Educação

Por Observador Conteúdo, em 12/08/2014 às 09:35  

Meu Mundo quer educação

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Nem pão nem circo, o povo quer mesmo é ensino de qualidade. É o que indicam os resultados parciais da enquete Meu Mundo, iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU), em parceria com a Fundação World Wide Web, o Instituto de Desenvolvimento Internacional e entidades de todos os continentes. O propósito é eleger as seis prioridades globais pós-2015, prazo final de implementação dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, para melhor se enfrentarem os problemas, as desigualdades persistentes e os novos desafios que afetam o planeta.

Até a conclusão deste artigo 1,6 milhão de pessoas haviam votado. Para a maioria, a educação vem em primeiro lugar, seguida, nesta ordem, por melhores condições de saúde e de trabalho, governo honesto e atuante, mais acesso a alimentos de qualidade e melhor saneamento básico. A ONU deseja que a nova agenda das prioridades resulte de uma mobilização aberta e abrangente, capaz de envolver pessoas de todas as nações e de todos os grupos sociais. A pesquisa, portanto, será uma ferramenta para incluir as vozes da sociedade num amplo diálogo global. Espera-se que algo tão relevante e representativo do pensamento das populações sensibilize governos e lideranças mundiais.

É gratificante observar que os brasileiros estão bastante engajados nesse processo. Nosso país é o sexto com o maior número de participações espontâneas na sondagem, conforme demonstra o último balanço divulgado pela ONU. Aqui votaram 42.512 pessoas, universo de público muito maior do que a quantidade de entrevistados em pesquisas convencionais de opinião, fator que valoriza e corrobora ainda mais o resultado: o pensamento majoritário de nossos cidadãos coincide com a tendência global. Ou seja, estamos alinhados ao anseio planetário por ensino de excelência, item mais importante para nossa população. Na sequência, aparecem saúde, governo honesto, proteção contra o crime e a violência, meio ambiente e alimentos.

A consciência dos cidadãos brasileiros e do mundo sobre o significado da educação pública para o desenvolvimento com justiça social confirma a necessidade de o País dar prioridade à solução dos problemas que, há décadas, vêm afetando o setor. Não podemos continuar tão defasados em relação a outras nações nessa área vital, como demonstram os resultados do último Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O Brasil somou 410 pontos em leitura, dois a menos do que a sua pontuação na última avaliação, ocupando o 55.º lugar no ranking entre 65 países. Quase metade (49,2%) dos nossos alunos não alcança o nível 2 de desempenho, numa escala na qual o teto é 6. Isso significa que não são capazes de deduzir informações do texto, de estabelecer relações entre diferentes partes da narrativa nem compreender nuanças da linguagem. Em ciências (59.º lugar) e matemática (58.º), a situação não é melhor.

Diante de tais números, é notável que a produção brasileira de livros já alcance 500 milhões de exemplares anuais e nosso mercado editorial seja o nono maior do mundo, com faturamento em torno de R$ 5 bilhões/ano. Além disso, a terceira edição da pesquisa Retratos da Leitura – realizada pelo Instituto Pró-Livro, em parceria com a Câmara Brasileira do Livro (CBL), a Associação Brasileira de Editores de Livros Escolares (Abrelivros) e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) – demonstrou que em 2012 tínhamos 178 milhões de leitores em potencial (habitantes com 5 anos ou mais). Metade, ou seja, 89 milhões de pessoas, envolveu-se com a leitura de pelo menos uma obra no ano anterior ao estudo e 64% desses leitores veem nos livros “uma fonte de conhecimento para a vida”.

Para o setor editorial brasileiro, que tem feito imenso esforço no sentido de contribuir para ampliar a base de leitores no País, os dados do Pisa são preocupantes. Se, por um lado, temos conquistado bons resultados na disseminação do hábito da leitura, como demonstram as estatísticas, poderíamos ir muito além caso a qualidade do ensino público fosse compatível com as nossas metas de desenvolvimento e o legítimo direito de toda a sociedade à excelência na educação, que não pode ser um privilégio.

Avançamos muito nos últimos 20 anos com relação ao acesso e ao número de matrículas. A nossa “revolução educacional”, porém, ficou inacabada. A qualidade do ensino básico, condição essencial para o crescimento sustentado e a transformação do Brasil num país mais justo socialmente, pouco avançou. Se é que não ficou patinando, andando de lado. Este é o desafio a ser enfrentado: ter uma educação fundamental pública universalizada (o que ainda não alcançamos no grau médio ou na pré-escola) e com a qualidade necessária para que nossos jovens estejam aptos a progredir num mundo cada vez mais competitivo.

Para isso têm grande papel os autores e editores na elaboração de livros didáticos e paradidáticos. O mercado editorial brasileiro desenvolveu equipes e conhecimento para conceber com maturidade todos esses materiais. O poder público, principalmente a União, tem o dever de manter toda a infraestrutura e programas criados para selecionar, comprar e distribuir livros às escolas públicas de todo o Brasil. Às famílias cabe missão importante, principalmente no sentido de matricular e manter os seus filhos nas escolas, orientar e estimular.

Vencer a precariedade do ensino é um desafio de todos os brasileiros. Para cumpri-lo com êxito não existem atalhos. É necessária uma política educacional de Estado, que não sofra solução de continuidade e dê prioridade à educação básica, com foco na aprendizagem do aluno.

Jornal O Estado de S. Paulo – 12/08/2014




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