Brasil

Por Observador Conteúdo, em 04/02/2014 às 11:40  

A Ucrânia é perto daqui

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É verdade que em junho, no ápice das manifestações, fazia uma temperatura menos assassina do que a que nos esmaga hoje em dia. Mesmo assim, é difícil ver algum ponto de contato entre os protestos do ano passado no Brasil e o que está ocorrendo agora na gelada Ucrânia, castigada por um frio que, no Brasil, não dá nem para imaginar.

No entanto, esse ponto de contato existe: é a geração internet, que se comunica on-line e acaba compartilhando valores, por maior que seja a distância entre os dois países ou entre a Ucrânia e outros países em que ocorreram ou continuam ocorrendo protestos.

Duvida? Confira então a descrição do jornalista Askold Krushelnycky, nascido em Londres mas descendente de ucranianos, e veja se não se aplica quase literalmente à que se fez, à época, dos manifestantes brasileiros:

“A jovem geração de ucranianos de hoje tem pouca ou nenhuma experiência do domínio soviético”, assim como os jovens brasileiros têm uma vaga lembrança, se tanto, do período militar.

“Têm acesso a um mundo mais amplo, o que, até uma década atrás, era difícil de imaginar. Muitos agora falam inglês, e muitos mais são peritos em computador. Por meio da internet, do cinema e de viagens, esses ucranianos habitam o mesmo espaço virtual que suas contrapartes na Europa Ocidental, nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália e em outros países democráticos e de economia avançada.”

Mais: “Seu senso de certo ou errado, seus valores e expectativas são similares ou idênticos aos de seus companheiros ao redor do mundo”.

Nem mesmo na violência contra policiais, alegadamente em resposta à violência policial, há diferenças.

A rigor, com um pouco de boa vontade, pode-se até dizer que os objetivos coincidem, embora por diferentes palavras de ordem.

No Brasil, pedia-se por escolas e hospitais padrão Fifa, ao passo que na Ucrânia o que se cobra é mais ambicioso: um país “padrão Europa”.

Foi justamente o ensaio de aproximar-se da Rússia, em vez da Europa, que motivou a ocupação de Kiev, a capital, e de outras cidades.

Como diz Krushelnycky, os ucranianos falam de Europa “referindo-se não apenas a fronteiras geográficas contendo os países da União Europeia, mas a um espaço cultural e psicológico que representa suas aspirações por democracia de fato e tudo que eles apaixonadamente acreditam que vem junto com ela”.

A grande diferença entre o Brasil e a Ucrânia se dá no tempo de permanência na rua. Aqui, não durou um mês. Lá, já são três meses e não há sinais de arrefecimento.

De todo modo, cá como lá, a rua está atropelando as instituições convencionais. Na Ucrânia, houve um esforço da oposição para assumir o comando do movimento, com êxito apenas parcial.

Aqui, houve pânico no mundo político, da situação e da oposição. Pânico que se mantém sob a superfície porque ninguém sabe o que acontecerá se a rua exigir mais adiante um “país padrão Fifa”.

Ainda mais que “Europa” tem um cara nítida, ao passo que Fifa é mais uma abstração.

Clóvis Rossi – Folha de S. Paulo (04/02/2014)




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