Opinião

Por Observador Político, em 12/08/2013 às 14:56  

A Sociedade Decente, por FHC

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FHC não se cansa de buscar aquilo que se move na sociedade, tentando sempre entender o que vem vindo, o novo, a superação da realidade. O Observador Político começará doravante a divulgar suas ideias mais recentes. Seu último conceito define a sociedade decente: “Mais que crescimento de renda e igualdade social, precisamos construir uma sociedade com firmes valores de participação, liberdade, respeito ao indivíduo, de Justiça. Esse é o desafio que temos pela frente: o de criarmos uma sociedade mais decente. Nela, não haverá lugar para a corrupção, a impunidade, a insegurança”.

Fernando Henrique Cardoso soube combinar, como poucos, a dedicação às funções do acadêmico e do político. Sociólogo de formação, professor, engajou-se desde logo nas lutas pela melhoria do ensino público e pela modernização da Universidade de São Paulo, onde ingressou em 1952. Perseguido e exilado após o golpe militar, reconquistou por concurso público (1968) sua cátedra de Ciência Política, tendo sido compulsoriamente aposentado pelo Ato Institucional 5, aos 37 anos de idade.

Fora da USP, fundou o CEBRAP, importante núcleo de pesquisa e reflexão sobre a realidade brasileira, aglutinando pesquisadores críticos de várias correntes. Presidiu a Associação Internacional de Sociologia, fortalecendo sua imagem de grande saber e capacidade de liderança. Suas palestras, artigos e livros, o destacaram no Brasil como contundente crítico do regime militar, defendendo a transição pacífica para a democracia. Entrou em 1978 para a política partidária, exercendo por 12 anos (1982 a 1994) o cargo de Senador da República. Foi Ministro das Relações Exteriores e Ministro da Fazenda, elegendo-se Presidente da República, por dois mandatos (1994 a 2002). Por onde passou, soube misturar com maestria a razão, aprendida pelo sociólogo criativo, com a emoção, capturada pelo líder político. Mais que complementares, FHC julgava, ambas as habilidades, essenciais ao exercício virtuoso do poder.

O exercício da política, escreveu FHC, exige uma capacidade de diagnosticar com clareza os problemas do Brasil, para entender as estruturas disponíveis e, consequentemente, as condições objetivas da mudança social. Seja como sociólogo brilhante, seja como político exitoso, seja principalmente como uma simbiose entre essas duas dimensões, FHC acabou agraciado com o prêmio Kluge, considerado o Nobel das ciências humanas. Sua destacada trajetória mereceu inúmeras homenagens. Saudando-o na entrega do título de Professor Emérito da USP, Francisco Weffort o denominou, por excelência, como o sociólogo das relações cambiantes, o intelectual das identidades complexas.

Reconhecido mundialmente, FHC construiu, no Brasil e no exterior, uma carreira inovadora dentro da sociologia, mesclando os conceitos antigos com novas formulações, nascidas de sua vivência prática, de uma busca da ação, não apenas da elaboração teórica. As palavras foram extraídas de Weffort: em uma época de mudanças rápidas, uma época de aceleração da mudança, seja na Universidade, seja na política, seja na teoria sociológica, a raiz de sua excepcionalidade como intelectual está na sua sensibilidade para a História e para a ação. FHC expressou a rapidez da mudança com maior fecundidade, e foi o mais crítico e, provavelmente, o mais consciente de sua própria criticidade. Ele desenvolveu, mais que ninguém, conceitos que captam, ou buscam captar, a contradição, o paradoxo, aquilo que se move, o que está deixando de ser, ou, ao contrário, o que está vindo a ser. FHC é um grande virtuose das ideias, Para ele, as classes sociais, de que nos falaram os clássicos do marxismo, continuam existindo, mas são diferentes; o desenvolvimento capitalista nacional, autônomo e autossustentado, torna-se ideia do passado; a internacionalização do mercado interno caminhou tão rápida que há de espantar até mesmo seu formulador original. FHC nos mostra, constantemente, que o mundo das certezas passadas não existe mais. Restam, evidentemente, os princípios, os sonhos da liberdade e da igualdade.

