Opinião

Por Fábio Chateaubriand, em 29/04/2013 às 14:25  

O jagunço e a rainha

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“Gaúchos!… Abandonai definitivamente o trigo! Plantai capim, dai de comer a ovelhas, enchei vossas burras de dinheiro – tereis dinheiro mais que suficiente para importar carros, champanhe e mulheres francesas para o vosso deleite!…” - discursou Assis Chateaubriand - que parecia ter o diabo no couro - no encerramento da VI Festa Nacional do Trigo em Erechim.

O espanto foi generalizado. O presidente Juscelino Kubitschek não conseguia esconder seu rosto vermelho, as pessoas na platéia entreolhavam-se pálidas e o bispo Cláudio Colling, antes mesmo da cerimônia ser encerrada, levantou-se e saiu do auditório. Juscelino entendeu que estava mais que na hora de cumprir sua promessa política à Assis Chateaubriand. Nomeou-o para a embaixada do Brasil em Londres no começo de 1957 e realizou o sonho que Chateaubriand sustentava desde menino pobre de Umbuzeiro, do tempo em que a Inglaterra era rainha dos sete mares: ser embaixador junto à Corte de Saint James.

Na véspera da tão esperada audiência de entrega das credenciais, Chateaubriand conseguiu alardear suas extravagâncias às redações londrinas. Contou à BBC que seu tataravô canibal havia devorado um bispo português, o que fez com que uma multidão de fotógrafos e jornalistas se postasse à porta da residência do mais novo embaixador para registrar sua saída ao encontro de Sua Majestade, a Rainha Elizabeth II.

A audiência acabou durando o dobro dos oito minutos previstos pelo rígido protocolo real, o que causou perplexidade entre os funcionários da corte britânica e da embaixada brasileira. Mais perplexos ficaram quando ouviram risadas da discretíssima rainha. É que Chateaubriand fez uma declaração surpreendente:

- Juscelino me pediu que transmitisse uma mensagem à soberana do Império Britânico: se Vossa Majestade não agendar imediatamente uma viagem para conhecer de perto seus 50 milhões de súditos brasileiros, ele renuncia a seu mandato de presidente do Brasil.

Durante sua permanência de dois anos em Londres, Chateaubriand defendeu a ampliação dos mercados compradores de nossos produtos, intensificando laços comerciais e financeiros não só com a Inglaterra, mas também com outros países europeus. Aplicou o seu dinamismo à diplomacia concebida como instrumento de trocas econômicas, tornando-se um nome respeitado entre os principais órgãos governamentais ingleses.

De todas as fantásticas missões de sua vida, foi essa a de maior repercussão internacional. Deixou traços inapagáveis de simpatia e generosidade. Ele, o brasileiro mais fanático, o jagunço paraibano, o civilizador, o intelectual, realizou uma parábola memorável na vida brasileira. E com as palavras do jornalista Emil Farhat, “…que pena, Majestade, que ele não esteja mais aqui – para quebrar desinibidamente, todos os protocolos!”.




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