Opinião

Por Se o Povo Soubesse, em 02/09/2013 às 12:32  

Se o povo soubesse por que Obama promete só bombardear a Síria…

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Discursos sobre poder e precisão dos bombardeios são mentiras recorrentes em todas as guerras recentes. Depois vem a verdade do envolvimento por terra

Leão Serva

Quando começa uma guerra, a primeira vítima é a verdade (isso aliás já virou clichê). E quando essa guerra envolve uma das grandes potências militares, a primeira mentira contada diz respeito ao poder e à precisão dos bombardeios para minar as forças adversárias. Prometendo não envolver vidas de seus soldados em um conflito estrangeiro, o governante (como agora faz Obama) promete só realizar ataques à distância (chamados “bombardeios estratégicos” na linguagem militar), a longa distância. Para não ser acusado de sanguinário, dirá que as armas usadas terão grande precisão e vão atingir apenas alvos militares.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, a inteligência militar norte-americana já conhece bem a limitação dos bombardeios para atingir os objetivos propalados. Estudos minuciosos foram realizados no teatro europeu logo ao final do conflito, quando os EUA ainda enfrentavam as forças japonesas no teatro do Pacífico; em seguida, estudos semelhantes e ainda mais profundos foram realizados no próprio Japão, chegando à mesma conclusão: os bombardeios, tanto contra alvos militares quanto civis, não quebram a capacidade de resistência militar e nem derrubam o moral da população civil e não podem portanto ser considerados responsáveis pela vitória militar ou mesmo por abreviar o tempo de um conflito. Em outras palavras, para vencer uma guerra é necessário invadir o inimigo por terra e dominá-lo.

Uma outra prova dessa incapacidade aconteceu ainda poucos anos depois, quando os Estados Unidos usaram toda a força aérea de que dispunham para bombardear o território do Vietnã do Norte, tentando quebrar a espinha de sua força militar e também eliminar sua capacidade de ajudar a guerrilha Vietcongue, que atuava no Vietnã do Sul. Embora tenham envolvido em poucos meses mais bombas do que em toda a Segunda Guerra Mundial, os bombardeios foram negados peremptoriamente pelo governo dos EUA por um longo período, até que o jornal “The New York Times” publicou o furo de autoria de um enviado especial à região, que testemunhou as nuvens de aviões B52 despejando chuvas de bombas que destruíram indiscriminadamente florestas, áreas civis e talvez até mesmo algum alvo militar.

Embora tenha explicitado a mentira que o governo Nixon falava à opinião pública americana, os bombardeios não reduziram a capacidade norte-vietnamita, como ficou comprovado com sua vitória militar sobre o Sul poucos anos depois.

O escritor norte-americano John Kenneth Galbraith (1908-2006), mais famoso por livros de economia, foi o diretor da comissão que estudou o impacto dos bombardeios estratégicos na confronto com a Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. E inúmeras vezes escreveu sobre os resultados frustrantes dos bombardeios. Trabalhando como assessor do presidente John Kennedy (1917-1963), na Casa Branca, no início dos anos 1960, Galbraith opôs-se ao envolvimento norte-americano no conflito vietnamita, especialmente porque a alegação do secretario de Defesa Robert McNamara (1916-2009) dizia que o envolvimento seria pouco custoso para os Estados Unidos por envolver treinamento a tropas locais e algumas ações aéreas. Como a história mostrou, Galbraith estava certo: em poucos meses os EUA foram levados ao maior envolvimento de tropas por terra desde a Segunda Guerra e à maior derrota militar de sua história. Até o fim da vida, Galbraith pregou em entrevistas e artigos o que aprendera na comissão de 1944/45, raramente sendo ouvido.

Estudos semelhantes aos conduzidos após a Segunda Guerra foram feitos também logo depois da Primeira Guerra do Golfo (1991), já então para avaliar a capacidade dos bombardeios estratégicos quando usados os mísseis de “precisão cirúrgica”, como foram chamados as armas controladas remotamente e de maior precisão. Os resultados foram idênticos. Mesmo privada de conhecer os resultados dos relatórios militares, a opinião pública internacional pôde perceber o resultado pelo fato de que o ditador iraquiano Saddam Hussein, preservado no poder quando as forças de terra dos exércitos aliados liderados pelos EUA interromperam a invasão a poucos quilômetros de Bagdá, manteve grande poder militar e pôde controlar seu país e os inimigos internos por mais 12 anos (tendo sido derrubado apenas por uma outra invasão por terra que dessa vez ocupou o país inteiro).

