Opinião

Por xicograziano, em 16/04/2013 às 09:42  

Prêmio à sustentabilidade: quem paga a conta?

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Agricultura sustentável – esse tema motivou uma reunião, recentemente realizada em Berlim, na Alemanha, interessada em descobrir os caminhos futuros do campo. Parecer unânime: é preciso unificar a agenda da produção com a da preservação. Nada se concluiu, porém, sobre os custos dessa equação. Quem pagará a conta?
No gelo atípico deste início da primavera europeia, participaram do encontro cerca de 90 pessoas, oriundas de vários países. Durante dois dias especialistas em certificação, pesquisadores universitários, operadores de mercado, ambientalistas, agricultores e diretores de empresas, de diversos ramos da agroindústria e do comércio de alimentos, trocaram suas figurinhas carimbadas. Todos sacramentaram os conceitos básicos da sustentabilidade.
Ressaltar o óbvio, às vezes, é necessário. Por mais que alguns políticos, ou organizações civis, queiram assenhorear-se da problemática ecológica, tomando como seu privilégio decifrá-la, formou-se certo consenso na sociedade mundial em favor da sustentabilidade. Sente-se, com maior ou menor idealismo, que a pegada ecológica sobre os recursos naturais periga romper os limites do planeta. Vislumbram-se, em decorrência, modificações na produção material, no consumo e no comportamento da civilização humana. Ninguém defende a destruição ambiental.
Existe também boa concordância quanto à necessidade de mensurar a sustentabilidade. No início do movimento ambientalista, gritar era fundamental para fazer avançar a consciência sobre os problemas ecológicos. Predominavam os discursos inflamados. Agora, mais que falar, é preciso fazer. E a ação prática somente poderá ter seus resultados aquilatados por meio da metodologia científica. Medir para manejar.
Inúmeros protocolos se definem, mundo afora, estabelecendo critérios, mais ou menos rígidos e abrangentes, para verificar a sustentabilidade. Muitos deles, seus prós e contras, foram discutidos nessa reunião em Berlim. A empresa alemã Basf, promotora do evento, apresentou seu método, chamado AgBalance, pelo qual quantifica, com 69 indicadores distribuídos em 16 categorias, o “balanço energético” de uma empresa rural, incluindo todos os elos da cadeia produtiva. Muito interessante.
O enfoque do measure and management domina a agenda mundial da sustentabilidade. Presente na Alemanha, o representante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) enfatizou a importância das “métricas” ao falar sobre o Global Livestock Environmental (GLE), patrocinado pelo órgão da ONU. Susanne Stalder, por sua vez, seguiu na mesma linha com o Response Inducing Sustainability Evaluation (Rise), um protocolo seguido por 1.350 produtores rurais, localizados em 37 países. Caminho sem volta.
Comandado pela Stanford University (Califórnia), com a participação das importantes entidades ambientalistas WWF e TNC, o Natural Capital Project (NatCap) detalhou seu sistema integrado de avaliação de serviços ambientais. Grandes redes de varejo, como a norte-americana Walmart, e as multinacionais de alimentos Nestlé e PepsiCo deixaram clara a força da mudança que chega pelo lado dos consumidores. Rigorosos critérios, como os do Sustentability Consortium, começam a impor-se aos fornecedores de matérias-primas, especialmente alimentos.
Fica claro que os requisitos da produção sustentável exercem, progressivamente, forte pressão sobre os agricultores. E aqui reside a grande questão. A modificação tecnológica nas práticas agrícolas, tornando-as mais amigáveis da natureza, nem sempre operam a favor da rentabilidade dos negócios rurais. Os processos sustentáveis geram, muitas vezes, custos que comprometem a sobrevivência econômica do produtor rural. São os trade-offs.
Esse viés, o da economia, normalmente tem sido minimizado nas discussões sobre o desenvolvimento sustentável. Carrega-se no ecologicamente correto, destaca-se o socialmente justo, mas se esquece do economicamente viável, deformando o famoso tripé da sustentabilidade. Por isso os agricultores começam, eles também, a definir seus protocolos de conduta. Richard Wilkins, presidente da poderosa American Soybean Association (ASA), que representa 275 mil produtores norte-americanos, com 30 milhões de hectares de cultivo, deixou claro em Berlim que eles não aceitam os ditames que lhes querem impor. Articulada com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a ASA está definindo um protocolo próprio, no qual o requisito da produção sustentável mantenha, e não roube, a terra herdada dos antepassados.
No Brasil, ninguém melhor que a Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja) se dedica ao tema. Sua proposta Soja Plus segue a linha da produção sustentável, com respeito às leis trabalhistas e ao Código Florestal. Presente em Berlim, seu representante questionou: estariam os mercados consumidores, na Europa ou alhures, dispostos a pagar um “prêmio” à sustentabilidade? Não, responderam.
Sinuca de bico. Todos defendem o desenvolvimento sustentável, mas cada qual o define, e o mensura, conforme lhe convém. Nesse jogo de interesses, estoura a corrente produtiva no elo mais fraco: os agricultores. Assim não dá. Na busca da sustentabilidade, as empresas, os consumidores ou os governos, em nome da sociedade, precisam auxiliar, e não sufocar os produtores rurais. Há uma agravante: as regras da sustentabilidade precisam levar em conta as dificuldades inerentes aos agricultores familiares dos países em desenvolvimento. Não funcionará na Ásia, nem na África ou no Brasil um protocolo refinado, elaborado pela elite dos países ricos.
Desenvolvimento sustentável exige parcerias, não se enfia na goela do agricultor. Senão, azeda a comida.




10 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por roberto argento filho argento, em 16/04/2013 às 15:46

Patrocínio BASF Ag - Agro BASF Brasil (Brazil), Badische Anilin und Soda Fabrik (Fábrica de Anilinas e Soda de Baden). No BraZil é proprietária da Suvinil, tintas. Entendi.

