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Por Observador Conteúdo, em 21/01/2014 às 11:30  

Os ônibus – exagero e realidade

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É sabido que por suas características o ônibus é o único meio de transporte coletivo da capital paulista do qual se pode esperar, a curto prazo, um aumento considerável de desempenho, já que a expansão do sistema metroferroviário – no qual está a solução mais efetiva do problema, como mostram os exemplos das grandes cidades dos países desenvolvidos – exige tempo e grandes investimentos. O atraso histórico na construção do metrô é tal que não pode ser recuperado rapidamente, mesmo que se dobrem os recursos a ele destinados. Por isso, seria bom que o serviço de ônibus estivesse melhorando tanto quanto pretendem autoridades municipais e alguns técnicos que parecem seduzidos por juízos apressados.

Infelizmente, não é o que parece estar acontecendo. Descontado o alarde que o governo municipal faz em torno dessa questão por razões políticas – e ele portanto deve aumentar, com a aproximação das eleições -, sobram dúvidas sobre a propalada melhora dos ônibus. O dado mais recente que levou a novas apreciações otimistas sobre esse meio de transporte é o aumento do seu número de passageiros. Segundo a São Paulo Transportes (SPTrans), em 2013 foram feitos 6 milhões a mais de viagens de ônibus.

Antes de mais nada, trata-se de um aumento muito pequeno – de apenas 0,2% -, considerando-se que o total de viagens foi de 2,923 bilhões. Variações dessa ordem, para cima ou para baixo, não permitem conclusões taxativas. A prudência recomenda esperar para ver se elas se acentuam e se repetem, o que é importante para indicar ou não uma tendência. Tanto é verdade que se deve evitar otimismos exagerados – igualmente quanto ao aumento e a seu significado -, que a própria Prefeitura estima que o número de viagens chegará a 2,937 bilhões em 2014, nível próximo ao de três anos atrás, como informa reportagem do Estado.

Faltam por isso razões que permitam, a partir daí, sustentar que os 300 km de faixas exclusivas de ônibus implantados às carreiras no ano passado, juntamente com a implantação do Bilhete Único Mensal, vão produzir uma migração importante para os ônibus de paulistanos que usam carro ou o sistema metroferroviário. Até agora, só se observaram ganhos de velocidade em algumas linhas, não no sistema como um todo. Não poderia ser diferente, porque – como qualquer um pode constatar facilmente – a maior parte das faixas é subutilizada.

E tudo indica que isso ocorre porque o aproveitamento máximo dos corredores e faixas – supondo-se que estas sejam necessárias – depende de uma reorganização das linhas. Medida fundamental para a melhoria do serviço, e há muito esperada, que a Prefeitura ainda não deu mostras de estar fazendo seriamente. As mudanças foram poucas e, além de pegarem os usuários de surpresa, deixaram no ar a dúvida de se estão atendendo mais aos interesses destes ou das empresas do setor. Causa espécie o silêncio delas, que nunca mostraram entusiasmo pela reordenação das linhas.

Não custa perguntar mais uma vez: onde estão os estudos técnicos que justificam os 300 km de faixas exclusivas e orientam as mudanças das linhas de ônibus já feitas? Quanto tempo o piso das faixas vai suportar o tráfego de ônibus? Observe-se que para cumprir função semelhante os corredores têm piso especial, muito mais resistente, e mesmo assim são refeitos periodicamente.

Se a intenção do atual governo municipal é mesmo melhorar o serviço de ônibus, que, em sua maioria, circulam superlotados, deveria aumentar o número de veículos. Mas ele diminuiu no ano passado, quando ficou em 14.805, o menor desde 2009. A afirmação da SPTrans de que apesar disso o número de lugares aumentou, porque a frota está sendo renovada com veículos maiores, deve ser recebida com reservas. Há evidências de que mesmo assim a capacidade exigida desses veículos não suporta nem o aumento vegetativo dos passageiros. Não por acaso, decreto do prefeito Fernando Haddad no ano passado permitiu aumentar o número de passageiros transportados por ônibus.

Entre o exagero sobre a melhora dos ônibus e a realidade há uma grande distância.

Jornal O Estado de S. Paulo – 21/01/2014




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