Educação

Por Observador Conteúdo, em 15/08/2014 às 08:57  

Medalha para o futuro

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Aos 35 anos, o carioca Artur Avila conseguiu um feito inédito para a ciência brasileira. Conquistou a Medalha Fields, o prêmio mais importante do mundo na matemática e, agora, a maior láurea já obtida por um pesquisador nacional.

Conhecida como o Nobel da matemática, a medalha é atribuída a cada quadriênio a cientistas de até 40 anos de idade. Desde sua concepção, em 1936, jamais um latino-americano a havia recebido.

Ainda mais notável, enquanto pesquisadores renomados de países em desenvolvimento costumam concluir sua formação nos EUA ou na Europa, Avila finalizou seus estudos no próprio Brasil, no Impa (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, no Rio de Janeiro).

Suas contribuições são decisivas em várias áreas da matemática, entre elas a de sistemas dinâmicos –cujas ferramentas são usadas, por exemplo, para descrever a evolução de epidemias e estudar como surgem espécies animais.

A comunidade acadêmica nacional tem motivos para celebrar. À distinção conferida a Avila somam-se dois sinais de prestígio para o Brasil. Em reunião anterior ao Congresso Internacional de Matemáticos, que se realiza nestes dias em Seul, Coreia do Sul, decidiu-se que o Rio sediará o próximo encontro, em 2018. Pela primeira vez o evento ocorrerá na América Latina.

Além disso, a capital fluminense foi escolhida para hospedar, em 2017, a Olimpíada Internacional de Matemática, tradicional disputa entre alunos pré-universitários.

Pesquisador do Impa e do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica, em Paris), Avila afirma, com razão, que a medalha “tira um pouco do complexo de vira-lata da comunidade científica brasileira”.

Se seu sucesso coroa o desempenho da matemática de alto nível no país, contudo, não se pode deixar de observar o brutal contraste com a precária situação do ensino básico dessa mesma disciplina.

Basta dizer que, na última edição do Pisa, um exame internacional padronizado, dois em cada três alunos brasileiros de 15 anos mostraram-se incapazes de entender percentuais, frações ou gráficos. Tampouco conseguiram interpretar situações que exigem deduções diretas a partir de uma informação.

O resultado pífio tem como consequência prática uma inaptidão para lidar com situações cotidianas que envolvam números e grandezas, além de uma baixa procura por carreiras ligadas à área científica.

Mudar essa situação é crucial para o futuro do país, mas a tarefa exige tempo. De imediato, a conquista de Artur Avila pode servir de inspiração nas escolas –e como estímulo aos governantes, que precisam fazer a sua parte.

Folha de S. Paulo – 15/08/2014




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