Brasil

Por Bolivar Lamounier, em 17/06/2013 às 19:10  

PROTESTAR COM OBJETIVIDADE EU TOPO.PROTESTO ROMÂNTICO, NÃO É COMIGO

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Participar de manifestações? Perfeitamente. Tenho toda a disposição de ir à rua, com a condição de que o protesto seja dirigido contra os responsáveis reais pelas dificuldades que o Brasil está vivendo. Com uma pauta adequada, prioridades bem definidas, cada problema no seu contexto e em sua escala certa – pronto, lá vou eu. Sem isso, não. Protesto romântico, não é comigo.

Eu não colocaria o reajuste das tarifas no topo de minha agenda, pois a tarifa é um preço, e o reajuste de um preço se torna escorchante quando a inflação se torna escorchante. Quem é o responsável pela subida da inflação? O prefeito Haddad, com certeza não o é. O governador Alckmin, também não. Inflação, inércia, incompetência, irrelevância, gastança etc estão de fato jorrando no Brasil, mas sua fonte é Brasília.

Todo mundo sabe que o transporte público vai muito mal. Todos sabem que ele é caro, de má qualidade, inseguro e lento. Extremamente lento, apesar de algumas boas providências tomadas, como a faixa exclusiva. Mas é óbvio que a lentidão não se deve a algum capricho cruel do prefeito ou do governador – e nem mesmo à inflação. Deve-se ao nosso desejo, a nossa necessidade e ao nosso direito de possuir um veículo individual. Se de repente 80% dos proprietários decidissem se desfazer de seus automóveis, todos de uma vez, é claro que o trânsito melhoraria. Melhoraria até que OUTROS cidadãos também desejosos, necessitados e no direito de adquirir veículos individuais ocupassem o lugar dos atuais proprietários – o que, aliás, seria muito fácil, o governo logo expandiria o crédito com essa finalidade, como tem feito.

Estou errado? Pode ser que esteja. Mas se estiver certo, a moral da história é muito simples: a dificuldade mais grave, que é a lentidão, não tem solução simples. Não há mágica, não há solução imediata. Nem com manifestações diárias mobilizandoum milhão de pessoas o problema vai desaparecer da noite para o dia. Tenho a maior simpatia pelos milhões de cidadãos que protestam em razão das péssimas condições em que o transporte se encontra. Não só o transporte, mas também a segurança, a educação, a saúde etc. A crítica que tenho feito e vou continuar fazendo é que protestos com objetivos mal definidos não levam a lugar nenhum. De que adianta atacar as autoridades municipais e estaduais por problemas que são da alçada federal, que decorrem de ações e omissões do governo federal? Protestos difusos, confusos, sem uma contextualização adequada, na escala errada, sem prioridades definidas, sem representantes e negociadores, podem servir a um anseio romântico de extravasar a indignação, mas não devem ser vistos como ações “politizadas” no sentido correto deste termo. Tais protestos, aliás, me fazem lembrar uma história a respeito do mais que célebre sociólogo Max Weber quando ele tinha 10 ou 12 anos de idade. Conta-se que o professor de latim estava cobrando a lição sobre as “Catilinárias”, de Cícero. Cada aluno dizia alguma coisa sobre o estilo do autor, as declinações e mais isso e aquilo. Na vez dele, Max Weber comentou: “a análise parece-me genérica e sem objetividade; o autor mostra-se incapaz de definir suas prioridades, que providências efetivas poderiam ser tomadas, e os meios a empregar; os textos permitem ver que ele estava irado, nada, além disso,”.




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