Economia

Por Observador Conteúdo, em 06/01/2014 às 09:54  

Duas Américas Latinas bem diferentes

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Atualmente, há duas Américas Latinas. A primeira conta com um bloco de países – incluindo Brasil, Argentina e Venezuela – com acesso ao Oceano Atlântico, que desconfia da globalização e dá ao Estado um grande papel na economia. A segunda – composta por países de frente para o Pacífico como México, Peru, Chile e Colômbia – adota o livre comércio e o mercado livre.

Como os dois grupos de países compartilham de uma geografia, culturas e histórias semelhantes, essa divisão torna hoje o continente um tipo de experimento econômico controlado. Por quase dez anos, a economia dos países do Atlântico cresceu mais rapidamente, em grande parte graças ao aumento dos preços das commodities no mercado global. Mas os anos vindouros parecem muito mais promissores para os países do Pacífico. Assim, a região como um todo enfrenta, de certa forma, um dilema sobre qual modelo adotar: o do Atlântico ou o do Pacífico?

Há uma boa razão para pensar que os países com acesso ao Pacífico estão em vantagem. Grande parte do continente está “pagando o preço do protecionismo exagerado e… [de uma] política irresponsável”, disse o ex-presidente do Peru Alan García em uma recente conferência na Cidade do México. “Essa não é a América Latina que eu vejo no futuro. Eu vejo o futuro em países como o Chile – que por um bom tempo tem sido um bom exemplo de como fazer as coisas -, Colômbia, Peru e México.”

Em 2014, o bloco comercial Aliança do Pacífico (formado pelo México, Colômbia, Peru e Chile) deve crescer a uma média de 4,25%, impulsionado por altos níveis de investimento estrangeiro e baixa inflação, de acordo com estimativas do Morgan Stanley. Mas o grupo do Atlântico, da Venezuela, Brasil e Argentina – todos unidos pelo Mercosul -, deve crescer apenas 2,5%, com o Brasil, a maior economia da região, crescendo1,9%.

As tendências divergentes entre as duas Américas Latinas devem durar bem além de 2014. Quando o crescimento econômico da China estava no seu auge, o gigante em expansão consumiu avidamente petróleo venezuelano, soja argentina, cobre chileno e minério de ferro brasileiro. Mas à medida que a economia da China se desacelera, os preços das commodities seguem a mesma trajetória, afetando mais fortemente as economias do Atlântico. No Brasil, o ministro da Fazenda Guido Mantega costumava se gabar, dizendo que o modelo brasileiro de desenvolvimento econômico iria em breve se espalhar pelo mundo. Mas o Brasil – com seus altos impostos, burocracia e tarifas – pouco fez para se preparar para o dia em que os preços das commodities pudessem enfraquecer.

Economistas dizem que os países da América Latina que adotam o livre comércio estão mais preparados para crescer, registram maiores ganhos de produtividade e suas economias abertas têm mais chances de atrair investimentos. Os países do Pacífico, mesmo aqueles como o Chile, que ainda dependem de commodities como o cobre, também têm feito mais para fortalecer todos os tipos de exportação. No México, as exportações de bens manufaturados hoje representam quase 25% da produção econômica anual (no caso do Brasil: elas representam irrisórios 4%). As economias do Pacífico também são mais estáveis. Países como o México e o Chile têm baixa inflação e gordas reservas estrangeiras.

A Venezuela e a Argentina, em comparação, começam a se parecer com casos econômicos sem solução, com inflação alta e governos financeiramente enfraquecidos. Na Venezuela, a inflação está acima de 50% ao ano – igual à da Síria, país devastado pela guerra. O presidente, Nicolás Maduro, sucessor do falecido populista Hugo Chávez, dobrou a aposta no controle de preços para tentar domar a inflação. O resultado é bastante previsível: escassez generalizada de tudo, de carros novos a papel higiênico. Um novo aplicativo, bem popular, adota o “crowdsourcing” (informações compartilhadas pelo próprio público de usuários) para informar aos cidadãos da capital, Caracas, onde consumidores afortunados encontraram, por exemplo, carne – permitindo que outros corram para o estabelecimento atrás do bem precioso.

As finanças dessa América Latina do Atlântico são também bastante inexpressivas. Entre as moedas da região que tiveram o pior desempenho em 2013 estão a da Venezuela, da Argentina e do Brasil. O peso argentino, por exemplo, perdeu 32% em relação ao dólar no mercado oficial – e cerca de 47% no mercado negro. O real acumulou uma desvalorização de 13% em relação à moeda americana.

A Argentina também sofre com a pesada regulação. Em Buenos Aires, os meses de verão têm produzido temperaturas elevadas – e apagões frequentes. Em 2002, o governo lançou um controle de preços sobre os preços de energia, esperando com isso ajudar os pobres a superar o colapso financeiro de 2001. Mas o que era para ser uma medida temporária se tornou permanente. As empresas de energia elétrica, assustadas com o controle de preços, pararam de investir na envelhecida rede de transmissão da cidade.

Mesmo o Brasil, que tem tido uma gestão econômica de longe muito mais responsável do que a da Venezuela ou da Argentina, começa a sofrer com a alta de preços e um boom de crédito que começa a desinflar. No ano passado, um brasileiro descreveu duramente o bloco do Atlântico: “O Brasil está se tornando a Argentina, a Argentina está se tornando a Venezuela e a Venezuela está se tornando o Zimbábue”.

Um momento-chave na criação das duas Américas Latinas ocorreu em 2005, quando Brasil, Argentina e Venezuela (então liderada por Chávez) se uniram para acabar com a proposta de criação da Área de Livre Comércio das Américas – uma zona de livre comércio que iria do Alasca à Patagônia, promovida pelo ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush. Abalada pelo fracasso da Alca, a Aliança do Pacífico foi formada com o intuito de promover sua própria área de livre comércio, eliminando tarifas em 90% dos produtos e estabelecendo um prazo para eliminar as demais.

A diplomacia praticada por esta metade da América Latina também é diferente: enquanto o bloco do Atlântico muitas vezes vê os EUA com desconfiança ou hostilidade, os países do Pacífico tendem a ter laços mais estreitos com Washington. “Nós nos propusemos a criar a Aliança do Pacífico porque queríamos nos posicionar à parte dos populistas”, diz Pedro Pablo Kuczynski, ex-ministro da Fazenda do Peru.

Muitos dos jovens da região, que formam a maior parte da população, já votaram em políticos como Chávez, que ofereceram crescimento econômico indolor por meio da impressão de moeda. Esses jovens eleitores podem ter dolorosas lições à sua espera.

“No fim das contas, os resultados dos dois diferentes blocos vão resolver o debate”, diz Kuczynski, “mas as más ideias levam muito tempo para morrer.”

Jornal Valor Econômico – 06/01/2014




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