Brasil

Por Fernando Henrique Cardoso, em 07/04/2013 às 20:20  

Razão e bom senso

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Apesar de parecer difícil guardar otimismo e manter esperanças diante do quadro atual de crise financeira e desatinos políticos, sempre se há de tentar construir um futuro melhor.

Descartes dizia que o bom senso era a coisa mais bem distribuída entre as pessoas. Em sua época, bom senso equivalia à razão. Na linguagem atual corresponderia a dizer que o coeficiente de inteligência (QI) se distribui entre todas as pessoas seguindo uma curva que se mantém inalterada no tempo, geração após geração. Será? É possível e mesmo provável. Mas bom senso implica também em inteligência emocional e na prudência ao tomar decisões. Não basta ser inteligente, é preciso ser razoável e prudente para evitar que as paixões se sobreponham à razão. É preciso ter juízo.

Ora, no mundo em que vivemos, pelo menos neste momento, parece grande o risco de ações impulsivas comprometerem o que é razoável. Quando ainda se podia crer que havia uma “lógica econômica” para justificar ações de força – por exemplo, na época do colonial-imperialismo — a repulsa ao inaceitável (a subordinação de povos à acumulação de riquezas) vinha seguida da explicação “lógica” do porquê das ações: o objetivo seria acumular riquezas e expandir o capitalismo. Mas e agora, quando a Coreia do Norte bravateia (e quem sabe o que fará) que pode arrasar o Sul e mesmo, atingir a costa Oeste dos Estados Unidos, qual é a lógica? E que dizer do Dr. Bashar Assad, que fechou sua clínica médica em Londres para substituir o pai no poder, e bombardeia seus conterrâneos há dois anos?

Fossem só estes os exemplos, mas não. Na pequena Chipre, cujo sistema bancário se tornou abrigo para capitais de procedência discutível, quando não claramente resultantes da corrupção e da evasão fiscal, vê-se um governo que, sem mais essa nem aquela, temeroso da pressão dos controladores financeiros da União Europeia, não tem ideia melhor do que expropriar os depositantes fossem ou não proprietários de capitais de origem discutível. Embora menos flagrantemente absurdo, o mau manejo financeiro e fiscal na União Europeia não está levando os povos ao desespero, tanta a injustiça de fazer com que quem não tem culpa pague pelo desatino de governos e financistas?

Ainda bem que nem tudo é desatino. Obama ao tomar posse de seu primeiro mandato disse que os Estados Unidos deveriam investir mais em ciência e tecnologia e preparar uma revolução produtiva baseada na energia limpa, juntando conhecimento e inovação com a possibilidade de a economia crescer sem destruir o meio ambiente. Esta semana renovou a crença e parece que seu país está saindo da crise iniciada em 2008 fazendo o que era necessário: abrindo novas áreas de investimento, alterando a geopolítica da energia e, quem sabe, deixando para trás os tremendos erros que levaram à explosão dos mercados financeiros.com. Será? Torçamos para que dessa vez prevaleça não só a razão cartesiana, mas o bom sentido comum e que se entenda que mercados sem regulação levam à irracionalidade.

Quanto a nós brasileiros parece que tampouco aprendemos muito com equívocos voluntaristas do passado. Somos reincidentes. Juntamos aos impulsos movidos por boa vontade, certa grandiosidade que não corresponde à realidade. Ao desejar sair da ameaça de baixo crescimento econômico a todo custo, vão sendo anunciados a cada dia novos planos e programas. Entretanto, só saem do papel morosamente e, muitas vezes, nem isso. Por quê?

Talvez porque acreditemos demais em grandes planos salvadores e menos no método, na rotina, na persistência e na inovação para acelerar o caminho. O governo, por exemplo, percebeu que o futuro depende do conhecimento e que existe um quase apagão de gente qualificada para o país encarar o futuro com maior otimismo. Logo, havia que propor a “grande solução”. Em vez de termos minguados 8.500 bolsistas no exterior passaríamos logo a 100 mil em quatro anos! Resultado: uma profusão de bolsas, um menoscabo da capacidade universitária já instalada e o envio ao exterior de muitos que sequer conhecem bem a língua do país onde vão estudar.

