Saúde

Por Observador Conteúdo, em 08/09/2014 às 10:54  

Um ano de improviso

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Todas as sondagens de opinião a respeito do governo de Dilma Rousseff indicam que a saúde tem sido a área com a pior avaliação – passa de 70% a parcela dos brasileiros que consideram ruim ou péssima a gestão federal no setor. Essa indisposição mostra que todo o esforço marqueteiro que presidiu o lançamento do programa Mais Médicos, há um ano, não se traduziu, na prática, em melhoria real do atendimento da população mais pobre. A precariedade, como mostrou recente reportagem do Estado, continua a ser a marca da saúde pública no País.

O Mais Médicos foi apresentado como uma resposta de Dilma às reivindicações dos manifestantes que foram às ruas em 2013. Oficialmente, a intenção era estimular médicos brasileiros a trabalhar em locais em que o atendimento de saúde era raro ou inexistente. No entanto, graças às condições oferecidas – além da ausência quase completa de infraestrutura para clinicar, os médicos não teriam direitos trabalhistas como 13.º salário e férias -, poucos profissionais brasileiros se interessaram.

Assim, foram abertas inscrições para médicos estrangeiros, mas estes tampouco se mostraram atraídos pela oferta do governo. O Ministério da Saúde recorreu, então, aos médicos de Cuba – país que tem na exportação de seus profissionais de saúde uma de suas principais fontes de divisas.

Hoje se sabe que, muito antes do surgimento do Mais Médicos, o governo petista já tinha a intenção de importar médicos cubanos. Por trás da nobreza do programa, portanto, estava uma bem urdida estratégia para ajudar a financiar a ditadura dos irmãos Castro – e, de quebra, emplacar um factoide político-eleitoral.

A realidade mostra, porém, que nem os médicos cubanos, habituados a atuar em condições adversas, são capazes de realizar seu trabalho de maneira satisfatória diante da crônica falta de suporte no País.

Na periferia de Salvador, por exemplo, um dos profissionais cubanos é obrigado a atender seus pacientes em uma igreja, porque o posto de saúde onde ele deveria estar trabalhando não tem condições de funcionar. “O lugar não foi pensado para isso, a iluminação é insuficiente”, diz o médico, que não quis se identificar, certamente preocupado com as represálias que possa sofrer. Uma das pacientes desabafou: “Parece piada que, quando a gente enfim tem médico que vai ficar, não tem lugar para ser atendido”.

Situação semelhante foi encontrada no Grande Recife, onde há muito mais pacientes do que os postos de saúde são capazes de suportar. Com a demora no atendimento, muitos deles desistem de esperar.

O governo havia prometido também equipar os profissionais com tablets e fornecer sinal de internet nos postos de saúde, para que eles tivessem acesso a material de apoio e pudessem ficar em contato com seus supervisores. No entanto, vários médicos nem sequer receberam o aparelho – há casos em que os profissionais usam os próprios laptops e ainda pagam a internet quando estão em serviço nos postos.

A falta de tablets, porém, é o menor dos problemas. Comunidades indígenas do Alto Solimões, por exemplo, receberam com festa seus médicos cubanos, mas eles pouco podem fazer diante da falta de remédios e de água potável. Um dos médicos relatou como é difícil conseguir encaminhar seus pacientes para tratamento de média e de alta complexidade. Para encontrar um urologista ou um cardiologista, é preciso encarar três dias de barco até Manaus.

É inegável que a ausência de médicos em lugares remotos ou periféricos do País é um problema que tem de ser resolvido com a maior brevidade – e os elogios dos pacientes aos profissionais do Mais Médicos, que realizam apenas o atendimento básico, comprovam essa urgência. No entanto, não se pode resolver um problema dessa dimensão apelando a soluções amadoras e paliativas, que só se prestam a angariar simpatia eleitoral enquanto negligenciam o essencial. O governo que recorreu à importação desembestada de médicos da ilha dos companheiros cubanos é o mesmo que, entre 2010 e 2013, fechou quase 13 mil leitos do Sistema Único de Saúde.

Jornal O Estado de S. Paulo – 08/09/2014




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