Brasil

Por Observador Conteúdo, em 20/12/2013 às 09:54  

Vamos esquecer 2013?

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2013 está terminando e, infelizmente, não foi nada bom para a sociedade brasileira. A economia está novamente patinando, com crescimento reduzido, inflação próxima ao topo da banda, taxa de juros em elevação e risco de rebaixamento do risco de crédito do país. A estagnação econômica ainda não chegou às ruas porque o mercado de trabalho continua em pleno emprego e os salários crescendo. Mas, sem crescimento de produtividade, a situação é insustentável. Por fim, na educação os últimos resultados dos alunos brasileiros no Pisa (exame internacional organizado pela OCDE) foram decepcionantes. Aonde é que estamos errando?

Na economia, está claro para (quase) todos que o erro está na condução da política econômica. A crença de que o Estado pode e deve intervir fortemente na economia para resolver todos os problemas, concedendo benefícios para todos os setores da sociedade está dificultando muito a nossa vida. Animado com a reação positiva do Brasil à crise econômica mundial de 2008, o governo decidiu mudar a matriz econômica, visando a desvalorizar o real, baixar rapidamente a taxa de juros, gastar muito para estimular o consumo e favorecer setores industriais. Isso funcionou enquanto o crescimento chinês trazia recursos abundantes. Entretanto, quando esses recursos escassearam o excesso de demanda interna, frente à falta de investimentos e baixa produtividade, fez com que a situação se deteriorasse rapidamente.

O governo acreditava que à medida que o consumo aumentasse, as firmas, ajudadas pelo governo, tenderiam a aumentar seus investimentos para não perder suas parcelas de mercado, o que levaria a economia a uma situação de crescimento sustentável. Entretanto, o investimento não veio. Por quê? Porque a maioria das grandes empresas do setor privado vive de empréstimos do BNDES e proteção comercial e, portanto não teme perder mercado e não precisa competir globalmente. Além disso, não sabe o que o governo fará no momento seguinte. Assim, apesar de vários programas de incentivo à inovação, as firmas brasileiras inovam cada vez menos. Afinal, aumentar a produtividade para que?

No mercado de trabalho, o crescimento brasileiro nos últimos anos tem sido baseado no setor de serviços, já que a nova classe média está gastando cada vez mais com viagens, cabeleireiros e restaurantes. Esses setores empregam intensivamente os trabalhadores menos qualificados da economia. Com o avanço educacional ocorrido a partir da década de 90, os trabalhadores menos qualificados estão ficando cada vez mais escolarizados. Além disso, há menos jovens hoje do que há cinco anos. Assim, seu salário aumenta continuamente e o seu desemprego diminui.

No setor de serviços, o aumento salarial é repassado para preços, o que faz com que a banda superior da meta de inflação só não seja atingida pelo represamento dos preços administrados. Mas esse represamento tem limites claros, como mostra o caso da Petrobras. Além disso, esse aumento de salários transborda para a indústria que, sem aumentos de produtividade nem possibilidade de repassar o aumento de custos para os preços, fica sufocada, se retrai e deixa de investir. Quando o governo não conseguir mais segurar a inflação administrada, haverá perda de poder de compra do salário, o que diminuirá o sentimento de felicidade na população. Isso vai acontecer antes ou depois das eleições?

Por fim, a qualidade da educação, um dos fatores mais importantes para aumentar a produtividade e a competitividade da economia brasileira, também está patinando. Os últimos resultados do Pisa mostraram que o aprendizado dos nossos alunos ficou estagnado entre 2009 e 2012 em leitura e ciências, tendo aumentado somente em matemática. O aumento de proficiência em matemática nos últimos 10 anos ocorreu em grande parte porque os alunos que faziam a prova estavam muito atrasados e agora estão se aproximando da série correta.

Mesmo assim, 67% dos nossos alunos ainda têm desempenho sofrível em matemática e somente 1% consegue aplicar modelos a situações complexas. Estamos 103 pontos atrás de média da OCDE (cada 40 pontos equivale a um ano a mais de estudo). Os estudantes paulistas fizeram 414 pontos, 200 pontos a menos que os de Xangai, o equivalente a cinco anos de estudo para a mesma idade. Mesmo se considerarmos apenas os alunos cujos pais têm nível superior, os alunos de Xangai estão 219 pontos à frente dos brasileiros.

O mais grave é que nossas políticas educacionais estão indo na direção errada. O plano nacional de educação, em vias de ser aprovado no Congresso, é um desastre. Visa somente a atender os movimentos corporativistas e tem metas irrealistas. Não diz nada sobre gestão e meritocracia. O único consolo é que as metas não serão atingidas e ninguém vai pagar por isso. Em São Paulo, as redes municipal e estadual retomaram a política de repetência, com objetivos políticos, mesmo quando o último relatório do Pisa condena explicitamente essa prática, mostrando que o Brasil tem uma das maiores taxas de repetências do mundo, que atinge principalmente os mais pobres.

Em suma, o governo está errando muito, tanto na economia como na educação. Assim, não surpreende que estejamos derrapando na produtividade e que as previsões para o nosso crescimento potencial sejam tão baixas. É necessário que o Estado brasileiro pare de beneficiar grupos de pressão o tempo todo, acredite mais no funcionamento do mercado, estimule a meritocracia, cuide melhor das contas públicas e melhore sua gestão na educação e na saúde. Boas festas a todos!

Jornal Valor Econômico – 20/12/2013




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