Do mesmo modo, ao se descobrir que havia óleo na camada do pré-sal largamos o etanol, esquecemos que os poços se extinguem, não investimos suficientemente nas áreas fora do pré-sal e desdenhamos o que de novo pode ter havido no mundo, como as inovações na extração do óleo e do gás do xisto como fizeram os americanos. Claro que ainda há tempo para recuperar o tempo perdido e retomar a esperança. Mas, se em vez de cantar loas ao que ainda não é palpável e de dedicar tanto tempo à briga pelos futuros royalties do petróleo, tivéssemos, sem muito bumbo, discutido metodicamente as melhores alternativas energéticas, inclusive as do petróleo, e tivéssemos apoiado mais a pesquisa e a inovação, provavelmente sentiríamos menos angústia por oportunidades perdidas.

O comentário vale para toda a infraestrutura econômica. Ah, se tivéssemos preparado leilões bem feitos para as concorrências nas estradas, nos portos, nos aeroportos e assim por diante, poderíamos ter evitado o desperdício de parte “da maior safra de grãos da história” pelas péssimas condições de transporte e embarque dos produtos.

Para remediar, propõem-se sempre mais projetos grandiosos e tanto o governo como seus arautos se perdem em discursos grandiloquentes. Não é isso o que ocorre também com as medidas para enfrentar as ameaças de uma ainda mais alta inflação? Imediatismo e atropelo na concessão de subsídios, isenções e favores substituem a pachorrenta persistência em uma linha de conduta coerente que, menos espalhafatosamente, possa levar o país a dias melhores.

Estes, entretanto, são possíveis. O xis da questão é simples de ser formulado, difícil de ser executado: como passar da quantidade para a qualidade, do palavrório para uma gestão prática; como em vez de animar uma sociedade de espetáculos (nunca na história…), construir uma sociedade decente, na qual a palavra corresponda a fatos e não a piruetas virtuais. Continuo a crer que é possível. Mas é preciso mudar de guarda. Esperemos 2014.

 




13 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por ivonete pereira, em 11/04/2013 às 01:54

fernando, você sabe tudo, razão e bom senso é tudo que os brasileiros precisa

Por Francesco Coutinho, em 09/04/2013 às 20:20

Eu sou da época do lançamento do plano real, era garoto ainda, mas me recordo claramente da inflação daqueles dias que atormentava o pão e o leite de todas as manhãs, e com as altas de preços ao longo do dia de muitos produtos básicos. Quem não se lembra das remarcações de preços frequentes e diárias nos supermercados, sem falar do valor de nossa moeda? Nos tele jornais a noite, só se falava da frequente alta de preços e das tentativas de conter a crise inflacionária da época. Conquistamos a estabilidade através do plano real de FHC e através da manutenção do mesmo ao longo de 8 anos de governo de Fernando Henrique Cardoso, e agora vemos novamente esta estabilidade econômica ameaçada com o empolgado otimismo econômico com o qual o atual governo tanto evidencia. Como já dito no passado, não podemos contar com o plano Real 2, ou será que a ideia é mesmo voltar ao Cruzeiro? e retroceder nos avanços conquistados até então. O povo não deve se iludir com o que ocorre, e nem se esquecer das dificuldades já passadas para chegarmos até aqui. Não devemos abrir mãos de conquistas tão importantes e voltarmos a estaca zero. As políticas atuais geraram bons frutos, é verdade, mas, para a próxima eleição presidencial, já é hora de uma renovação banhada por outro olhar político neste país.

