Opinião

Por Octávio Henrique, em 08/04/2013 às 13:31  

Reinaldo Azevedo e as criancinhas anti-Feliciano (Ou: Como dar com o martelo na cabeça de quem defende a ditadura da minoria)

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Houve protestos ontem no Rio e em São Paulo contra a permanência legal e democrática — se gostam ou não dele, aí é outra conversa — do deputado Marco Feliciano (PSC-SP) na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Na Cidade Maravilhosa, os organizadores do evento afirmaram que 1.500 manifestantes saíram às ruas. Não há outras estimativas. Na Cidade da Garoa, os promotores da passeata falaram em 4 mil, a CET em 500, e a Polícia Militar, que costuma ter números mais precisos porque tem de se preparar para garantir a segurança, em apenas 150. Essa gente está cutucando evangélico com vara curta.

Na hora em que eles decidirem botar o bloco na rua, aí então se vai saber o que é massa. Atenção! Eu não acho que a quantidade define quem está certo ou quem está errado. Apenas chamo a atenção para o fato de que aquele que promove um ato público está procurando demonstrar musculatura popular — ou bastaria fazer os protestos virtuais; estes, sim, rendem milhares de radicais do teclado. Ou postar uma foto nas redes sociais. Os evangélicos respondem pelas maiores manifestações públicas do país. Digamos que tenham ido mesmo 1.500 ao protesto do Rio… E se, por hipótese, os que querem que Feliciano fique na comissão reunirem, sei lá, 30 mil, 50 mil? Se a intolerância de uma maioria é fascismo, a de uma minoria é ditadura. Um evangélico chegou à presidência da comissão por mecanismos garantidos pela democracia e não pode ser deposto por métodos ditatoriais. É simples assim. Anima essas manifestações essa máxima que se vê nas fotos acima: “Não me representa” — com a variante “não nos representa”. Certo!

A frase não passa de uma tolice autoritária, típica de gente que não entende o que é o processo democrático e pretende vencer no berro, e um emblema desses tempos de minorais mimadas pela imprensa e pelos Poderes constituídos. É claro que Feliciano não representa esses gatos-pingados que vão às ruas ou os milhares de radicais do teclado. Os representantes dessa turma são outros — Jean Wyllys, por exemplo, que chegou à Câmara sobre uma montanha de 13 mil votos. Feliciano não os representa, é certo, mas tem a representação, em primeiríssimo lugar, de 212 mil pessoas que votaram nele — voto a voto, vale por mais de 16 Jeans Wyllys, ora essa!

Então, que se diga de saída: Feliciano não representa os que protestam, mas representa outros grupos, que também podem decidir se manifestar e ir às ruas, não é mesmo? Mas essa é ainda uma visão pobre, reduzida, mesquinha mesmo, do processo democrático.

Wyllys não representa apenas os seus 13 mil eleitores — em 2014, ele lava a égua porque raros políticos tiveram tanta propaganda gratuita nos últimos tempos —, já que sua militância expressa pensamentos e anseios de milhares, quem sabe de alguns poucos milhões, Feliciano também não vale só por seus 212 mil votos. Ele é a expressão de muito mais gente — e estes não são poucos milhões; são muitos.

Assim, quando um tolinho — lamento ter de escrever assim — levanta o cartaz “não me representa/não nos representa”, está supondo que o regime democrático deve servir apenas aos propósitos do seu umbigo; existe apenas para satisfazer as suas vontades; compraz-se em cumprir a sua pauta. Ou é assim, ou eles decidem ir lá na Câmara e pegar o parlamentar pelo colarinho; ou é assim, ou eles resolvem que é chegada a hora de cassar o mandato do eleito — “afinal, ele não nos representa”.

Pergunta até tola de tão óbvia: se os evangélicos saírem em marcha bradando cartazes de Jean Wyllys com a frase “não nos representa”, isso seria expressão de homofobia? “Ah, só porque ele é gay…” E Feliciano? Só porque é evangélico??? “Não, Reinaldo! É porque ele é homofóbico e racista.” Lamento de novo! As duas acusações são improcedentes. No fim das contas, E É ESTE O JOGO QUE SE PRATICA, EMBORA NÃO SE QUEIRA DIZER O NOME, essa celeuma toda existe porque ele é evangélico e tem uma pauta que não coincide com as dos militantes. Sim, ele não os representa, mas representa outros brasileiros, em número estupidamente maior.

