Brasil

Por Observador Conteúdo, em 12/02/2014 às 11:00  

Brasil precisa enfrentar o desafio da produtividade

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O professor licenciado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e colunista do Valor, David Kupfer, escreveu na edição de segunda-feira acreditar que o debate a respeito da produtividade ganhará cada vez mais espaço no país e que não se surpreenderia que se tornasse um dos temas centrais da campanha eleitoral deste ano. Afinal, o aumento da produtividade pode ser o motor do crescimento econômico tão aguardado, sem pressão sobre os salários e, portanto, sobre a inflação.

Kupfer lembrou que a politização da produtividade aconteceu há pouco no México, o mais novo preferido do mercado financeiro internacional. Em agosto, o novo governo mexicano lançou o “Programa de Democratização da Produtividade”, com o objetivo de estimulá-la nos quatro cantos do país. A promessa começou a ser cumprida com o anúncio de investimentos de pouco mais de US$ 300 bilhões em infraestrutura.

Kupfer pode estar certo. Ao analisar o discurso da presidente Dilma Rousseff no Fórum Econômico Mundial, realizado em janeiro, em Davos, o blog Casa das Caldeiras do Valor PRO, serviço de informações em tempo real do Valor, registrou cinco referências a produtividade, mais do que as quatro relativas à inflação, e não muito menos do que as seis de educação, oportunidade e parceria. Somente crescimento e investimento ficaram à frente com sete e nove referências, respectivamente.

Estudo dos pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), Fernando de Holanda Barbosa Filho e Samuel Pessôa, divulgado na edição de sexta-feira do Valor, mostrou que a produtividade subiu cerca de 0,8% em 2013, mas isso não compensou totalmente a queda de 0,9% do ano anterior. O número leva em conta o crescimento de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2013. Se o PIB for menor, a produtividade também será menor.

O levantamento da produtividade total dos fatores feito pelos dois pesquisadores, que levam em conta as horas trabalhadas e não a ocupação como em outros estudos, mostra um desempenho decepcionante, apesar da elevação do ano passado. Entre 2003 e 2010, a produtividade manteve um ritmo considerado forte, com aumento médio anual de 2%. De lá para cá, o crescimento médio anual da produtividade despencou para 0,4%.

Outros levantamentos também confirmam uma melhoria em 2013. O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) calculou que a produtividade da indústria cresceu 2,8% no primeiro semestre do ano passado. A produtividade estaria acompanhando a expansão de 1,9% da indústria no mesmo período, com recuo de 0,7% do emprego na área e de 0,9% das horas pagas e aumento de 0,6% da folha de pagamento, em termos reais. A produtividade da indústria diminuiu 0,7% em 2012 e ficou estagnada em 2011, segundo o Iedi.

O cálculo para o ano fechado de 2013 ainda não foi divulgado, mas deve ficar em um patamar menor porque a produção industrial recuou nos últimos meses e terminou 2013 com crescimento de 1,2%. Ontem, o IBGE informou que o emprego na indústria diminuiu pelo segundo ano consecutivo em 2013, recuando mais 1,1%; as horas pagas tiveram redução de 1,3%; e o crescimento real da folha de pagamentos foi de 1,2% – números piores do que os do primeiro semestre.

Qualquer que seja o estudo considerado, é visível a vulnerabilidade do Brasil nessa área. Para Kupfer, a indústria padece de uma rigidez estrutural que a leva a investir na modernização quando pressionada, mas não em expansão de capacidade produtiva, diversificação das linhas ou inovação de produto ou processo.

Já a Organização Internacional do Trabalho (OIT) avalia que o problema é que os trabalhadores que deixaram a agricultura foram absorvidos em atividades de baixa produtividade da área de serviços e não em indústrias de maior produtividade, como ocorreu na China. Outros especialistas compartilham do diagnóstico de que o crescimento da participação dos serviços na economia, especialmente os menos sofisticados, em detrimento da indústria, contribuiu para reduzir a produtividade.

Há entraves também na infraestrutura, como no México, e nos custos industriais, de tecnologia e de mão de obra. Para se chegar à solução do problema, porém, o ponto de partida óbvio é ter um diagnóstico claro das causas da baixa produtividade.

Jornal Valor Econômico – 12/02/2014




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