Opinião

Por Bolivar Lamounier, em 19/02/2014 às 11:27  

Venezuela, Ucrânia e um lembrete sobre a África do Sul

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Venezuela e Ucrânia parecem estar afundando em buracos da mesma fundura. Com uma diferença importante. A Venezuela, “se quiser”, afunda mesmo. A Ucrânia “não pode”, é por lá que passa o gás russo indispensável à Europa.

Voltemos à Venezuela. O imbróglio tem solução ou vai acabar em guerra civil? O relógio joga contra, é claro. De ambos os lados, as lideranças sensatas (suponho que existem algumas) terão que usar toda a sua habilidade, e mais alguma.

Esquematicamente, podemos pensar em três situações:

ELEIÇÕES. Em teoria, é a solução desejável, a que tem melhores chances de conferir legitimidade ao futuro governo. Mas é muito, muito complicado. Eleição a curto prazo é praticamente impossível. O potencial de violência é muito alto. Dá para pensar como resultado de um processo de negociação, de preferência com alguma mediação internacional. É concebível, mas não é fácil. Se acontecesse – digamos por três meses-, poder-se-ia marcar uma eleição para seis meses depois. Muito complicado também. O lado que se sentisse em desvantagem acusaria o adversário de tudo o que lhe passasse pela cabeça, haveria muitos episódios de violência em diferentes cantos do país; ao fim e ao cabo, o perdedor tentaria melar o jogo, adotando um discurso de deslegitimação de todo o processo. Outro complicador seriíssimo é a postura ideológica do lado chavista. Se a ideologização tiver mesmo a profundidade que aparenta, os chavistas podem até aceitar taticamente a solução eleitoral, mas não a aceitarão de boa fé. Uma ideologia milenarista, quero dizer, dessas que prometem o socialismo (a sociedade sem classes, o paraíso na terra), jamais aceitará perder o poder numa disputa eleitoral. Ideologia milenarista e alternância no poder são coisas incompatíveis.

MADURO CAI, A OPOSIÇÃO ASSUME. Este cenário também não garante nada. Maduro e os ministros podem renunciar, ou ser postos para fora pela pressão popular ou militar, mas a máquina do governo continuaria infestada de chavismo. Por ódio, ideologia ou temendo ir também para a rua, os remanescentes fariam o possível para sabotar o novo governo. Este, pegaria um país destroçado, com uma situação econômica calamitosa; na oposição, Maduro e seus seguidores ficariam só aguardando o momento para começar tudo de novo.

UMA TERCEIRA VIA. Esta hipótese depende do que pensam os “bystanders”, quer dizer, o círculo próximo ao poder, aqueles que não estão participando das decisões, mas as acompanham de perto e poderão de repente entrar no jogo. Refiro-me aos dois lados, é óbvio. Falo do segundo escalão político e administrativo, do que ainda existir de relevante nas elites econômica e religiosa, e na cúpula militar. Percebendo que as duas hipóteses anteriores envolvem riscos muito altos, estes protagonistas potenciais podem entabular negociações entre si com vistas a uma solução tão neutra quanto possível, que possa levar a uma transição consistente. Dito assim, pode parecer utopia, mas a situação na África do Sul por volta de 1990 era infinitamente mais complicada; o cenário provável era uma baita pancadaria, evitada porque atores importantes negociaram informalmente a solução Mandela.




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