“Então ficamos com o critério da maioria e pronto?” Não! Ficamos com o critério da razoabilidade e da convivência entre os diferentes.

A outra dimensão
Tratei até agora de duas dimensões da representação: a da representação dos eleitores reais e a da representação do eleitorado potencial. Há uma terceira: a da representação de um dos Poderes da República — no caso, o mais importante deles, aquele em que a democracia tem de ser mais viva.

Feliciano é um deputado do Parlamento brasileiro. Tem prerrogativas. A menos que cometa um dos crimes que resultam em cassação de mandato — e isso não está configurado —, seu mandato é intocável! Apelando à metáfora religiosa (só metáfora, viram, policiais de consciências?!), sua investidura é sagrada no que concerne ao estado de direito. Tentar diminuí-la ou agredi-la significa desconsiderar os fundamentos da própria democracia.

“Ah, mas a gente não gosta dele!” Paciência! Dado o jogo democrático, terão de engoli-lo — caso ele se mostre mesmo disposto a resistir ao maior massacre de que tenho memória na imprensa para quem não cometeu crime nennhum. Há muito o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), presidente da Câmara, deveria ter posto um fim àquela pantomima. Caso se forme um grupo de 50 que decida impedir as sessões da Câmara exigindo que Alves responda politicamente pelos crimes de que é acusado, ele faz o quê?
a) Renuncia ao posto?;
b) estimula a baderna;
c) chama a Polícia Legislativa

Alguém tem alguma dúvida sobre qual alternativa ele escolheria? Ora… Alves decidiu aderir à pauta da imprensa e das celebridades para ver se os jornalistas esquecem, como esqueceram, a sua biografia. Está usando o caso Feliciano como lavanderia da própria reputação. É só mais uma feiura que se junta a essa comédia de erros.

Tolice
Vamos parar com essa tolice de “não me representa”. O Parlamento, queridas minorias mimadas e celebridades, não existe com o fito exclusivo de representá-las. Também representa os outros, muito especialmente as… maiorias. A questão é saber se se vai buscar o diálogo ou o confronto.

Feliciano só é presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara porque os petistas deram de ombros pra ela, não a quiseram. O PSC pleiteava outra, mas os “cúpidos do bem” — desesperados para abarcar áreas mais influentes — não quiseram negociar. Foi o que restou aos aliados. Antes mesmo que Feliciano dissesse um “a”, começou a gritaria nas redes sociais, com Jean Wyllys à frente e a adesão quase unânime da imprensa ao linchamento.

Li no Globo, acho, que Wyllys admitiu que Feliciano ocupa a presidência da comissão de maneira legal — e também legítima, acrescento; ou se demonstre o contrário. É mesmo, é? Se é assim, por que este senhor não toma seu assento e faz os debates necessários no âmbito da comissão? Venham cá: os descontentes com Dilma podem tentar inviabilizar seu trabalho no berro? Não! Quem o fizer vai em cana.

O que quer dizer “não me representa”? Que o sujeito discorda das ideias do outro? E daí? Nesse particular, a Dilma não me representa. O Lula nunca me representou. Mas jamais propus que fossem depostos por isso (o Apedeuta deveria ter caído, mas por causa do mensalão de Genoino e João Paulo, os dois condenados que estão na CCJ). A governanta não ME representa, já que não votei nela, mas representa um Poder. Igualzinho ao Feliciano! A ignorância supostamente ilustrada do que seja democracia, especialmente das celebridades, é de lascar! Vão se instruir um pouquinho! Tentem saber como funciona o regime democrático.

Ah, sim, quase me esqueço: o Feliciano também não me representa. Como sou um democrata, acho que ele tem de cumprir seu mandato. É possível discordar de alguém sem aderir a uma campanha de linchamento. É possível fazer-se ouvir no Congresso sem agredir os fundamentos da democracia.

