Cultura

Por , em 26/04/2013 às 16:32  

Slajov Zizek e o Marxismo que saiu do armário

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Slajov Zizek é um marxista lacaniano e nietzschiano. Ele desconstroi o discurso de ética revolucionária de Lenin e Trotsky, que foi o que guiou os regimes comunistas do século XX, para resgatar, via Lacan, o senso de “ética individual” do agente revolucionário.

Enquanto Lenin e Trotsky criticavam a moral burguesa, e Nietzsche criticava a moral cristã, Zizek funde ambas as críticas em uma só: é preciso descontruir o superego coletivo que tenta conter os atos do agente revolucionário, e fazer com que o próprio agente perceba sua ação como legítima, a partir do conceito nietzschiano de “moral do senhor”. E é nesse ponto que Zizek usa Lacan para desconstruir o superego da burguesia cristã e resgatar no agente revolucionário a sua consciência individual de certo ou errado.

Embora Trotsky também tenha dito que matar e roubar são válidos pela revolução, ele submete a legitimidade desses atos de matar e roubar ao consenso revolucionário. Já Zizek submete essa legitimação do ato revolucionário à consciência (ou ego) do próprio agente. Ou seja: se eu sou revolucionário, e meus companheiros discordam de mim, eu posso matá-los todos, e eu estarei certo, se eu for o mais forte – porque o melhor para a revolução é a sobrevivência do mais forte. Zizek não vê problema de existirem 20 microgrupos revolucionários disputando a liderança e a definição do rumo para a revolução, desde que vença o mais forte.

Daí se pode aduzir que o ponto fraco do stalinismo foi ter privilegiado muitos burocratas puxa-sacos (que concordavam com o discurso dominante no regime, mas eram fracos de ação), e matado revolucionários talentosos. Mas um adepto de Zizek não lamentaria nem mesmo isso: se morreram, foi porque foram mais fracos dentro das regras que existiam no stalinismo (o puxa-saquismo), e não foram fortes para modificá-las.

Isso é Nietzsche! Isso é Zaratustra!

Mas porque Slajov Zizek é o marxismo que saiu do armário? Porque os marxistas de hoje, por contraditório que pareça, são hegelianos. Através de um método cognitivo que limita a percepção da realidade a uma estrutura social dividida em classes, os marxistas deixam passar, tal como um aspirador de pó, as sutilezas das relações intersubjetivas, de um modo tal que o mundo deles se torna apenas bicromático (dominantes x dominados).

A falsa ideia de um consenso revolucionário faz com que o marxismo (segundo os marxistas, e não segundo Marx) se torne o ópio da esquerda “crítica”. Eles canalizam a indignação pessoal que surge a partir da constatação da existência de desigualdades entre indivíduos e entre nações (indignação essa que existe em qualquer pessoa que tenha algum sentimento mínimo de empatia pelo próximo), em um projeto de engenharia social que além de simplista (pois bicromático), é totalmente apartado dos seus supostos objetivos.

O marxismo dos marxistas (o marxismo que não é de Marx, mas dos seus hermeneutas póstumos) conquista novos adeptos com o discurso do combate às desigualdades sociais, mas seus atos e bandeiras não convergem no sentido de diminuir essas desigualdades (como defender a bomba atômica no Irã, ou o uso de escudos humanos pelo Hamas na Palestina, ou a inflação com controle da imprensa na Venezuela, ou o controle do Judiciário na Argentina, etc).

E Slajov Zizek rompe com esse discurso pequeno-burguês que o marxismo pós-Marx adotou para poder conquistar a elite de coração mole. Ele radicaliza a ideia de revolução, para afastar do ideal revolucionário o discurso da solidariedade (que encanta os ouvidos da pequena burguesia), e fomentar o conflito até que prevaleça a hegemonia do revolucionário pela sua própria capacidade de se fazer prevalecer.

Ele escancara o objetivo único de Marx e do verdadeiro marxismo (que foi colocado em prática em um primeiro momento por Stalin, à frente da URSS): o poder e a vitória aos revolucionários. Nesse sentido, Zizek retoma os paradigmas trotskystas, mas blinda essa moral revolucionária da fraqueza de se mirar o consenso (via dialética), permitindo assim que um único revolucionário imponha a sua ideia pela força. É como se a desconstrução dos significados, que Zizek puxou de Lacan, servisse não apenas para descontruir a moral cristã ou burguesa, mas também a moral revolucionária dominante (que pode se acomodar em um puxa-saquismo burocrático, que foi a morte da União Soviética).

Só há um problema com Zizek: se seu discurso suplantasse o marxismo hoje vigente nos círculos da esquerda (que é muito mais gramsciano e hegeliano do que propriamente marxista), afastaria desse mesmo esforço revolucionário a pequena burguesia que ainda cai no canto da sereia do marxismo combatente das desigualdades sociais. E isso, como sabemos, faria reduzir bastante os cerca de 15, 20% de cidadãos que, em um ambiente de democracia liberal como o que vivemos, ainda seguem os ditames dos partidos de esquerda de orientação marxista.

Zizek é o marxismo que saiu do armário. Mas pelos motivos acima expostos, ele é uma exceção. Os demais marxistas jamais sairão do armário.

Victor C. F. de Sousa, abril de 2013, Brasília-DF.




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