Boaventura de Souza Santos, reconhecido intelectual português, saudando FHC na entrega do título de “Honoris Causa” pela Universidade de Coimbra, em Portugal, o chamou de “O Presidente Sociólogo”. Destacou, em seu discurso, que FHC domina como poucos a tradição sociológica universal mas, a partir desse domínio, inova teórica e conceitualmente, procurando dar conta das especificidades da sociedade brasileira. Esta postura científica inovadora afirma-se bem cedo, com sua tese de Doutorado “Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional”. (1962) Aí, discursa Boaventura Santos, surge a caracterização do capitalismo mercantil escravista. Mais tarde, da ideia central de desenvolvimento dependente, brotam conceitos, esse verdadeiramente premonitório, como o da internacionalização do mercado interno; da burguesia de Estado; dos anéis burocráticos, modos como as forças econômicas dominantes injetam seus interesses nas agendas políticas da administração estatal.

O pendor crítico do pensamento de FHC, crítico de todos os dogmatismos, de todas as ortodoxias, de todas as ideias feitas, esse domínio da reflexividade, tem sido a fonte inesgotável do caráter inovador da sua ação e do seu pensamento, de sua capacidade para ir à frente da realidade constituída, para captar tendências, para subscrever com entusiasmo ideias minoritárias que, mais tarde ou mais cedo, se transformam em patrimônio comum dos seus próprios opositores. Saudando-o por ocasião dos 40 anos do CEBRAP, o Prof Fernando Limongi começa por afirmar que a grande marca da obra intelectual construída por FHC é a fuga à resposta convencional, o questionamento constante, a recusa à resposta fácil, a negação da explicação convencional, contra o dogmatismo. Fernando Henrique sempre se mostrou disposto ao debate intelectual e político, soube onde estava o novo, antes dos demais.

A fala vem de Fernando Limongi. A teoria da dependência faz mais do que desafiar os dogmas caros ao marxismo e a sua “versão burguesa”, a teoria da modernização. FHC mostra que não há uma rota única para o desenvolvimento. Há diferentes caminhos ou sequências. A matriz contida em “Dependência e Desenvolvimento na América latina” resistiu ao tempo. A obra continua influente quase meio século após a sua publicação. Reconheçamos ou não, somos todos “dependentistas”. As perguntas permanecem: por que alguns países se desenvolvem e outros não? O que explica a ocorrência de regimes democráticos e autoritários ao longo do tempo e do espaço? Como e por que desenvolvimento capitalista e democracia se combinam? Qual a relação entre subdesenvolvimento e autoritarismo? Como dar conta do atraso da América Latina? Quem quiser responder estas perguntas hoje não terá escapatória. Comece por ler Dependência e Desenvolvimento ou então estará fadado a inventar a roda.

Esses três depoimentos, oriundos da Academia, servem para aquilatar a contribuição de FHC ao mundo das ideias e, consequentemente, como lhe é próprio, da ação política. Fundador do PSDB (1988), o partido da socialdemocracia brasileira, sua carreira, intelectual e política, contribuiu sobremaneira não apenas para compreender o Brasil mas também, mais tarde, na Presidência da República, para propor e realizar mudanças no rumo do desenvolvimento nacional. Seu modo de pensar, sólido no conteúdo, criativo e tolerante, focado na ação, na crença daquilo que está por vir, que norteou sua postura política, favoreceu a definição de uma agenda para o futuro do País.

Na comemoração de seus 80 anos de idade, a Fundação iFHC preparou um pequeno documento, intitulado “Semeando o Futuro”, onde se destacam, de forma sintética, 80 ações estruturantes promovidas pelo governo de FHC, entre 1995 e 2002. A listagem dessas realizações permite aquilatar o enorme aprimoramento institucional do país ocorrido sob a liderança de FHC, a começar, mas não se resumir, pela estabilidade da moeda obtida desde o Plano Real. Ideias construtivas que, levadas à prática, organizaram e mudaram o rumo do Brasil.

O extrato das ideias contemporâneas de FHC – que será publicado rotineiramente aqui no OP – mostra seu pensamento mais recente, externado nos últimos escritos. Nele se percebe, incrivelmente, a inquietude intelectual que sempre o caracterizou, a busca do novo na sociedade, o avanço, a mudança. Mergulha, como numa cruzada mundial, sobre a questão das drogas, terrível mal da sociedade atual. Repete, onde pode, sua crítica sobre o envelhecimento das práticas políticas e a necessidade da renovação partidária, trazendo a juventude para discutir os destinos da Nação.

Ao divulgar e propor a discussão sobre os temas contemporâneos, o Observador Político busca contribuir na melhor definição da estratégia para o futuro do Brasil. Nós acreditamos na consecução da sociedade decente, conforme a coloca FHC. Tal conceito cria a utopia do país que queremos deixar para nossos filhos.




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