Agricultura

Por xicograziano, em 15/10/2013 às 10:35  

Irlanda rural

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Não está fácil, na Irlanda, a vida de agricultor. Afora as dificuldades econômicas geradas na crise europeia, sua felicidade e sua paz andam comprometidas. Na amargura, resolveram brigar contra o boi do Brasil. Vão perder.

Números assustadores. Recente pesquisa da Farming Independent mostrou que, no ano passado, 16% dos agricultores irlandeses foram vítimas de crime, cometido em suas moradias ou nas fazendas. Destacam-se o roubo de maquinaria agrícola, ferramentas de trabalho e combustível. Poucos imaginariam tal situação em país tão civilizado. Parece o Brasil. Aqui, perto das grandes cidades, nos cinturões de horticultura, nada escapa dos larápios, a começar das bombas e dos canos de irrigação, destinados ao ferro-velho da esquina.

Outro terrível indicador aponta que algo grave acomete a Irlanda rural. Dados oficiais mostram que a taxa de mortalidade de seus agricultores se situa num patamar cinco vezes superior ao dos trabalhadores assalariados no país. Nestes, cai seguidamente o índice de mortalidade; naqueles, aumenta há duas décadas. Nas doenças circulatórias, a mortalidade dos lavradores irlandeses é sete vezes maior que a dos assalariados em geral. Triste, e paradoxal, situação.

Supõe-se, meio utopicamente, que o modo de vida camponês, com aquele sossego adornado pela natureza, ar puro em volta, passarinhos cantando e tudo o mais de bucólico, leve à boa existência, longe das viroses e das neuroses urbanas, garantindo longevidade ao cidadão. Na Irlanda, país que ostenta o quinto IDH do mundo, porém, os agricultores estão perdendo a saúde mais fácil. Alcoolismo, hérnia na coluna, obesidade, doenças causadas por fumo, solidão: vai longe a lista do sofrimento na roça por lá.

Orgulhosos de seu passado, os irlandeses cultuam o ruralismo como poucos. O inigualável verde de suas pradarias encanta a sociedade. A cor dos campos destaca-se em tudo: na camisa do time de futebol, na bandeira nacional, nas folhas do trevo que simboliza a nação. País pequeno – cabem três Irlandas no território paulista -, sua agropecuária ocupa apenas 17,6% do território. A lã irlandesa tem fama mundial, os queijos de leite de ovelha, deliciosos. Cerveja nenhuma supera a Guinness.

Esse brilho, todavia, esmaece na recente globalização. Comum aos países europeus, a agricultura da Irlanda passa por momentos difíceis. Os bons tempos do rico protecionismo agrícola ficaram para trás, exigindo grandes modificações nos processos produtivos e na comercialização de seus produtos. Ao invés de prometer subvenções, o governo só fala em cortar gastos. Não é para menos. Os custos da Política Agrícola Comum (PAC) consomem quase metade do orçamento da União Europeia.

Estabelecida há meio século, a PAC tinha como foco central a autossuficiência alimentar dos europeus, traumatizados por duas guerras mundiais. Visando à proteção dos seus agricultores, criou-se um sistema fechado, farto de subsídios e barreiras tarifárias, contra produtos estrangeiros. Pressionado pela Organização Mundial do Comércio, o protecionismo agrícola europeu começou a mudar nos anos 1990, adaptando-se às novas realidades da economia mundial.

Aos poucos os subsídios diretos à produção rural foram sendo trocados, embora de certo modo dissimulados, pelo apoio mais genérico ao desenvolvimento rural. O turismo e a sustentabilidade no campo entraram em cena, vinculados ao novo conceito de agricultor “multifuncional”, aquele que guarda a história, protege os recursos naturais e cuida da paisagem no interior. Esse novo enfoque, eclético, permitiu a queda de algumas tarifas de importação, abrindo em parte o mercado europeu aos alimentos, mais baratos, vindos do exterior. O Brasil entrou no jogo.

Mal acostumados com as facilidades do protecionismo agrícola, os agricultores europeus incomodaram-se com a competição do mercado. Após a moleza dos subsídios, naquela época de vacas gordas em que pouco importava a produtividade, pois o governo bancava a produção e a sociedade pagava o elevado preço, os produtores rurais tiveram de mostrar sua competência. Fraquejaram. Haviam-se tornado lenientes e quando acordaram para a nova realidade trombaram com o sucesso tecnológico dos agricultores brasileiros.

Puxados pela Irlanda, os pecuaristas da Europa passaram a gritar contra a “invasão” da carne brasileira. Denunciaram doenças inexistentes, inventaram hormônios, imputaram, com a ajuda de inocentes ambientalistas, um caráter antiecológico ao boi nacional. Salvar a Amazônia virou uma conversa bonita, disfarçada para justificar uma briga essencialmente comercial. Infâmias, reagiram os pecuaristas brasileiros, elegendo seus congêneres na Irlanda como inimigo número um.

Aos poucos, porém, os irlandeses foram descobrindo que o buraco é mais embaixo. Comandados pelo Ministério da Agricultura, que lá funciona, trabalham agora no planejamento estratégico de suas atividades, traçando seu cenário econômico para 2020. Investem na competitividade, não apostam mais na “reserva de mercado”. Com a lição de casa, percebem que seus adversários moram ali perto. As cadeias de supermercados sediadas na Inglaterra, país que compra dois terços das exportações irlandesas de carne, rebaixaram em 15% o preço da boiada comprada da Irlanda, sufocando os produtores. A briga estabeleceu-se entre eles.

Vale a pena conhecer a Irlanda. Suas belezas e suas virtudes ultrapassam de longe essa birra contra a pecuária brasileira. Nesse quesito o Brasil, mesmo sem subsídios, será insuperável na competitividade da carne. Quanto à mortalidade, confiamos em Deus. Já na roubalheira, perigamos vencer.




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