Por Bruno Marques, em 08/04/2013 às 22:11

O mais triste é perceber que nós, brasileiros, mal conseguimos olhar à frente... Projetar um futuro. Vejo que todos estamos presos a justificar a situação de merda em que nos encontramos com base nas ações daqueles que erraram no passado e dos que continuam errando no presente. Mas... E daí? Não quero dizer com isso que devemos perder a capacidade de indignar-se! Jamais! Mas palavras bonitas em um púlpito - ou no sofá de casa - serão suficientes? É essa a parte que cabe à sociedade em um Estado democrático de direito? Concordo com o FHC quando ele fala em apagão de "gente qualificada"! Mas me atrevo a ampliar um pouco o seu entendimento: não se trata apenas de qualificação técnica e profissional. Como pensar em tecno ou méritocracia num país onde prevalece o loteamento de cargos e funções públicas com intenções claramente políticas e eleitorais? Onde se "vende" um ministério por 5 minutos diários de TV no período eleitoral? Sofremos sim um apagão generalizado: apagão de novas lideranças sociais e políticas verdadeiramente comprometidas com a coisa pública, com a ética; apagão da capacidade de mobilização da sociedade civil; apagão da esperança, em si. Quando penso em 2014 me dá desespero! Quais são nossas verdadeiras opções? Quem, de fato, representa o novo, a possibilidade efetiva de mudança? Não sou pessimista, mas quando vejo se crescer um movimento pela anulação dos votos, ou ainda, quando vejo a tendência a eleger candidatos por "votos de protesto", concluo que estamos chegando ao fundo do poço. E o pior: nós mesmos estamos fechando a tampa.

Por Bruno Marques, em 08/04/2013 às 22:13

Ou melhor, nossa omissão permite que os interessados fechem a tampa!

Por José Antônio da Conceição, em 08/04/2013 às 11:57

"...o povo está perdendo sua renda cada mes que passa..." disse o Acir Carlos Ochove... "...o objetivo seria acumular riquezas e expandir o capitalismo..." disse FHC referindo-se a uma época passada! Basta INSERIR as duas afirmações no contexto ATUAL e muita coisa fica explicada! Fica claro e cristalino como água da fonte, lá no pé da montanha! "Só não enxerga quem não quer ver"

Por acir carlos ochove, em 08/04/2013 às 09:10

O artigo trata de uma realidade inquestionavel. Parabens ao nosso expresidente. Lembramos de ter lido em algum lugar que as gerações futuras pagariam caro pelos resultados do atual governo. A destruição dos valores morais, eticos, o desrespeito aos direitos constitucionais , o estimulo a desordem institucional, foram as maiores perdas do povo brasileiro na ultima decada. A explosão da violencia, assassinatos, assaltos, roubos, furtos,corrupção, com grande participação de menores de idade, provam aquela afirmação. A a utilização demagogica dos direitos humanos, resultado de estimulos equivocados, liberando criminosos, provoca batalha perdida para os orgãos de segurança publica. Enquanto isso assistimos a campanha para eleições presidenciais com muitas promessas. O tema não pode passar despercebido sob pena de tornar insuportavel a vida no nosso Pais. E já foi dito " FAREMOS O DIABO NESSAS ELEIÇOES", e mais essa " O BICHO VAI PEGAR" , mas quem paga a conta é sempre que está trabalhando honestamente, sua familia sofrendo as consequencias da falta de escolas, hospitais, segurança publica, estradas,portos, insegurança juridica, intoxicação com publicidade enganosa paga com recursos publicos. Não é possivel continuar assitindo a inflação retornar; o povo está perdendo sua renda cada mes que passa.