A propósito: as celebridades que estão emprestando a sua fama à causa representam quem mesmo?
Texto publicado originalmente às 5h38
Por Reinaldo Azevedo

Comentando brevemente, este é um texto em que Reinaldo Azevedo desnuda, mais uma vez, a hipocrisia dos ditos defensores da democracia que só querem, na verdade, defender as próprias causas. O texto é tão efetivo que nem pegar o Martelo de Nietzsche e dar na cabeça desses igualitaristas de fachada seria tão efetivo.

Link do texto completo (com algumas imagens de gente que não é representada pelo Pr.): http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/a-expressao-nao-me-representa-e-uma-tolice-autoritaria-de-vies-ditatorial-e-um-emblema-da-era-da-ignorancia-mimada-e-saliente-ou-dilma-nao-me-representa-e-dai/#.UWLEMxjy3qM.facebook




5 opiniões publicadas

O que você tem a dizer?

Por mario jota, em 08/04/2013 às 14:07

Não gosto de textos longos, cansa. Mas, este eu lí e, realmente acho que estamos na era da festança idiota. Idiota porque temos pendências tão importantes a discutir e a resolver que esse grupinho de baderneiros não percebem que são massas de manobra dos maiores safados de Brasília. Quanta perda de tempo e energia.

Por Octávio Henrique, em 20/04/2013 às 20:51

@mario130852 Concordo 100%

Por Obi Ser Vando, em 08/04/2013 às 13:49

A sua é uma raça muito primitiva, em que a força é tudo que vocês compreendem. Não existe uma verdadeira lei em seu planeta. A Verdadeira Lei é a Lei Natural – que não pode e nem precisa ser explicada ou ensinada. É observável. A verdadeira lei é aquela pela qual as pessoas aceitam voluntariamente ser governadas, porque são governadas por ela naturalmente. Por isso, sua aceitação não é tanto uma concordância, mas sim um reconhecimento mútuo de que é Assim. Essas leis não precisam ser impostas. Já o foram, por meio do simples expediente da conseqüência inegável. Deixe-Me dar-lhe um exemplo. Os seres muito evoluídos não batem nas cabeças uns dos outros com um martelo, porque sabem que isso dói. Não o fazem com ninguém, pelo mesmo motivo. Os seres evoluídos observaram que se você batesse em alguém com um martelo, essa pessoa ficaria machucada. Se continuasse a fazê-lo, ficaria zangada. Se continuasse a deixá-la irritada, ela encontraria um martelo e acabaria revidando. Portanto, os seres evoluídos sabem que se você bater em alguém com um martelo, estará batendo em si mesmo com ele. Não faz diferença se tem mais martelos, ou um martelo grande. Cedo ou tarde será machucado. Esse resultado é observável. Os seres não evoluídos – primitivos – observam a mesma coisa. Simplesmente não se importam com isso. Os seres evoluídos não querem entrar no jogo de Quem Tiver o Maior Martelo Vence. Os seres primitivos não jogam outra coisa. Acontece que esse é um jogo em grande parte masculino. Na sua espécie, muito poucas mulheres querem jogar Martelos Que Machucam. Elas jogam um novo jogo. Dizem: “Se eu tivesse um martelo, tentaria produzir justiça, liberdade e amor entre meus irmãos e minhas irmãs, em toda esta terra.” ______ extrato de CONVERSANDO COM DEUS, Volume 2, por NEALE DONALD WALSCH

Por milton valdameri, em 08/04/2013 às 13:43

Eu gostaria de saber qual será a reação dos empunhadores de cartazes, quando perceberem, se perceberem, que o cartaz diz que são idiotas, que não sabem o que é democracia. Quem será que representa esse bando de tontos, o José Genoino, o João Paulo Cunha, O Renan Calheiros, o Sarney?

Por Octávio Henrique, em 08/04/2013 às 20:25

@miltonv Milton, esses aí ainda estão muito "alto nível" para os anti-Feliciano.