Brasil

Por Observador Conteúdo, em 26/11/2013 às 12:46  

As cidades e o desenvolvimento

Tamanho da fonte: a-a+

Tacloban, nas Filipinas, agora se juntou à lista cada vez maior de cidades assoladas por catástrofes climáticas nos últimos anos, que inclui Nova Orleans, Bangcoc, Moscou, Nova York, Pequim, Rio de Janeiro e Porto Príncipe, apenas para citar algumas. Muitas das maiores cidades do mundo, erigidas ao longo de rios ou costas marítimas, deparam-se com a ameaça de aumento no nível dos oceanos e com a intensificação das tempestades.

A importância das cidades para a economia mundial de hoje atingiu níveis sem precedentes. Até a Revolução Industrial, a história humana era rural. Apenas 10% das pessoas viviam em cidades. Hoje, a parcela dos que moram em cidades1 gira em torno de 53%, e deverá aumentar para 67% até 2050.

A renda per capita é maior nas cidades do que nas áreas rurais e estima-se que as cidades são responsáveis hoje por mais 80% da renda mundial, com as 600 maiores representando cerca de 50%. A maioria dos novos postos de trabalho das próximas décadas será criada nas cidades, proporcionando meios de sustento para centenas de milhões de jovens.

As cidades também são os centros de inovação em políticas públicas. A cada dia, prefeitos são instados a resolver os problemas dos moradores. Eles são os responsáveis, entre outras tarefas, pelo suprimento seguro de água, proteção contra desastres e serviços de emergência em caso de catástrofes, assim como por coletar o lixo, construir moradias e infraestrutura e melhorar as condições em favelas. Não é de surpreender, portanto, que enquanto os governos federais mostram-se paralisados por questões político-partidárias, os municipais proporcionam ações reais e inovação.

Nos Estados Unidos, por exemplo, Martin O’Malley, ex-prefeito de Baltimore e, hoje, o popular governador de Maryland, foi pioneiro no uso de sistemas avançados de informação para a gestão urbana. O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, trabalhou de forma incansável para adotar um novo plano de sustentabilidade (chamado PlaNYC2). E o próximo prefeito, Bill de Blasio, defende um programa ousado de inovações educacionais para diminuir as grandes diferenças de renda, riqueza e oportunidades que dividem a cidade.

O desenvolvimento sustentável oferece um novo conceito para a economia mundial no século XXI. Em vez de concentrar o foco apenas na renda, o desenvolvimento sustentável encoraja cidades, países e o mundo a direcioná-lo a três objetivos: prosperidade econômica, inclusão social e sustentabilidade ambiental.

A prosperidade econômica se explica por si só. A inclusão social significa que todos os membros da sociedade deveriam ter direitos iguais e oportunidades iguais para beneficiar-se da prosperidade. E sustentabilidade ambiental significa que precisamos reorientar nossas economias e tecnologias para combater as mudanças climáticas provocadas pelo homem, para proteger a biodiversidade e para serviços básicos, como o suprimento seguro de água e saneamento. Alcançar essas metas vai exigir boa governança, finanças públicas e instituições eficientes.

As cidades vão estar na linha de frente da batalha pelo desenvolvimento sustentável. Não apenas porque são as que enfrentam as ameaças diretas; elas também têm as melhores oportunidades para identificar e criar soluções. As cidades, por serem locais de alta produtividade e alta densidade, podem oferecer maior acesso a serviços de todos os tipos – como energia, água, educação, finanças, mídia, transporte, reciclagem e pesquisa – do que a maioria das áreas rurais.

Uma parte significativa da solução se dará por meio de tecnologias avançadas, como sistemas de informação e ciência dos materiais. A revolução da informação e das comunicações deu origem à ideia de “cidade inteligente”, que usa tecnologias relevantes no cerne de sistemas que coletam informações e reagem a partir delas: redes de energia inteligentes, redes de transporte inteligentes e prédios e zoneamento inteligentes.

A tecnologia, no entanto, vai ser apenas uma parte da história. As cidades precisam melhorar sua governança para destinar um maior papel às comunidades mais pobres e marginalizadas e para permitir uma coordenação muito mais eficiente quando for o caso de uma região metropolitana com várias cidades. A governança metropolitana é, portanto, crucial, já que cidades inteligentes precisam de redes que operem em escala metropolitana.

Quando se trata de uma escala metropolitana, a importância da liderança em áreas urbanas é ainda mais notável. A cidade de Nova York tem cerca de 8,4 milhões de habitantes, e a sua região metropolitana tem cerca de 25 milhões, com uma economia estimada em cerca de US$ 1,4 trilhão por ano. Se essa área metropolitana fosse um país, seria o 14ºmaior país do mundo, em termos de Produto Interno Bruto (PIB).

Uma boa doutrina política conhecida como subsidiariedade sustenta que os desafios de política pública devem ser atribuídos à menor esfera governamental capaz de enfrentá-los, assegurando, portanto, o máximo de participação democrática na solução do problema e a maior oportunidade de personalizar soluções para necessidades locais genuínas. Embora algumas questões – por exemplo, uma estrada nacional ou um sistema ferroviário -, exijam soluções na esfera federal, muitas questões de desenvolvimento sustentável são mais bem confrontadas na esfera urbana.

Os governos do mundo agora negociam os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)3, que vão guiar a agenda de desenvolvimento do mundo de 2015 a 2030. Em importante encontro em 25 de setembro, a Assembleia Geral da ONU chegou a consenso para que os ODS sejam adotados na reunião de cúpula mundial marcada para setembro de 2015, com os dois anos seguintes para determinar as prioridades.

Adotar ODS urbanos que promovam cidades inclusivas, produtivas e resilientes daria grande poder a dezenas de milhares de cidades pelo mundo para dedicarem-se à causa de promover um desenvolvimento sustentável para seus próprios cidadãos, seus países e o mundo.

Jornal Valor Econômico – 26/11/2013




Nenhuma opinião publicada

O que você tem a dizer?