Por José Antônio da Conceição, em 16/04/2013 às 16:31

@argento É por isso que estão sumindo da internet as receitas de fabricar tinta caseira com pigmento de terra (preta, vermelha, marron, amarela etc.), cola branca ou grude feito com soda caústica?

Por augusto josé sá campello, em 16/04/2013 às 15:16

Boa tarde. É engraçado e trágico. A velha europa que depende da queima de MADEIRA como "combustível renovável", querendo ditar regras. A BASF (química e outros) a se meter na agropecuária dos outros, sabe-se lá na defesa preventiva de que interesses. Plantadores de soja e milho dos USA, com solo, clima e infraesrutura querendo o quê? E nós aqui, fazendo Leis e Códigos como se o país fosse uma coisa igual e uniforme de ponta a ponta. Sustenta...o quê? me perguntou um agricultor familiar no Vale do Cuiabá, perto de Petrópolis RJ. Enquanto preparava tonel de nicotina - fumo de rolo em infusão por dias. E ele vende a alface dele como orgânica. Você fma um cigarro a cada meia dúzia de folhas. Ajscampello

Por José Antônio da Conceição, em 16/04/2013 às 16:26

@ajcampello Campello, me desculpe! A nicotina faz mal ao organismo humano quando penetra pelo sistema respiratório. Penetrando direto na corrente sanguínia (pela pele) apenas seu efeito no cérebro é sentido e isso é utilizado como tratamento contra o tabagismo. Pela boca (sistema digestivo) é igualzinho veneno de cobra... pode ser ingerida à vontade (desde que não existam feridas na boca ou úlceras no restante do caminho, até a porta de saída...

Por augusto josé sá campello, em 16/04/2013 às 21:20

@joseantonio400 Oi José Antonio. Melhor assim. Mas quem aplica, da maneira que aplicam, deve absorver uma barbaridade. Boa informação, obrigado. Ajscampello

Por Guilherme Gomes de Souza, em 16/04/2013 às 12:10

Todo mundo quer proteger meio ambiente no quintal do vizinho e não consegue enxergar o seu próprio quintal.

Por Max Lopez, em 16/04/2013 às 11:34

Típica notícia me engana que eu gosto.... Essa Dilma é cara de pau, não está nem aí que a verdade vêm a tona... esperem mais algumas semanas e o povo vai ver se a inflação está controlada ou não. Porque será que político é tão mentiroso? No congresso deveriam colocar uma nova lei, obrigando os políticos a andarem 24h com um detector de mentiras acoplado ao corpo, só assim o povo ignorante veria os monstros que colocam no poder.

Por José Antônio da Conceição, em 16/04/2013 às 11:19

Ninguém defende a destruição ambiental ? (última frase do terceiro parágrafo do texto) Mas o agronegócio a pratica, em nome de garantir a produção do alimento para a população mundial. Mas a parte que mataria a fome de milhares na África subsaariana por exemplo, é colocada na lata do lixo ocidental capitalista ou apodrece dentro dos armazéns e depósitos dos supermercados.

Por Obi Ser Vando, em 16/04/2013 às 11:16

<div>❝ Mas por que deveriam trabalhar para ter um mínimo de dignidade? Não há o suficiente para todos? Por que "trabalhar para isso" deveria ter algo que ver com tudo?</div><div><br></div><div>A dignidade humana básica não é o direito inato de todos? Não deveria ser?</div><div><br></div><div>Se alguém deseja mais do que os níveis mínimos - mais comida, abrigos maiores, roupas melhores para o corpo - pode tentar atingir esses objetivos. Mas deveria ser preciso lutar para sobreviver - em um planeta em que há mais do que o suficiente para todos?</div><div><br></div><div>Essa é a questão principal enfrentado pela humanidade.</div><div><br></div><div>O desafio não é tornar todos iguais, mas dar a todos pelo menos a garantia da sobrevivência básica com dignidade, para que todos possam ter a chance de escolher o que mais desejam. ❞</div><div><br></div><div><a href="http://www.google.com.br/books?id=yPXuDqaBtAEC&amp;pg=PA213">http://www.google.com.br/books?id=yPXuDqaBtAEC&amp;pg=PA213</a><br></div>

Por Elton Luis Gouvêa, em 16/04/2013 às 10:31

Concordo em parte. Para saber a resposta para essa pergunta, pelo menos no caso do Brasil, é importante saber quanto custa a SECA DO NORDESTE. Quanto custa as alterações climáticas? Quanto custa o tratamento de doenças pulmonares? Quanto custa o tratamento de doenças provocadas pelos agrotóxicos, isso se o Brasil tivesse tecnologia para identificá-las..... O Governo Federal nunca deu verdadeiro incentivo à produção de biodiesel e ENFIARAM a Petrobrás no meio da distribuição de Biocombustíveis só para bagunçar todo o setor, e o resultado já apareceu, as usinas de álcool com problemas financeiros e as de biodiesel apenas "vegetam". Isso sem consider a BURROcracia da Receita Federal. Carros elétricos, que se não estou enganado tem cerca de 70 emplacados no Brasil contra mais de 700 mil somente na Europa, não tem um único incentivo do governo federal, inclusive muito pelo contrário, graças ao ridículo sistema tributário brasileiro, acaba custando muito mais caro do que os carros movidos a combustíveis fósseis. Energia solar residencial em larga escala para venda dos excedentes às geradoras, é coisa de utopia no Brasil. Então, eu sempre chego à mesma conclusão: O GRANDE PROBLEMA DO BRASIL, é que o Governo Federal se diz capitalista, mas só toma atitudes de Governos comunistas da década de 1920............