Opinião

Por , em 02/05/2013 às 02:56  

Mídia como bode expiatório

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Fonte: htforum.com

 

Tende-se a esquecer, nestes tempos, que o melhor meio de comunicação já inventado é a palavra

Qual é a minha porta? Está o leitor, ou a leitora, diante dos toaletes de um restaurante, um teatro ou hotel, e com freqüência experimentará um momento de vacilação. Não que tenha dúvida quanto ao próprio sexo. A dúvida é com relação àqueles sinais inscritos sobre cada uma das duas portas — que querem dizer? Olha-se bem. Procura-se decifrar seu significado profundo. Enfim, vem a iluminação: ah, sim, este é um boneco de calças. Sim, parece ser isso. E aquela silhueta, ali ao lado, parece ser uma boneca de saia. Então, esta é a minha porta, concluirá o leitor. E aquela é a minha, concluirá a leitora.

A humanidade demorou milhões de anos para inventar a linguagem escrita e vêm agora as portas dos toaletes e a desinventam. Por que não escrever “homens” e “mulheres”, reunião de letras que proporciona a segurança da clareza e do entendimento imediato? Não. Algumas portas exibem silhuetas de calças e saias. Outras, desenhos de cartolas, luvas, bolsas, gravatas, cachimbos e outros adereços de uso supostamente exclusivo de um sexo ou outro. Milhões de anos de progresso da humanidade, até a invenção da comunicação escrita, são jogados fora, à porta dos toaletes.

(…)

Fonte: “A televisão e a volta às cavernas.” Veja 25/06/97.

 

Roberto Pompeu de Toledo está redondamente enganado. Em primeiro lugar, a utilização de símbolos não é indireta, mas justamente o contrário. O símbolo de homens e mulheres para banheiros são praticamente universais. Se estivermos em um país anglo-saxão, provavelmente conseguiremos, devido à influência cultural, ler o que está escrito nas portas dos banheiros, mas e se estivermos na Índia ou Paquistão teremos a mesma facilidade com idiomas que não nos são familiares? Não sentiremos falta do símbolo, um ícone integrador? Linguagens comuns e de fácil acesso encurtam as distâncias entre os povos e as culturas. Claro que tudo depende das circunstâncias, pois em situações que requerem linguagem mais elaborada, porque o raciocínio exigido também o é (um tribunal, defesa de tese, comunicação jornalística, debate político etc.). Culpar o recurso tecnológico, como celulares e computadores é o caminho fácil e equivocado de quem não conseguiu estabelecer um nexo correto entre causa e efeito. Façamos um exercício mental… Imaginemos nossos alunos de escolas públicas utilizando recursos tecnológicos após um excelente curso de português e literatura, com integrações de currículo com outras matérias, das exatas às humanas. Será que depois de meses sendo educados como se deve, não fariam um uso mais rico de seus instrumentos tecnológicos? Será que não apreciariam programas educativos sobre natureza e história na TV? E mesmo nas programações mais banais, como filmes, desenhos ou novelas, eles saberiam contextualizar no tempo e espaço onde se desenvolvem as narrativas. Saberiam também melhor entender os noticiários confusos que mais parecem uma colcha de retalhos ensangüentada. Se hoje temos analfabetos funcionais com celulares nas mãos, antes tínhamos analfabetos completos sem escolas.

O autor se utilizou de um “raciocínio extremista”. Para dizer a verdade, ele foi bem reducionista em sua análise, pois com uma boa educação familiar, as crianças e jovens em geral não “substituirão seus pais” por programas televisivos. O que me surpreende é como se torna fácil criticar inovações sem compreendê-las… Não quero generalizar, mas acho que este tipo de crítica incorre em um erro comum, o de temer o novo. Se na TV há verdadeiros lixos culturais como o BBB, também há pérolas como documentários em certos canais ou mesmo programações mais leves com bom humor.

Lembro-me de quando eu era criança (e faz um bom tempo), quando ao cair da noite, as famílias colocavam cadeiras na rua para conversar. Aos poucos esta cena foi sendo substituída pelas luzes azuladas nas janelas da sala. Era a TV ligada em todos os lares e, aos poucos, a “falta de assunto” foi sendo substituída pela falta de contato humano. Mas, eu ainda sou um pouco otimista… Já li que o uso da internet faz cair o número de horas gasto com a TV em certos países. E o que se busca na internet senão o velho contato humano que perdemos? Talvez, com facilidades e inovações no transporte do futuro possamos novamente substituir o contato virtual pelo real ou, o que parece mais provável, mesclar os dois.




1 opinião publicada

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Por Ricardo Froes, em 02/05/2013 às 10:03

Bom artigo. Concordo com tudo que disse. O Roberto de vez em quando dá umas "surtadas" como a que um dia, em artigo na Veja, sugeriu a demolição daquela "horrenda estátua em cima do morro do Corcovado". Por pior que o Cristo Redentor seja como arte - e não é tão ruim assim, até porque ele é uma referência e não uma obra a ser julgada -, ele é simplesmente o símbolo do Rio de Janeiro. Coincidentemente, nesse artigo, ele volta ao problema dos símbolos - quem sabe ele não é muçulmano, a quem são proibidas as imagens? - esquecendo que a linguagem escrita começou pictórica ou simbólica, passando depois para os alfabetos silábicos até chegar aos não silábicos, os "abecedários", que também são derivados de escritas picturiformes. Se virarmos o A maiúsculo de cabeça para baixo, veremos a versão simplificada de um boi, com chifres e queixo afilado e aleph é boi em aramaico; Bet, significa casa, com que se parece; o fi (φ) e o detra (δ) gregos representam as características sexuais da mulher e do homem, respectivamente, e por aí afora. A escrita chinesa, por exemplo, além de pictórica é bem humorada - se bem que machista -, bem ao contrário do Roberto. Por exemplo: "homem" ou "pessoa" é representado por uma figura com duas pernas e o caractere para "mulher" é uma pessoa carregando alguma coisa; o caractere de "mulher" sob um "teto" é "paz"; já duas mulheres sob um teto significa briga e três "mulheres" sob um "portal" ou "porta" é "fofoca"! Ao negar a utilização de símbolos universais para representar qualquer coisa, em nome de uma suposta involução, Roberto está negando a própria origem das letras que ele quer ver estampadas nos banheiros. E mais: está negando uma simples tradução de para uma linguagem universal.