Brasil

Por Observador Conteúdo, em 06/03/2014 às 14:29  

Estamos a 100 dias do fim de um sonho

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Em 30 de outubro de 2007 tinha início uma onda de euforia no Brasil, tomada por promessas de grandes realizações que contaminaram a sociedade com um sentimento de orgulho e esperança. Orgulho pelo futebol, que enfim voltava para casa, e pela esperança em se prover as cidades-sede da Copa do Mundo de 2014 com padrões de infraestrutura compatíveis com a trajetória de um país que se alçava ao seleto grupo do Primeiro Mundo. O brasileiro enxergava nessa escolha uma possibilidade real de que as obras finalmente ultrapassariam o contexto de curto prazo, imediatista, e se estenderiam para o futuro, como legado avalizado pelo evento de dimensões globais.

Em 2008, com a escolha puramente política das 12 sedes, a lista de projetos desenhava um novo Brasil, onde a matriz de responsabilidades trazia promessas de duplicação da capacidade de sete terminais aeroportuários, ligação por metrô ou por veículos leves sobre trilhos de seis aeroportos aos estádios e outras áreas das cidades, duplicação das redes metroviárias em quatro metrópoles, e criação de redes de monotrilhos e BRTs em quatro sedes. Contudo, em 2009, surgiu o primeiro sinal de um frustrante movimento de substituição da euforia pela dura realidade das limitações de recursos, impossibilidades técnicas e cronogramas apertados. O legado começava a ruir, com projetos de metrôs dando lugar aos BRTs, ligações metroviárias entre aeroportos cedendo espaço para a duplicação de avenidas já existentes, novos terminais sendo substituídos por temporários em vários aeroportos, enfim, tudo para não fazer feio em 2014. Naquele momento, o futuro do Brasil estacionava na final da Copa do Mundo.

Não bastasse tal desconsideração pelo povo brasileiro, a ‘confiante’ gestão pública nos preparou mais uma decepcionante surpresa. A cem dias da Copa, apenas parte das obras em andamento ficará pronta. Os estádios, no entanto, estarão no padrão Fifa e isso é o que interessa. Afinal, sempre poderão ser acionadas medidas emergenciais como a decretação de feriados, restrições aos movimentos nos dias de jogos para os corredores que levam aos estádios e maquiagens em aeroportos para passar a impressão de que o país está ‘entregando’ a Copa com excelência. É quando entra em cena a máxima que prega “dos males o menor” em associação com “tudo vai dar certo, pois Deus é brasileiro”.

A cem dias da Copa, é preciso, no entanto, trazer à tona aquelas boas lembranças para tirarmos lições em nome da continuidade de um sonho. Nas 12 cidades-sede existe hoje uma prevalência de projetos de mobilidade urbana que favorecem o transporte coletivo, embora muito acanhados em relação a 2007. A partir de agosto, a luta é para que se acelerem novos investimentos, em especial nos metrôs e trens metropolitanos, capazes de transferir pessoas dos seus veículos para o transporte de massa. Considerando o alto nível de urbanização do Brasil, em que cerca de 85% da população vivem em áreas urbanas, o favorecimento aos carros e motos é um grande obstáculo para a qualidade de vida nas cidades. Se a população brasileira cresceu 11% na última década, o registro de veículos aumentou 122%, sem que houvesse uma contrapartida do mesmo nível na oferta de transporte público. Este será um grande desafio, quando os torcedores voltarem a ser cidadãos no cotidiano urbano.

Uma segunda lição: a oferta de corredores de transportes deve levar em consideração o propósito e a dinâmica dos deslocamentos. Se hoje os projetos de mobilidade urbana para a Copa se restringem a prover um deslocamento eficiente, seguro e confortável para os turistas que sairão dos hotéis em direção aos estádios, os brasileiros no seu dia-a-dia também merecem esse benefício. Os gestores públicos precisam entender que as regiões metropolitanas são compostas de cidades-dormitório e centros de atração de viagens, formando uma rede dinâmica cujos fluxos ultrapassam os limites da cidade. Ou seja, mobilidade urbana não tem a ver somente com transporte, mas com uma eficiência de movimentos pautada pelos benefícios do equilíbrio entre fluidez e acesso. Outro grande desafio é a substituição da gestão da mobilidade urbana municipal pela metropolitana, com planejamento integrado para corredores intermunicipais.

Finalmente, chega-se aos aeroportos – exemplos de descaso com a infraestrutura nacional. Quando o turista desembarcar para acompanhar os jogos, encontrará painéis atraentes, com paisagens brasileiras de tirar o fôlego, mas que esconderão obras inacabadas ou cenas de Terceiro Mundo. Como os aeroportos são ambientes isolados e menos sujeitos à influência de variáveis incontroláveis, operações temporárias darão conta de cuidar bem do turista. Porém, dos 12 projetos aeroportuários nas cidades-sede, apenas três ou quatro estarão concluídos.

Nesse contexto, conhecendo a ineficiência do poder público em executar o prometido, optou-se pela concessão dos aeroportos à iniciativa privada. E talvez esta seja a grande lição: a incompetência do passado garantiu a melhoria futura, caracterizando um legado acidental.

Aqueles que limitaram o futuro do Brasil a julho de 2014 não estarão aqui quando as novas gerações cobrarem o respeito que por todos é merecido. Jogar o jogo da lamentação devido ao desastroso processo de tomadas de decisão que imperou de 2007 até agora é colocar lenha em uma fogueira que só aquecerá os oportunistas e os que pregam a máxima “dos males o maior”. A 100 dias da Copa, a grande lição está em aprender, mais uma vez, com os erros do presente, para que seja formada uma compreensão definitiva de que o país que construímos possui vida a ser respeitada após a Copa e que os grandes atores de hoje não passarão de sombras de um passado que lutaremos para esquecer.

Jornal Valor Econômico – 06/03/2014




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