Opinião

Por José Antônio da Conceição, em 18/04/2013 às 23:53  

Ferrovias ou burocracias? [por Ricardo Froes]

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Há uns tempos, ainda no governo Sarney, eu conversava muito com um vizinho, engenheiro de transportes especializado em ferrovias com posto elevado no Ministério dos Transportes, e, curioso que sempre fui, abusava dos seus conhecimentos sobre a sua especialidade fazendo tudo que é pergunta possível. O cara era boa gente, gostava de uma cerveja e volta e meia estávamos papeando.

Um belo dia eu resolvi perguntar por que não se investia em uma ferrovia que varasse o Brasil de Norte a Sul, já que a economia concentrada no Sul-Sudeste contrastava com o abandono do Norte-Nordeste, argumentando que o transporte ferroviário poderia amenizar ou, quem sabe, fazer até sumir essa disparidade gritante, já que as rodovias nunca foram nem de longe uma solução para o transporte pesado e as hidrovias, embora baratas ou quase de graça, por sua lentidão também não atenderiam as necessidades, já que a inflação diária da época encareceria demais as cargas transportadas.

E sabem qual foi a resposta do engenheiro de transportes? Que isso seria impossível porque uma ferrovia dessa magnitude seria deficitária!

Pelamordedeus! Foi aí que percebi que eu estava falando, não com o técnico, mas com o burocrata lotado no Ministério, que não enxergava um palmo à frente do nariz.

Ainda tentei argumentar com a lógica mais vagabunda e óbvia de que após cinco ou dez anos de funcionamento a ferrovia estaria mais que paga e que, acima de tudo teria levado o progresso para quem precisava dele, mas Virico – esse era seu apelido – sempre se mostrou inflexível: o que interessava mesmo eram os “efeitos imediatos”, nada de pensar em futuro.

O mais gozado é que, a despeito disso, curiosamente, as obras da ferrovia iniciaram-se em 1987, durante o governo do próprio Sarney, só que, o que ele ousou chamar de Ferrovia Norte-Sul, limitou-se ao trecho entre Açailândia e Porto Franco, as duas cidades obviamente localizadas no Maranhão e distantes apenas 215 km entre si. E sabem quando foi concluído esse trecho? Em 1996! Ou sejam, 24 km por ano!

A julgar por esse ritmo fantástico, que está sendo acompanhado por todos os governos que sucederam o de Sarney, a execução do projeto de 4.155 km terá a duração de 173 anos, sendo concluído em 2160! Animador, não é?

Quanto a Virico, mudou-se e nunca mais o vi.

Por Ricardo Froes 11:37 1 comentário (Busquei lá no Blog do implicante)

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Theresa disse…

Talvez o Zeca Diabo tenha feito uma visitinha ao Virico a mando dos feudalistas maranhenses.

18 de abril de 2013 12:21

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Pois é… enquanto isso… lá em Israel constroem-se ferrovias à razão de 1 Km por dia. Vou procurar o vídeo e postar depois, nos comentários. JAC

 

OO:39 – Errei! Na verdade, a construção avança 1,5 Km por dia! Eis os vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=r-CSelUPrtc

 




9 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por Claudemir Santos, em 20/04/2013 às 00:35

Nunca antes na história desse país houve tanto desperdício de dinheiro publico. Nunca antes na história desse país houve tanta roubalheira, tanto descaso com o dinheiro publico. Nunca houve tantas ONGS mancomunadas com o serviço publico, fazendo coisas q até então era atribuição do estado... E claro ganhando uma grana legal por fora, distribuindo benesses aos envolvidos nas falcatruas. Nunca antes na história desse país houve tanto picareta misturando coisas de estado com coisas de partido. Nunca antes na história desse país houve tanto morcego apinhado em cargos públicos, deixando o estado engessado para investimentos onde deveria ser prioridade. Quando se gasta quase todo o orçamento só com cumpanheiros vagabundos, com certeza não vai sobrar dinheiro para coisas q deveriam ser essênciais...porém sob a ótica de um bando de mequetrefes, o essencial é encher o bolso dos cumpanheiros, as burras do partideco de merda....o povo...ao povo...pão e circo...Como diria o no faith...i lose my religion..