Não são só as grandes potências que tendem a usar os bombardeios à distância para evitar as baixas dos confrontos. O longo sítio de Sarajevo, entre 1992-95, quando os bósnios-sérvios mantiveram sob cerco a capital dominada por bósnios-muçulmanos, tinha exatamente essa razão: para dominar por terra uma cidade de 300 mil habitantes, os sérvios teriam que invadi-la com pelo menos 300 mil soldados, que não tinham.

Alguns anos depois, as forças conjuntas da OTAN (todas as maiores potências militares do mundo, menos Rússia e China), atacaram a mesma Sérvia para defender a autonomia da província do Kossovo, de maioria de população albanesa. E mais uma vez o que se constatou ao fim do conflito foi que a capacidade militar do governo sérvio estava quase inteiramente preservada (os bombardeios nem eram tão cirúrgicos e nem conseguiam abater a força bélica adversária).

Estudos mais recentes sobre os bombardeios norte-americanos no Japão, durante a Segunda Guerra Mundial, questionam inclusive o fato de que as explosões de duas bombas atômicas, nas cidades de Hiroxima e Nagasaki, em 6 e 9 de agosto de 1945, respectivamente, tenham sido realmente decisivas para provocar a rendição do exército japonês às forças americanas. Em verdade, o Japão estava sem combustível para mover suas forças militares mas seus militares resistiam e a população se mantinha coesa em torno do imperador. A rendição deveu-se a um pedido expresso do imperador, contrariando os ministros militares, que talvez tivesse como objetivo preservar a monarquia.

A incapacidade de fato dos bombardeios estratégicos para atingir os objetivos alegados pelos governos que os utilizam é conhecida há muitas décadas, desde logo através desses relatórios das comissões das forças armadas dos EUA. É uma ideologia militar, portanto, o discurso que defende seu uso intensivo como capaz de eliminar a necessidade de uma invasão por terra, sempre mais custosa em termos de baixas humanas. Digo ideologia no sentido marxista, de mentira.

A imprensa, ao propagar um discurso ideológico (mentiroso), guerra após guerra, se mostra refém da propaganda militar e esquecida do que por diversas vezes já foi comprovado.

Mas o que leva jornalistas do mundo todo a reproduzirem sem qualquer constrangimento ou criticismo os anúncios do início de fases de bombardeios estratégicos e os prognósticos de seus efeitos declarados por porta-vozes militares?

O estrategista militar alemão Carl von Clausewitz (1780-1831), autor de um ensaio clássico chamado “Da Guerra”, disse que a guerra é a continuação da política por outros meios. Quando Barack Obama diz que vai atacar a Síria só com bombardeios estratégicos, sem envolvimento de soldados em terra (sem risco de baixas, quer dizer), ele está tentando conquistar apoio político para envolver seu país em mais uma guerra depois de prometer terminar o envolvimento nas guerras de George W.Bush (Afeganistão e Iraque).

Como de outras vezes, em poucas semanas ficará claro que sem uma ação complementar no chão, os resultados esperados não serão atingidos. E nessa hora ou bem os Estados Unidos deixarão o controle da Síria nas mãos de um inimigo local (como aconteceu com Saddam Hussein em 1991 e com Slobodan Milosevic em 1999 e deve acontecer em breve no Afeganistão) ou terão que envolver forças americanas por terra (como ocorreu no Vietnã e no Iraque).

No recente envolvimento das potências internacionais na guerra civil da Líbia, os bombardeios alteraram o equilíbrio de forças nas zonas de conflito, amplificando o levante local que terminou por dominar o território inimigo, funcionando como força de ocupação por terra, sem envolvimento de soldados das grandes potências.

Já a Síria tem um tempero bem mais complicado: a oposição progressista perdeu a hegemonia que parecia ter sobre a oposição no início do conflito, dois anos atrás. Ou seja, se não agir por terra, os Estados Unidos vão ter que optar entre dois inimigos: o ditador laico Bashar Assad ou o fundamentalismo muçulmano que hoje é a vanguarda da oposição.




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