Opinião

Por , em 24/05/2013 às 22:42  

Afinal, o que querem os índios?

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Afinal, o que querem os índios?
Pesquisa recente realizada pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA), constatou que o que a maioria dos índios quer é saneamento básico, televisão e acesso a serviços públicos essenciais (saúde e educação). Na contramão do resultado da pesquisa, técnicos da FUNAI e militantes de ONGs de orientação marxista (aquelas que enxergam luta de classes até no sutiã da Gisele Bundchen) insistem na necessidade de isolamento dos índios, numa tentativa vã de reverter o processo de “aculturação” pelo qual passaram todos os povos indígenas do Brasil no últimos 500 anos (inclusive as tribos isoladas, e já explico porque).

Ocorre que a demonizada aculturação nada mais é do que fruto do fim da possibilidade de se levar uma vida nômade dentro da dinâmica tribal, ou seja, uma tribo migrando de uma localidade para outra, sempre que a sazonalidade das estações de chuva e seca assim exigirem. Os índios não mais dispõem de um vasto território de 9 milhões de quilômetros quadrados para percorrerem, guerreando entre si, e colhendo os frutos que Tupã milagrosamente providenciou que ali estivessem.

Quem idealiza o índio como um povo geneticamente passivo e adepto do desenvolvimento sustentável dos ecologistas pós anos-70, ou está se auto-enganando, ou está usando da demagogia mais rasteira para enganar terceiros – no caso, a classe média alienada e bem-intencionada das grandes cidades.

Com a limitação territorial, os índios tiveram que interagir com o homem branco, e naturalmente absorver deste elementos inerentes à nossa cultura: a ambição, a abstração do valor da força de trabalho a partir da unidade monetária, o sentimento de propriedade privada, em detrimento do coletivo. Enfim, tudo o que nos levou ao desenvolvimento das ondas de rádio (e sua bisneta, a internet) e da penicilina (e seu tataraneto, o coquetel para Aids). Se hoje vivemos até os 90 anos (com quase todos os dentes na boca), e eliminamos nossos dejetos fisiológicos através de uma rede de encanamentos mantida por um ente abstrato chamado “Estado” (através de uma ferramenta abstrata chamada “tributo”) é porque existiu em nossa história ocidental judaico-cristã a ambição, a abstração do valor da força de trabalho a partir da unidade monetária, e o sentimento de propriedade privada em detrimento do coletivo. Porque negar isso aos nossos irmãos silvícolas?

Não estou aqui defendendo que não existam reservas indígenas. Elas devem existir, como unidades de conservação, onde além do elemento biótico (fauna e flora), persista também o elemento cultural (rituais e dinâmicas etno-culturais indígenas). Mas as crianças indígenas devem ter o direito fundamental, que lhes é garantido pela Declaração Universal de Direitos Humanos (ONU, 1948), de ter acesso à educação básica, como porta de saída da cultura indígena e porta de entrada para o livre arbítrio – para escolher entre uma e outra culturas (a indígena ou a ocidental).

Não é mandando meia dúzia de índios para a universidade que resolveremos o problema do massacre social das tribos indígenas no Brasil. Mas sim educando 100% das crianças indígenas dentro da cultura institucional brasileira, aquela estabelecida pelo MEC, dando a estas as ferramentas para serem donas de seus destinos, e aos índios a possibilidade de influírem política, econômica e culturalmente no futuro do Brasil.

As reservas indígenas continuariam como sítios preservados, não mais como prisões isolacionistas da população indígena, mas sim como museus a céu aberto de uma cultura que está intrinsecamente ligada não só à nossa História, mas ao nosso destino enquanto nação. Índio também quer ser “doutor”. Índio também quer ter livre arbítrio. Porque ambas as coisas devem ser privilégio da classe média branca (ou negra) das grandes cidades? A quem interessa manter os índios isolados e analfabetos?

O Brasil precisa encarar essa questão com coragem: se as terras indígenas serão nações independentes dentro do Brasil, então que os seus cidadãos sejam indenizados pelos empreendimentos lá situados (rodovias, hidrelétricas, etc), mas que esses mesmos cidadãos tenham a opção de ingressar no ordenamento jurídico brasileiro, com todas as ferramentas para tal, podendo optar por viver sim sob essa selva capitalista que oprime nosso lado mais bucólico e descompromissado, mas ao mesmo tempo aviva nos seus “jogadores” a ânsia por um progresso acima de tudo em termos de qualidade de vida (viver mais tempo e melhor).

É difícil imaginar que um índio brasileiro queira trocar a vida na beira do rio Amazonas pela vida numa favela de São Paulo. Mas não poderíamos, sob essa mesma lógica, imaginar o índio brasileiro trocando a vida na beira do rio Amazonas pela qualidade de vida no coração de Paris (como optaria qualquer cidadão paulistano)? Com certeza sim!

E quem quiser viver de bunda de fora, que o faça por si mesmo, e não fique utilizando do seu voto e da sua voz para obrigar a terceiros a “cagar no mato”. Estamos combinados?

Victor Castro Fernandes de Sousa, maio de 2013, Brasília-DF.




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