Brasil

Por Observador Conteúdo, em 03/12/2013 às 10:45  

Deve-se pagar para ler notícias na internet?

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A internet depreciou a publicidade ao mesmo tempo em que ofereceu informação de graça, comprometendo o modelo de negócio que durante mais de um século sustentou a indústria da comunicação.

A tríade que financia as redações (informação original, circulação paga e publicidade) perdeu valor no papel, mas tampouco alcançou seu ponto de equilíbrio na rede.

Se, na divisão do bolo publicitário, os jornais tivessem a mesma fatia de dez anos atrás, eles encerrariam 2013 faturando o dobro.

Esse dinheiro não apenas mudou de plataforma, como foi pulverizado na abundância de páginas, ferramentas e conteúdos da rede. Criação e replicação são pagas como se iguais fossem. Para atingir a mesma quantidade de leitores, um anunciante pode desembolsar, no digital, de 5% a 20% do que gastaria em jornais e revistas. Ao preço atual, a coluna política de maior audiência não tem cliques suficientes para pagar um único repórter.

A conclusão é evidente: num prazo curto, as empresas jornalísticas correm o risco de ter comprometida sua viabilidade financeira e, sem ela, vai-se parte fundamental da imprensa como cão de guarda da sociedade. É por isso que a discussão sobre o futuro das redações precisa ser institucional. Comprometer a vigilância independente sobre governos e empresas é aceitar o enfraquecimento da democracia.

Muitos dirão que, no universo digital, existe um jornalismo cidadão capaz de suprir esse papel. É verdade que a Mídia Ninja e outras iniciativas ocupam um espaço novo. Mas a força dos grandes títulos, com sua cultura de técnica jornalística, sua alavanca de repercussão e seu respaldo jurídico, é um valor das democracias e, como tal, não deveria se perder na transição para o digital.

O Brasil tem mais de 100 milhões de usuários de banda larga e estima-se que mais de 20% deles acessam notícias mais de uma vez por dia. A esmagadora maioria visita um site ou blog jornalístico a cada três dias e a quase totalidade lê ao menos uma notícia por mês. Como seria possível remunerar quem produz esse conteúdo?

Para fins da publicidade, especialmente a oficial, uma caracterização legal da produção nacional de conteúdo ajudaria a promover a separação entre quem produz e quem replica, entre reportagem e outros conteúdos (como letra de música ou fotos dos amigos), entre jornalismo e ferramentas. Mas o principal debate é saber se a sociedade acredita no valor democrático de uma imprensa livre a ponto de financiá-la.

Apenas como exercício matemático: por R$ 3 mensais, o preço de um exemplar de jornal, seria possível criar, a partir de microassinaturas de usuários de banda larga e planos de dados, um fundo comparável ao investimento publicitário no meio jornal. Esse fundo teria de ser gerido por um órgão de autorregulamentação, nos moldes do Conar.

Ele deveria contratar uma empresa independente de auditoria para definir a distribuição da receita. A divisão precisaria levar em conta a audiência, o volume de produção e a relevância jornalística. Os pesos e os conteúdos dessas categorias seriam definidos pelo órgão.

O fundo teria de ser temporário e limitado ao financiamento do investimento na transição para o jornalismo digital. E estaria aberto não apenas aos títulos oriundos do papel, mas também aos veículos criados no ambiente digital.

As empresas tradicionais recuperariam a previsibilidade de receitas, os novos protagonistas do digital reduziriam a dependência de investidores e patrocínios. Haveria incentivo à competição, já que mais audiência e relevância resultariam em parcelas maiores de receita na repartição do fundo. Na briga pela audiência, seria razoável esperar uma mudança na linguagem jornalística, com mais vídeos e infográficos e soluções que contemplem a leitura em smartphones. Essa estrutura manteria a independência das publicações e fortaleceria a diversificação de enfoques e temas.

Com mais atores e mais competição, a sociedade ganha em vigilância e a democracia se revigora. Vale a pena pagar por isso?

Luciano Suassuna – Jornal Folha de S. Paulo (03/12/2013)




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