jornais da primeira metade do século XX tomavam partido na vida política para o governo extrair suas formas de sobrevivência, e Assis Chateaubriand usou desse método o quanto pôde, chegando a representar em si essa fase da comunicação brasileira. Regendo seu conglomerado das comunicações, Chatô manteve sua influência ao longo dos vários governos, apoiando ou desbancando quem lhe convinha. Sua relação com Getúlio Vargas foi, talvez, a mais conturbada entre seus contatos do governo. Chatô o apoiou na Revolução de 30 e era seu amigo antes mesmo de assumir o poder. Entretanto, em 1932, Chateaubriand começou a fazer-lhe forte oposição, tendo que arcar com rígidas conseqüências (foi preso várias vezes e quase deportado para o Japão). Seu império começava a ruir quando, estrategicamente, retomou o apoio a Getúlio, reerguendo-se alguns anos depois.

Meu avô materno Ranulfo Chateaubriand o descrevia como um homem brilhante e de memória portenta. Grande facilidade de expressão, de comunicação. Irrequieto e fecundo. Personalidade contraditória, de gestos imprevisíveis. Criador e devastador. Renovador e demolidor. Organizador e boêmio. Lírico e crítico. Pioneiro de muitas obras. Temperamento rebelde, impetuoso, mas de charme cativante. Ora agressivo, ora manso. Sem método para as coisas temporais. Semeador de cultura e de unidade nacional. Vida intensa, fabulosa, tumultuária. Homem orquestra. Pregador do civismo. Inventor e debatedor de idéias novas. Homem de atividades múltiplas. Mesmo sexagenário e paralítico, mantinha o vigor intelectual de um jovem. Homem dos contrastes. De comportamento, muitas vezes, infantil. Um semeador. Um esmerado. Um gênio. Uma figura à frente de seu tempo.

Assis Chateaubriand não foi apenas um dos maiores comunicadores da história do Brasil. Seu papel não se resume ao passado, mas permanece até o presente. Seus vários anos realizando ousadias no comando dos Diários Associados imprimira, paralelamente com a conjuntura de sua época, mudanças significativas não só na comunicação do Brasil, mas também na história social e política, chegando, é claro, a penetrar na vida privada de cada cidadão através de seus mais diversos veículos de comunicação. Não cabe aqui discutir a validade dos métodos usados por ele. Porém, o Brasil e toda a nossa imprensa certamente não seriam os mesmos sem esta grande figura nascida na Paraíba e que, na infância, quem diria, era gago e analfabeto.

Homens como Chatô são raros. Uma das mais célebres frases de Bertold Brecht, traduz, sem dúvida, o pensamento de cada um de nós: “Há homens que lutam a vida inteira. Estes são os imprescindíveis”. Assim foi Assis Chateaubriand.

 

Artigo publicado no jornal Diário do Grande ABC em 3 de abril de 2005.




3 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por augusto josé sá campello, em 08/04/2013 às 16:48

Boa tarde. Foi tudo de bom e...tudo de mal. A "receita" de Chatô é usada até hoje. Por empresários de diversos segmentos. Ajscampello

Por roberto argento filho argento, em 04/04/2013 às 09:31

Um dia qualquer, conto a história dos Argentos.

Por sem noção, em 04/04/2013 às 08:53

Pra preencher a vaga do Chatô, hoje temos o Edir Macedo e seu império, conquistado à base de dízimos. Assim caminha a humanidade..........