Opinião

Por , em 22/05/2013 às 11:10  

Geografia, ensino e comportamento

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Democracia e Liberdade: REFLEXÕES SOBRE A EDUCAÇÃO: PREDAM O BOM SELVAGEM!

“A geografia serve antes de mais nada para fazer a guerra…” Mas, o que não serve para fazer a guerra? Ioga, talvez. Tudo serve. O que não dizer de química, então? Concordo contigo que a parte utilitária da geografia tem sido flagrantemente desprezada nas escolas. Não tenho dúvidas disso, mas a matéria está lá, além dos livros didáticos que a acobertam. Lembro-me de uma questão de vestibular sobre qual face de um apartamento teria maior insolação e por que. Ocorre que este tipo de questão, dos anos 90 para cá sofreu uma sensível redução. Com o Enem então, nem se fala.
Eu concordo plenamente que uma causa do atual descalabro educacional se encontra na pedagogia, mas sejamos justos, não só ela… A raiz é rizoma. Não haveria sucesso em idéias tão estapafúrdias atualmente em voga não fosse o utilitarismo em aproveitá-las. E aí me refiro a eles, sim a eles, os professores. Não há “crise na educação” sem crise na qualidade do professor. É o profissional que concentra as atribuições básicas, em que pese a proposta do atual governo federal em nos transformar em meros “instrutores de ensino” e enxugar as diversas disciplinas em eixos temáticos cheios de generalidades rasas.
Quanto a isto:

 

“Uma reportagem de O Globo apontou que 28% da população brasileira pode ser considerada analfabeta funcional, e apenas 25% plenamente alfabetizada. Dizia que apenas 6% dos que completam a 4ª série atingem um nível pleno de alfabetização, quando o esperado deveria ser 100%. Este percentual subia para 15% entre os que completavam a 8ª série, mas 24% dos que tem este grau de estudo continuavam analfabetos funcionais.”
A razão é simples. O mesmo princípio utilitário que move professores ao não aplicarem o velho rigor, do treino, das provas, das correções, da repetição e da disciplina extenuante é adotado pelos alunos. Alunos, antes de mais nada, aprendem pelo exemplo. No caso, ao observarem os professores. Se ele não cobra, o aluno simplesmente não se motivado a cobrar… De si próprio. O que eu vejo de aluno de 5ª série e seguintes que simplesmente não sabe ler. Só posso deduzir que nunca tiveram que treinar leitura em voz alta, o que eu me vejo obrigado a fazer, porque sem isto não aprenderão geografia como não aprenderão simplesmente nada do ensino formal.
O que fez a filha do autor do artigo ao berrar como todas outras é um fato social bem conhecido… Quantos dos torcedores de futebol que conhecemos, esbravejam, xingam o juiz, jogam sacos de mijo nos torcedores do próprio time fariam isto em público, na frente dos outros fora do local em que se despersonalizam? A imensa maioria se porta bem, amarrada que está em uma série de procedimentos e códigos apreendidos para viver em sociedade. Se não o fazem na escola é porque esta virou exatamente o lugar cuja função é a despersonalização cotidiana. Eu tive uma prova disso anos atrás, como um soco no estômago, quando dei aula em São Bernardo do Campo, SP. Na referida escola eu substitui um professor no meio do ano letivo, de tal modo que as turmas já estavam bem condicionadas ao seu estilo. Lá, a escola tinha salas por disciplina que durante a mudança de aula, de um para outro recinto, se perdia a concentração por completo. E tive turmas bem difíceis de administrar.
Em determinada ocasião, não me lembro bem porque, houve uma mudança temporária de horário e dei aula numa sala diferente, o que me pareceu melhor, mas só mais tarde entenderia por que. Quando voltamos para a minha sala, a sala tradicional da disciplina, os alunos se transformaram ficando agitados. O que eu percebi na hora é que eles tinham sido condicionados a agir assim naquela sala específica quer servia como salvo-conduto para não respeitarem mais nada. Concluí que o professor anterior deixava as rédeas soltas e que aquele espaço entre quatro paredes era, na verdade, um micro-cosmo do que é a maioria das aulas. Mas, isto não foi o que mais me chocou.
O que mais me deixou surpreso foi perceber, nitidamente, que a exceção não era apenas uma aula disciplinada, mas também uma sala, um espaço, cuja professora imprimiu uma marca de respeito. Isto deveria ser óbvio penso hoje, pois não nos comportamos do mesmo modo num cabaré, cinema ou igreja, mas conseguimos com que a escola perca, respectivamente, o prazer, a curiosidade e a fé.



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