Brasil

Por Observador Conteúdo, em 06/06/2014 às 09:47  

Uma enorme perda de tempo

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Precisou que os dados do PIB do primeiro trimestre do ano e os últimos resultados do desempenho industrial fossem divulgados para que se cristalizasse a percepção sentida pelos empresários de um modo geral no dia a dia de seus negócios: a economia está prostrada, para não dizer que regride a olhos vistos.

Quem ainda não se deu conta desta realidade, ou prefere não acreditar no que está ocorrendo, é o governo, ao insistir em adotar a política de nada fazer em período eleitoral.

Por que a economia progressivamente dá sinais de enfraquecimento? A razão principal reside na perda de confiança do empresariado na política econômica praticada pelo governo. Vale observar que a menor confiança alcança também o consumidor, de forma que o processo já envolve os principais responsáveis pelo investimento e pelo consumo. Não por acaso, os segmentos que mais prontamente refletem a deterioração do ambiente de negócios, como o de bens de investimento e bens duráveis de consumo, apresentam resultados cadentes –e vão arrastando os setores produtores de bens intermediários e bens de consumo não duráveis.

Neste ano até abril, a indústria de bens de capital produziu 4,8% menos que no mesmo período do ano passado, tendo sido de 1% o recuo de bens duráveis e de 1,2% o da indústria como um todo.

Potencialmente mais grave, por indicar aprofundamento na retração industrial, o tombo em abril merece destaque: a queda da produção industrial em geral, de 5,8% em relação a abril de 2013, foi puxada por bens de capital e bens duráveis.

Por que são relevantes tais considerações sobre a situação da indústria brasileira? A resposta é que esse setor, não é de hoje, está no centro do baixo crescimento econômico, sendo a razão maior da estagnação do PIB no primeiro trimestre.

A indústria, atualmente, tem pequena representação na economia, mas é muito mais expressiva nos investimentos e na inovação. Como investir e inovar são dois ingredientes indispensáveis para aumentar os ganhos de produtividade e assegurar o crescimento e o desenvolvimento social sustentados no longo prazo, o que se exige da indústria é que ela retome o protagonismo nesses processos.

Mas como recuperar o investimento e reativar as iniciativas inovadoras de um setor que vem de três trimestres seguidos de resultados negativos, medidos pela geração de valor agregado? De fato, tecnicamente, a atividade manufatureira, puxada pela indústria de transformação e a construção, está em recessão há nove meses.

Esta é a razão objetiva do desânimo empresarial. Com exceção da política monetária exercida pelo Banco Central, a condução da economia se notabiliza pela ausência de iniciativas que facilitariam a redução das incertezas empresariais e permitiriam a superação dos atuais entraves ao investimento.

Ao transferir para 2015 ações indispensáveis para a retomada econômica, certamente para se preservar de possíveis desgastes políticos-eleitorais, o governo impõe ao mesmo tempo o adiamento de decisões de investimentos que poderiam retirar a economia da má situação em que se encontra.

Por que investir agora, se é líquido e certo que ocorrerão mudanças relevantes na economia em 2015? A disseminação desse sentimento compromete em cheio não apenas a atividade econômica corrente, mas também, possivelmente, a do ano que vem. Enfim, trata-se de uma enorme perda de tempo.

Sem querer esgotar o rol de ações e reformulações que se fazem necessárias, seria fundamental dar partida o quanto antes, e não somente após as eleições, aos processos que permitirão restabelecer ou acelerar as condições para estimular os investimentos representativos de novas fronteiras de crescimento.

A título meramente ilustrativo, estes seriam os casos da infraestrutura, da energia elétrica, do petróleo e do etanol. No campo propriamente da indústria, já deveriam ter entrado em cena novas orientações de política industrial, de modo a diminuir a ênfase protecionista do mercado interno, deslocando o foco para a construção de competências para inovar e aumentar a produtividade. Isso requer, a nosso ver, uma profunda reformulação da política de comércio exterior e de reinserção do país na economia mundial.

Folha de S. Paulo – 06/06/2014




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