Economia

Por Observador Conteúdo, em 08/08/2014 às 09:02  

Doze anos sem rumo

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Com a indústria incapaz de competir, batida em todos os mercados e sem perspectiva de melhor desempenho a curto prazo, a Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB) iniciou, nesta quinta-feira, mais um encontro nacional de exportadores, com o problema dos custos como tema central. “O Brasil não é um país caro, mas está um país caro”, disse o presidente da associação, José Augusto de Castro. Os grandes entraves, segundo ele, são a carga tributária, a burocracia excessiva e a infraestrutura deficiente e sem integração.

De modo mais amplo, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Mauro Borges, apontou o aumento da produtividade como o principal desafio. O Brasil é prejudicado, segundo ele, por dois “grandes déficits estruturais”, o de capital físico e o de capital humano. Para enfrentar os dois problemas, faltou dizer, será preciso abandonar e inverter os critérios da política econômica mantida há mais de uma década pelo grupo instalado no poder.

O ministro, obviamente, evitou essa conclusão. Como a presidente Dilma Rousseff, ele parece esquecer de um interessante detalhe histórico: os petistas chegaram ao governo federal em janeiro de 2003. Estão completando, portanto, 12 anos de gestão. Mas ele prefere falar de períodos muito mais longos e confrontar os padrões atuais de planejamento com os dos anos 70, quando os militares governavam. “Perdemos a capacidade de planejar o País, de fazer projetos de qualidade, projetos macro de infraestrutura.” É verdade, e a baixa qualidade dos projetos tem sido denunciada pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Mas outros membros do governo costumam falar como se o seu partido houvesse restaurado os padrões de planejamento.

O ministro mencionou também o envelhecimento do parque fabril: em média, o equipamento tem 17 anos de uso. No caso dos competidores, essa média, acrescentou, fica entre 7 e 8 anos. Mas a idade do equipamento e as deficiências da infraestrutura denunciam um problema contornado sem maior discussão pelo ministro: o baixo nível de investimento público e privado. Empresários e governo terão sempre investido tão pouco nos últimos 4o anos?

Os números oficiais são desconfortáveis para o governo. No primeiro trimestre de 2000, o investimento em capital fixo equivaleu a 19% do Produto Interno Bruto (PIB). A relação caiu para 18,2% e 16,7% nos dois anos seguintes. Estava em 16,1% no começo de 2004, quando o PT completava um ano de governo. Subiu nos anos seguintes, com algumas oscilações, e só chegou a 19,2% – pouco acima, portanto, do nível do começo do ano 2000 – no trimestre inicial de 2010. Estava em 19,5% quando a presidente Dilma Rousseff iniciou seu mandato. A partir daí, despencou até 17,7% nos primeiros três meses deste ano.

Os governos petistas foram, portanto, incapazes, durante a maior parte do tempo, de manter a taxa de investimento registrada no fim do século passado. Ultrapassaram esse nível por um período brevíssimo e continuam muito longe da meta anunciada várias vezes pelo ministro da Fazenda, de 24% do PIB.

Mesmo esse pífio investimento tem dependido de capital estrangeiro. A taxa de poupança bruta despencou de 17% do PIB no começo da gestão da presidente Dilma Rousseff para 12,7% entre janeiro e março deste ano. Isso se explica, principalmente, pelo uso irresponsável de recursos públicos. O desempenho também ruim da indústria de máquinas e equipamentos combina perfeitamente com o baixo nível da formação geral de capital fixo.

O poder de competição da indústria acompanhou a deterioração do ambiente de negócios. Com muita improvisação e nenhuma estratégia digna efetiva, o governo abusou do protecionismo e da distribuição de benefícios a setores selecionados, sem realmente cuidar do potencial de crescimento do País. Em 2000, as vendas de manufaturados representaram 59,07% da exportação total. Corresponderam a 54,71% em 2002. No ano passado, ficaram em 38,44%. No primeiro semestre deste ano, em 34,45%.

Serão números estranhos para o ministro?

Jornal O Estado de S. Paulo – 08/08/2014




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