Brasil

Por Observador Conteúdo, em 17/01/2014 às 13:25  

O Brasil ainda está longe de ser um país de classe média

Tamanho da fonte: a-a+

Dentro da lógica capitalista, novos consumidores são sempre bem vindos. O crescimento da demanda abre a possibilidade de novos negócios, sendo uma das características do empresário bem sucedido a compreensão de demandas emergentes e o fornecimento de novos produtos.

Dessa forma, mercados de bens de alto valor podem surgir, bem como de produtos a preços módicos, produzindo em ambos os casos o desejado aumento dos lucros. Este é comportamento que se espera em uma economia capitalista.

O fenômeno dos rolês, no entanto, mostra que esse saudável mecanismo parece não ter grande vitalidade na economia brasileira. A decisão da associação dos Shoppings Centers em impedir a ocorrência do “passeio de turma de adolescentes” – o real significado da gíria rolê – indica justamente o sentido contrário.

De fato, o mandado de segurança demonstra que o empresário do setor avaliou não valer a penar entender esse jovem consumidor, visando transformar o potencial de ganhos em realidade. Ao entrar na Justiça, deixou claro sua rejeição, contentando-se com isso com o atual conjunto de consumidores.

E, evidentemente, tal recusa de atendimento provoca o repúdio do jovem consumidor, como provocaria em qualquer cliente que fosse maltratado em um estabelecimento. Dificilmente teríamos movimentos violentos se o setor estivesse pronto para ofertar produtos para esse segmento. Não é difícil pensar em shows e produtos mais acessíveis.

Haveria então um despreparo dos empresários do setor?

A resposta também é não. Shoppings Centers se tornaram paraísos de consumo nos últimos trinta anos, verdadeiras promessas de segurança e ascensão social. No JK, por exemplo, temos a realização do consumo de classe alta, buscando a integração ao padrão de consumo de elite europeu e americano. Em Itaquera, por sua vez, temos a satisfação do ingresso na classe média, entendida miopemente como a mera capacidade de adquirir bens.

Além do mais, em uma sociedade que falhou na construção de espaços públicos de convivência – veja a carência de parques, praças, etc. – uma área privada se constitui na grande opção paulistana para o convívio coletivo. Quantos namoros começaram em um shopping em vez de em um passeio público à beira do rio Tietê ou Pinheiros? Dar um “rolê em um shopping center” – a praia do paulistano – é, portanto, convite irresistível, a mescla de “status”, ascensão e convívio público.

A recusa de atendimento a um consumidor de baixa renda, que é o jovem dos rolês, significa logo uma tentativa de preservação desta “Meca” da ascensão social, isolada, como se tudo que ocorresse fora não importasse. Contudo, as razões para isto não devem ser resumidas a um conflito entre classes ou o mero resultado de preconceito.

Ao embutir no seu produto o preço do status, o empresário pode ampliar sua margem, aumentando seus lucros. O outro lado da moeda é que isso implica que indivíduos que são desprovidos de status no imaginário social não devem participar do ato de consumir, pois, caso contrário, não há status. Ou seja, o empresário opta por ganhar vendendo um produto mais caro e com status do que lucrar pela quantidade.

Naturalmente, esse fenômeno somente é possível dado um baixo nível de competição da economia brasileira, fruto da desigualdade social e do baixo nível de renda, o que permite sustentar preços elevados a um público que tolera pagar valores mais altos para consumir status.

Isto explica os motivos pelos quais carros no Brasil tendem a ser tão mais caros do que no estrangeiro, inclusive quando comparados aos equivalentes europeus, cuja carga tributária também é alta.

A avidez por status social, permitindo um sobrepreço, é um traço histórico de nossa economia, pois, desde o início da ocupação portuguesa em 1500, sempre houve uma elite com capacidade de consumo similar à verificada nos grupos mais abastados dos países ricos do mundo. A capacidade de consumir, portanto, no Brasil, divide a sociedade de forma mais pronunciada do que a cor da pele e a própria origem étnica.

Nesse contexto, o ato discriminatório dos lojistas contra quem tem menos status na sociedade é esperado e, inclusive, racional.

Em qualquer livro de microeconomia, aprendemos que o produtor em uma economia capitalista busca discriminar seus clientes, conforme a quantidade almejada e sua vontade de pagar por um bem. No entanto, a teoria também ensina que isso reduz a eficiência econômica, visto que, possibilidades de comércio são perdidas. Em outras palavras, a custo do maior lucro do produtor, a sociedade fica mais pobre.

O atendimento ao consumidor do rolê acarreta a alteração da lógica econômica nacional, passando o lucro a decorrer da quantidade elevada vendida e não do preço astronômico praticado ao associar consumo ao status. A resposta da associação dos empresários ao fenômeno do rolê, portanto, se racionaliza pela tentativa de preservação das margens mais elevadas, via manutenção do status do shopping center, de paraíso das compras. Ao negar atendimento a um importante cliente, constata-se claramente que, a despeito do suposto milagre da classe média emergente, o caminho para uma sociedade de massas ainda é longo. A dura verdade é que ainda estamos muito longe de ser um país de classe média.

Jornal Valor Econômico – 17/01/2014




Nenhuma opinião publicada

O que você tem a dizer?