Por Luiz Felipe, em 08/04/2013 às 10:27

@acir Êta discursinho mais mais manjado do que moeda de R$ 1,00, hein ? Sabe de quem é a culpa da zorra geral que aí está e sempre esteve ? Examente da famigerada ditadura militar golpista, bandida, cuja avalanche de crimes e crimonosos ainda estão por aí, impunemente ( graças a Tancredo Neves e sua corja apaixonada pelo poder donde só querem sair mortos de velhos), na cara dura, com o mesmo discursinho cínico e canalha dos tempos de antanho, que até hoje, não obstante mais de 20 anos de interrupção, em tese, do estado ditatorial anti-constitucional, golpista e criminoso, os fracóides não tiveram coragem de chamar os criminosos golpistas à responsabilidade histórica e nem punir exemplarmente os crápulas estrupradores de uma Constituição Democrática de um Estado de Direito. A tal anistia, uma montanha que pariu apenas ratos continuistas da mesmice ao invés de parir um Novo Brasil de Verdade, é a mãe da impunidade e da balbúrdia que aí está e sempre esteve. Anistia, de verdade, tinha que ser uma moeda de troca da velha balbúrdia ( a moda calem-se para sempre golpistas criminosos) por um Estado, uma Nação, realmente nova, um Novo modello de Estado, de Nação, e de Política-partidária-eleitoral, como propõe o HoMeM do Mapa da Mina do bem comum do povo brasileiro, e não a troca, ou barganha, de um Estado Democrático de Direito interrompido, liberdades, torturas, execuções e vidas humanas interrompidas nada

Por Luiz Felipe, em 08/04/2013 às 10:34

@luisfelipe digo, vidas humanas interrompidas por nada, ou apenas trocadas por empregos e boquinhas políticas no poder, fato esse que constitui um ultraje à memória de todos aqueles que empenharam as suas próprias vidas pelo Novo Brasil de Verdade.

Por Papa Tango, em 07/04/2013 às 23:02

É um Ghost Writter do FHC, criançada! Não adianta perguntar nada para o Oráculo.

Por Luiz Felipe, em 07/04/2013 às 22:16

Que mal eu pergunte, será que existe razão e bom senso nesse mata-mata eleitoral travado entre o PSDB e PT (reféns e instrumentos abestalhados e prostituidos dos interesses dos astutos PMDB e DEM, entre outros), e vice-versa, pelo Poder, de forma frenética e doidivanas, à moda custe o que custar e quanto pior melhor ?

Por Luiz Felipe, em 07/04/2013 às 22:57

Razão, bom senso e, sobretudo, esperteza talvez até existam até demais nessa "intifada" partidária luso-tupiniquim, tendo em vista apenas um ideal fisiológico imediatista, porém dignidade, nobreza, deprendimento e abdicação em prol de um Projeto maior, de grande alcance econômico-social, solidário e nobre capaz de mudar de fato o " status quo " passam ao largo dessa corrida fisiológica maluca, aloprada, pelo poder aqui e agora. Todavia, pelo andar da carruagem, e tendo em vista as suas parcerias camaleônicas fisiológico-imediatistas vocês, talvez a última esperança da sociedade em termos de consciência política, que esperavamos capazes de se entenderem, irão acabar no ar, sem escada e com a broxa na mão, traídos e apeados do poder, a exemplo de seus antecessores que tb se valeram das mesmas parcerias e dos mesmos métodos. Depois do fato consumado, talvez vocês descubram que são legítimos irmãos, mas aí "Inês já será morta", e lhes restará apenas cantar o modão sertanejo, "Chico Mineiro".

Por milton valdameri, em 07/04/2013 às 20:58

As descobertas científicas indicam que a humanidade está ficando menos inteligente há milhares de anos, tendo como base a diminuição do tamanho do cérebro. Especula-se que o humanos primitivos utilizavam o cérebro de forma mais intensa e constante quando viviam sob situações de perigo também mais intensas e constantes. Conforme foram surgindo as moradias mais seguras e armas mais eficientes, o cérebro passou a ser menos exigido, por isso começou a diminuir de tamanho. Os idealismos que lutam por um estado que tudo provém, extemamente atuantes na socieade atual, sem dúvida contribuirão de forma avassaladora para uma diminuição mais acelerada na inteligência, portanto os riscos que a humanidade corre com esses idealismos é muito maior do que riscos econômicos, corre o risco de levar o ser humano para a condição de hominídeo.

Por Luiz Felipe, em 07/04/2013 às 22:12

@miltonv Aliás, o mata-mata eleitoral travado entre o PSDB e PT (reféns e instrumentos dos interesses dos astutos PMDB e DEM, entre outros), e vice-versa, pelo Poder, de forma frenética e doidivanas, à moda custe o que custar e quanto pior melhor, é um forte indicativo dessa tese, a nosso ver.