Por augusto josé sá campello, em 19/04/2013 às 14:43

Boa tarde. Obrigado por me citar, amigos. Creio saber um pouco do que se passou e apenas tenho leves e imprecisas idéias sobre o atual e, quanto ao futuro...é provável que não esteja por aqui, mas me interesso por ele, pelos amigos e por minha família. Ferrovias. Que assunto tétrico! Sempre houve um plano de interligação norte - sul, por ferrovia. E seu complemento, : extensos ramais demandando a costa e penetrando em direção aos andes. Era definido em termos de troncos ferro-rodoviários-cabotagem e navegação fluvial. Ou seja era o que passou a chamar-se de "intermodal". Participei em duas épocas. A primeira assessorando na "transferência de tecnologia" para a implantação de uma fábrica de rodas e eixos ferroviários perto de Taubaté/SP. Mais tarde veio a chamar-se MAFERSA. Não sei que fim levou. Em outra etapa da vida , sempre como aspone, participei da modelagem de linhas de crédito destinadas a fomentar estaleiros de construção de chatas e empurradores, na Amazônia. Sim! Havia um PLANO ESTRATÉGICO de transportes. Bastante detalhado. Havia capítulos sobre solos, regime de chuvas e inundações, secas, previsão de formação de mão de obra, tipo de leito e de vagões, traçado estimado de trechos principais e ramais, interligações, etc Articulava-se com o que já se sabia a respeito de jazidas de minérios. Previa a construção e/ou melhorias em portos. Era atualizado bianualmente. Deve estar juntado traças e baratas em algum arquivo perdido. Começou a ser desprestigiado nos anos dourados de JK. GEIPOT era o nome do órgão no qual eu vi pedaços deste plano pela última vez. Quando? Talvez em fins dos anos 70, início dos 80. Sei lá. Meu HD está muito fragmentado. Este plano estratégico tinha alguns "apensos" classificados como Confidenciais. Um deles era muito interessante. Tinha a ver com navegação, navios de porte. Previa a construção do que sabia-se seria a única instalação industrial abaixo do Equador capaz de fabricar motores para navios. Motores assim são fabricados, até hoje por umas poucas fábricas/países. Seria estratégico ter uma fábrica destas por aqui. E nossa indústria siderúrgica deveria produzir aços especiais. São "famílias" destes aços. Hoje, uma das razões de perda de competitividade de nossa indústria é que os produtos finais exigem estes aços e não os temos em casa. Este pedaço do tabuleiro , como disse, deve estar em algum arquivo. Pois é, não é atoa que fiquei hipertenso e cardiopata no serviço público. Ajscampello

Por roberto argento filho argento, em 19/04/2013 às 15:28

@ajcampello; hi hi hi! Convergimos e nunca nos vimos, eu, nômade, fazendo levantamentos - trabalho todo jogado fora.

Por roberto argento filho argento, em 21/04/2013 às 15:16

@argento: Era, eu, só um peãozinho sem qualificação alguma, mão de obra barata (precisava defender o pão) e que, devido aos deslocamentos, intuiu que a "Coisa" era muito grande

Por augusto josé sá campello, em 19/04/2013 às 21:40

@argento Boa noite Argento. Dia destes eu cometi uma frase lapidar. Disse algo como : Me recuso a ser uma próstata crescidinha andando por aí. Então o amigo fez levantamentos? Destes de transportes nuca fiz. Não tinha competência. Mas fiz em Educação e outras coisas de que nossa preclara classe política parece ter asco. Mas, nestas andanças, sempre que possível, mantinha a mente aberta e os olhos arregalados. Vi, amigo, vi muita coisa. Vi a altura do enrocamento (é este o nome da brita por baixo dos dormentes?) variar de um trecho para outro de ferrovia lá no Nordeste. A explicação que me deram foi emblemática : Empreiteira diferente. Foi preciso muita força na peruca para não sair batendo nos carinhas. Ajscampello

Por José Antônio da Conceição, em 19/04/2013 às 01:13

Tudo está aí no tabuleiro (quem disse isso foi o Campello também) - atualmente a eleição 2014 (e seus podres desdobramentos). Mas tem gente que se recusa a olhar para o tabuleiro! Parece que não desejam "enxergar" o tabuleiro!

Por roberto argento filho argento, em 19/04/2013 às 01:07

Pois é, "ensinaram" para o braZileiro que o transporte ferroviário está (estava) ultrapassado e que o Negócio era investir em estradas e na Indústria Automobiistica - brasileiro nunca fez Trem, também não faz automóvel, fica mais fácil "ensinar" qual a indústria implantar e quais os "caminhos" seguir . . . ensina a Bíblia dos perigos que correm os Cegos, Maquiavel ensina sobre o Poder. Capello deixou um recado: "Todos os países do mundo que detinham algum peso e expressão política e econômica, naquela época e ainda hoje, não tiram os seus olhos ostensivos e velados do que ocorria e ocorre aqui. Nosso país, assim como muitos outros são vistos como celeiros, jazidas, prestígio, etc" (Campello) Convém não esquecer: “Se você contar e sustentar uma Mentira (ou Meia Verdade) durante o tempo suficiente (e repeti-la, i-la, i-la, i-la, ad infinitum), as pessoas vão acreditar. A Mentira deve ser mantida (sustentada) nos momentos em que o Estado visa “proteger (esconder)”, das pessoas, conseqüências políticas, econômicas ou militares. Torna-se, assim, de vital importância, para o Estado*, usar todos os seus poderes para reprimir a dissidência, ou os dissidentes. - Porque a Verdade é o Inimigo mortal da Mentira e, por extensão, a Verdade é o Maior Inimigo do Estado*.” [* Aplica-se tanto a Estado, quanto a Governo(s) de Estado, estabelecido ou postulante(s) *]

Por roberto argento filho argento, em 19/04/2013 às 01:14

@argento: À "regra de ouro" da Propaganda, acrescente-se: Os Menos Inteligentes Convencem-se mais Rápido e mais Fácil

Por José Antônio da Conceição, em 19/04/2013 às 01:45

@argento Puxa! Que maneira educada e sutil de referir-se à maioria... ! Quero ser assim quando eu crescer! rs...