Opinião

Por xicograziano, em 29/10/2013 às 09:15  

Marina contra Ronaldo

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Marina Silva entrou no PSB por uma porta, saiu o deputado federal Ronaldo Caiado (DEM-GO) por outra. Mais que uma decorrência do jogo político, o episódio expõe uma intriga que contamina o ambientalismo brasileiro: alguém, sendo ruralista, pertence ao mal. Terrível preconceito.
A atitude radical da ex-senadora acriana provocou imediata reação do líder ruralista, que acusou Marina Silva de ser “intolerante”. O veto político, disse ele, recai sobre todo o setor produtivo, expondo uma visão, ultrapassada, de “inimigo histórico”. A Frente Parlamentar da Agropecuária, forte no Congresso Nacional, acusou a líder da Rede Sustentabilidade de praticar o “sectarismo”, lamentando a “demonização de sempre”. Forte polêmica.
No fundo, o gesto beligerante de Marina supõe existir uma incompatibilidade entre as ideias dos que protegem o meio ambiente e as dos que defendem a agricultura. Válida no passado, hoje em dia essa polarização anda amenizada. Embora haja divergências de pontos de vista, normais numa equação tão complexa, os fóruns atuais de discussão sobre o assunto, em todo o mundo, caminham buscando convergências. Nesse panorama construtivo, eliminar o contendor, como procedeu Marina, expressa uma intransigência negativa.
Há tempos, quando a tecnologia ainda gatinhava no campo, ninguém acreditaria que a agronomia e a ecologia pudessem um dia se aproximar. A contaminação pelos agrotóxicos, o desmatamento desenfreado, a erosão dos solos, entre tantos problemas, configuravam uma tragédia ambiental que parecia irreversível. Todavia, passadas algumas décadas, o controle integrado das pragas, o plantio direto na palha, a proteção dos recursos hídricos, entre outras virtudes, configuram modelos sustentáveis no agro. Firma-se um novo patamar de produção, no qual a agronomia namora firme a ecologia.
Abençoa-os, concretizando seus íntimos desejos, o desenvolvimento tecnológico. Basta verificar a “economia” de novas áreas causada pela elevação de produtividade da terra. Pesquisadores da Embrapa, analisando o período entre 1950 e 2006, calcularam esse efeito poupa-terra na pecuária brasileira. Sua conclusão é sensacional: sem os ganhos de produtividade ocorridos na bovinocultura, teriam sido necessários 525 milhões de hectares a mais para produzir a mesma quantidade de carne. Área maior que a Amazônia inteira.
Todo esse sucesso, real, ainda não foi suficiente para, no mundo da ideologia, sobrepujar o ranço negativo, trazido do passado, que estigmatiza o setor rural como atrasado, depredador. Chega a ser curioso. Muita gente no meio urbano desconhece totalmente a moderna produção capitalista no campo, vendo problemas onde existem soluções. Daí vinga certa utopia regressiva que enxerga a agricultura como dantes, aquelas galinhas caipiras cocoricando no terreiro, canteiros adubados com esterco do curral, vaquinhas ordenhadas à mão, carpição do mato na enxada. Puro bucolismo.
Muito se falou sobre o drama da fome no Dia Mundial da Alimentação, em 16 de outubro. Haveria muito mais famintos, e as pessoas não teriam elevado sua longevidade, se não fosse a revolução tecnológica na agropecuária mundial. Por volta de 1890, quando imperava a produção camponesa, a população mundial somava apenas 1 bilhão de habitantes. Com a urbanização e a industrialização tudo mudou. Começou a explosão demográfica, aumentado a pressão sobre os recursos naturais do planeta.
Nunca custa repetir o óbvio: a fonte básica dos problemas ecológicos está no crescimento da população humana. É das demandas criadas no processo civilizatório que brotam os dilemas contemporâneos entre produzir e preservar, desafiando o conhecimento científico. Vale para todos os setores da economia. Na agricultura, pode-se comprovar que a inteligência dos laboratórios tem conseguido modificar a velha equação dicotômica, trocando o sinal de “vezes” (produzir x preservar) por “mais” (produzir + preservar). Nasce assim, aos poucos, a agricultura sustentável que certamente ocupará o futuro.
Nesse processo de evolução, difícil não é a teoria, mas sim a prática da sustentabilidade. E, nesse ponto, o carimbo negativo de Marina Silva em Ronaldo Caiado atrapalhou. Seu discurso irritado aumentou a cizânia. Ao invés de procurar consensos, favoreceu a divergência. Virou manchete, agradou à turma fundamentalista, mas pouco construiu. Ao grudar em Caiado a pecha de inimigo, destruiu uma alternativa de diálogo. Fechou uma porta.
Imaginem o contrário. Entrando no PSB, que se articulava no apoio à candidatura majoritária de Caiado em Goiás, Marina poderia com ele, alicerçado pelas circunstâncias eleitorais, construir uma ponte sólida, aproximando o líder ruralista de suas ideias ecológicas. Descobriria que o atual líder do DEM, embora famoso pelo ruralismo, é reconhecido neurocirurgião, dá valor à vida humana. Pessoa séria, acompanhou de perto a evolução recente da agricultura no Brasil, jamais deixando de reconhecer a exigência do novo patamar de responsabilidade socioambiental. Nunca aceitou, porém, a imposição de regras, consideradas lunáticas, que violentassem a história dos agricultores tradicionais do País, condenando-os como se fossem criminosos. Sou testemunha desse processo político.
Já pensaram, com seu jeito dengoso, a lutadora ambientalista conquistando o vozeirão ruralista? Teria sido sensacional. Mas não vingou, a oportunidade foi perdida. A intolerância venceu a benevolência, atrasando por um tempo o casamento da agronomia com a ecologia. Os noivos, porém, apadrinhados pela História, não romperam. O amor, e não o ódio, pertence à sustentabilidade.




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