Comunicação

Por Se o Povo Soubesse, em 28/08/2013 às 16:41  

Potências vão intervir na guerra civil da Síria. Prepare-se para as mentiras

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Leão Serva

A imprensa em todo o mundo informa que Estados Unidos, Inglaterra e França se dizem prontos para iniciar ataques à Síria, em represália ao aparente uso de armas químicas pelo governo do presidente Bashar Al Assad, em guerra civil com diversos grupos de oposição. Prepare-se para as mentiras. Se os ataques ocorrerem, será o início da internacionalização do conflito iniciado em janeiro de 2011 e que já teria vitimado mais de 100 mil pessoas, segundo algumas estimativas.

É sempre assim: “A primeira vítima quando começa a guerra é a verdade”. A frase é do senador norte-americano Hiram Johnson, em 1917. Ele se referia à cobertura dos jornais norte-americanos sobre a Primeira Guerra Mundial, em que os Estados Unidos ainda nem mesmo lutavam.

A frase serve de epígrafe e de título para um estudo chamado “A Primeira Vítima”, do
escritor Phillip Knightley, lançado logo depois da Guerra do Vietnã e relançado, em versão ampliada, em 2004, incluindo análise sobre a cobertura da guerra do Iraque.

Embora seja um dos maiores clássicos sobre jornalismo, adotado em universidades de todo o mundo, o livro parece inspirar os críticos dos meios de comunicação apenas quando as guerras terminam. Durante os conflitos, os mesmos jornalistas que admiram o estudo de Knightley são capazes de engolir as versões mais disparatadas sobre os conflitos.

Foi o caso da cobertura, no Brasil e em todo o mundo, da guerra do Kossovo, em 1999. Quem, como Knightley, se deu ao trabalho de cotejar as notícias da época com as conclusões dos comitês de investigação após o final do conflito certamente se vê hoje em uma situação delicada: os sérvios não mataram tantos albaneses quanto apontavam os números; os albaneses não eram os anjos indefesos apontados pela mídia internacional; as armas usadas pela Otan não eram “tão inteligentes” e nem seus bombardeios eram
“cirúrgicos”; a intervenção internacional não restaurou a harmonia entre as etnias e nem mesmo o equilíbrio geopolítico na região (ao contrário, os albaneses que tinham forçado a intervenção internacional contra a Sérvia, em 1999, se desmascararam ao tentar provocar uma segunda mágica semelhante, na Macedônia, dois anos depois).

Mas o pior não é ver as notícias serem desmentidas depois, mas ver que a guerra do Kossovo aconteceu oito anos depois da primeira guerra norte-americana contra o Iraque (chamada de Guerra do Golfo), quando os mesmos termos foram usados para definir a mesma estratégia da mesma coalizão internacional (liderada pelos Estados Unidos), também para negados depois.

Falsas também foram as alegações usadas pelo governo de George W.Bush para justificar a segunda guerra norte-americana contra o Iraque, em 2003, de que serviria para destruir estoques de armas de destruição de massa do governo de Saddam Hussein; as informações se provaram mentirosas após o conflito, mas a esta altura o Iraque já estava ocupado.

Knightley é um estudioso metódico, que se dedica a investigar as inúmeras notícias publicadas sobre cada conflito. A leitura de seu livro reserva uma surpresa a cada página.

A trajetória da cobertura de guerra é, como ele mostra, uma espécie de disputa entre jornalistas querendo noticiar livremente os conflitos e governos querendo difundir versões que sirvam aos seus interesses publicitários, não importa se verdadeiras ou não.

Nessa disputa, a imprensa foi ampliando seus espaços, a começar pela instituição mesma da figura do correspondente de guerra, na Guerra da Criméia (1854-1856), entre Inglaterra e Rússia (aliás, durante uma longa disputa pela hegemonia sobre o sul da Ásia que levou os dois países a disputarem também o Afeganistão). Antes da Criméia, correspondentes dos jornais eram militares envolvidos nos combates, que escreviam para os jornais de seus
países. Ou seja, não havia nenhuma independência.

A imprensa, para Knightley, venceu a disputa na Guerra do Vietnã. E a partir de então, os governos, mesmo os mais democráticos, nunca mais foram os mesmos em seu relacionamento com os jornalistas.

As guerras posteriores, até hoje, desde as Malvinas (1982) são as mais censuradas e controladas da história. A ponto de o governo inglês organizar um pool de jornalistas para cobrir a guerra contra a Argentina, em que uns poucos jornalistas sorteados eram obrigados a enviar suas reportagens, depois de aprovadas pela censura, para todos os jornais do país.
Ou seja, embora contratados por jornais privados, eles trabalhavam como assessores de imprensa do governo.

Na Guerra do Golfo, em 1991, só foram enviadas notícias do front autorizadas pelo governo norte-americano, numa censura sem precedentes até então, baseada exatamente naquela que tinha sido implantada pela Inglaterra na década anterior.

Não se deve esperar nada melhor agora que a guerra será em um país do Oriente Médio do qual todos os jornalistas estrangeiros já foram expulsos, seja pelo governo do ditador laico Bashar Al Assad, seja por grupos rebeldes, entre os quais radicais islâmicos passaram a ser os mais poderosos. Contribui para o festival de notícias falsas o fato de que a mídia dos EUA e da Inglaterra (países que sediam as maiores agências de notícia do mundo), deverá
praticar um jornalismo absolutamente acrítico em relação às notícias divulgadas
pelos órgãos militares.

No Kossovo, a mídia iugoslava acabou servindo de contrapeso à internacional. Foi a tevê iugoslava que divulgou que um míssil “inteligente” da Otan tinha atingido albaneses em fuga, em vez de um comboio militar sérvio e matado diversos civis.

No caso do Afeganistão (ocupado pelos EUA em 2002), nem isso foi possível: o governo do grupo fundamentalista Taleban proibia a tevê e a internet, armas de informação que poderiam ter sido fundamentais para se contrapor, de uma forma por assim dizer “Ninja”, à cobertura pró-americana dos veículos internacionais. Depois da guerra, talvez seus líderes tenham percebido que, no governo, criaram a barreira que os impediu de divulgar sua versão dos acontecimentos.

Então, ao leitor brasileiro, resta esperar que a distância dos jornais brasileiros em relação aos interesses dos governos dos EUA e das potências europeias gere algum jornalismo independente. E aguardar, para depois do conflito, uma bateria de críticas aos mais diversos aspectos da estratégia militar aliada: a revelação do sofrimento de civis inocentes, dos erros dos atacantes, dos tiros fora do alvo etc.

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Texto atualizado a partir de análise publicada originalmente em setembro de 2001, após os ataques terroristas às “Torres Gêmeas”, em Nova York.

 

 

 

 

 




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